quarta-feira, 29 de julho de 2015

Suíça e França: ordem, regras, espiritualidade e missão pessoal.

                                           Na minha mesa de trabalho em Thoiry, França.
                                                  Na igreja das mulheres, em Zurique.
                                                         Em Casablanca, Marrocos.
                                                        Na casa de Voltaire, França.
                                      Com o artista dos cristais: Jean-Pierre Dermoneux



Passei o mês de julho de férias entre uma cidade francesa próxima à fronteira suíça e Genebra. Estive em Zurique, Bern, Genebra, Montreaux, Ferney Voltaire, Thoiry e Yvoire observando a estrutura de vida dos europeus, sua organização e visão de mundo. Alguns choques culturais foram inevitáveis, pois não é fácil para um brasileiro criado na informalidade aguentar os padrões suíços de organização. Na Suíça a regra não é a exceção. Para tudo há regras claras que devem ser respeitadas em prol do bem comum. Para um brasileiro acostumado ao caos, às vezes o excesso de ordem pesa como a gravidade, mas depois de um tempo - passado o choque inicial - a gente se acostuma, e até gosta. :) 
 
Eu havia estado em Genebra em 2013, participando do Salão do Livro com minha obra literária, e naquela época tive uma impressão peculiar da Suíça. Naquela primeira viagem até a vista dos alpes me oprimia um pouco, pois sentia-me cercada e murada. Mas desta vez foi diferente. A Suíça é um país que deu certo porque compreendeu que a humanidade precisa de leis precisas e eficazes para coabitar em harmonia. O Brasil é um pouco "terra de ninguém" e isso leva a uma desordem crônica e incurável.
 
Ainda estou digerindo a viagem e minhas impressões reais sobre tudo ainda estão em construção. Como autora, artista e amante da alta cultura, a Suíça e a França falam mais alto ao meu lado emotivo, e fica difícil separar as coisas. Um dos pontos fortes da viagem foi uma visita à casa de Voltaire, na França, logo que cheguei. Conheci muitos lugares interessantes depois disso, mas a casa de Voltaire ficou impregnada em mim como perfume. Voltaire era um homem de sorte. Sua casa é de uma beleza impactante, rodeada de jardins e elementos estéticos que podem ter facilitado sua percepção filosófica humanística. Pisar na casa de um grande filósofo, estar na presença física de um espírito que cumpriu sua missão na Terra mexeu muito comigo.

Outra visita marcante foi ao Instituto Jung e à cidade de Küsnacht, onde viveu a psicanalista junguiana, Marie Louise Von Franz, uma das mulheres que eu mais admiro no mundo. A Suíça mexeu muito comigo por ser um local meio místico, um ponto de encontro das pessoas que mais me influenciaram como Jean Piaget, Jorge Luis Borges (foi enterrado em Genebra), Rousseau, Calvino e Jung, todos seres evoluídos que realizaram sua missão com grandiosidade e eficácia.       
 
A busca da missão pessoal é outro tema que veio à tona nesta viagem. Cada uma das minhas viagens me ensina uma lição diferente. Quando morei em Portugal o tema da cultura era a lição a ser aprendida. Minha viagem a Paris me fez questionar sobre a importância da estética na arte, e essa viagem à Suíça despertou em mim a reflexão sobre a questão da nossa missão pessoal.
 
Conheci pessoas que sentem que não possuem o senso de missão e isso me intriga muito. Desde muito cedo eu sabia que não tinha vindo ao planeta a passeio. Desde menina eu me preocupava em aprender o máximo de coisas possíveis sobre tudo porque eu achava que precisaria estar pronta para enfrentar minha missão na hora que ela se apresentasse. Era como se eu intuísse que havia assinado um contrato antes de descer ao planeta e que precisaria cumpri-lo a todo custo no momento certo. Naquela época ainda não estava muito claro qual era a minha missão nesta vida, mas eu possuía um sentimento forte de que eu tinha uma. Mais tarde, aos 15 anos, a coisa ficou mais definida quando meu talento para a escrita se manifestou, despertando a admiração dos meus professores escolares e o incentivo de outros autores. O estudo da arte, da psicanálise e da espiritualidade refinou meu trabalho e compreendi que minha missão pessoal era ajudar as pessoas a se autoconhecerem e evoluírem por meio da literatura e da Educação. Eu mesma estou em processo acelerado de autoconhecimento e evolução e compreendi que a minha missão não é a de entregar respostas prontas a ninguém, mas de compartilhar minha própria jornada de modo que possa colaborar com o crescimento e a busca individual dos seres em evolução.
 
Meu senso de missão - e a realização pessoal gigantesca que sinto quando a estou realizando - deu origem à metáfora do túnel. Um amigo suíço disse que eu vivia dentro de um túnel, focada ao extremo e comprometida com o destino final sem olhar as paisagens em volta. Mas isso é apenas uma meia-verdade. Acredito que a metáfora do túnel seja adequada a todos os que possuem um grande objetivo na vida. Esportistas, cientistas, artistas e outros profissionais de alta performance, certamente trabalham em "túneis" para atingir a excelência no que fazem. O túnel, para mim, é apenas um caminho bem definido, uma reta traçada que deve ser cumprida com determinação e diligência. Quando se tem um objetivo bem definido na vida, há que se trabalhar duro para realiza-lo. O túnel representa apenas um mapa dessa caminhada, um lembrete que não devemos nos desviar da meta final.
 
Porém, o túnel não me impede de passear pelo mundo e observar as coisas de forma mais abrangente. Como artista estou sempre interessada nas coisas do mundo e na singularidade das pessoas, pois essa é a matéria prima do meu trabalho. Eu sou aberta ao mundo e me interesso muito pelo que as pessoas têm a dizer, apenas não posso me distrair a ponto de descumprir o "contrato que assinei lá em cima". 
 
Durante a viagem conheci artistas e pessoas como eu que também possuíam uma forte sensação de missão pessoal. É interessante observar que as pessoas que encontraram sua missão verdadeira vivem de forma muito mais tranquila e harmoniosa. Quando você faz aquilo que nasceu para fazer, todo o resto é secundário, pois a felicidade e a paz interna tomam conta do seu ser. Conheci um artista que me encantou pela sua sabedoria: Jean-Pierre Dermoneux, o pintor dos cristais. Esse pintor possui um senso de missão claro: "Estou cumprindo a missão que Deus determinou pra mim: revelar a beleza por meio da conexão entre a arte e a natureza. Todas as cores têm origem nos cristais e isso foi o que o Van Gogh não compreendeu."
 
Jean-Pierre vive como um monge. Não vê televisão, dorme cedo, cuida do trabalho e da esposa com dedicação, e investe todo seu tempo livre na realização da sua missão. Você chega ao lado dele e sente a felicidade vibrando em sua alma. Esse homem simples, e extremamente sábio, compreendeu o sentido da vida na realização de sua arte singular. Para ele os prazeres fúteis do mundo não dizem mais nada.   
 
Conheci outro artista interessante na França, um escultor religioso que estava em crise por achar que seu talento não estava à altura daquilo que ele deveria realizar por meio da sua arte. Esse sentimento é típico das pessoas que possuem um senso de missão definido. Ele SABE que precisa cumprir algo maior, mas não se sente pronto. Essa angústia é fruto desse chamado transcendental. Nós sabemos que precisamos realizar algo para os outros, mas às vezes, nos sentimos empobrecidos e crus. Minha sugestão a ele foi que começasse de onde estivesse, pois compartilhar nossa jornada humana rumo à evolução do espírito é a missão maior, acima dos talentos individuais.
 
Esculpa sua dor, seu medo e sua angústia. Parta do zero. Mostre ao mundo que esses sentimentos são reais e humanos, enfrente seu maior tabu. Isso também faz parte do processo de realização da missão: rasgar o véu da nossa vaidade e mostrar ao mundo a nossa vulnerabilidade humana.    
 
Mas as pessoas que não possuem esse sentido bem definido de missão também me fazem pensar. Talvez a missão que temos como definida seja apenas um talento prático, como saber costurar ou cozinhar. É apenas algo especial que você sabe fazer bem para servir aos outros. Mas hoje acredito que a missão pessoal pode ser algo mais sutil do que isso, como o chamado para o aprimoramento pessoal.
 
Pessoas que estão em busca de iluminação espiritual estão cumprindo a missão maior do espírito. Não é necessário saber pintar, escrever, cozinhar ou se exercitar para realizar nossa missão pessoal. A dedicação aos estudos mais elevados, o auto aprimoramento pessoal e o confrontamento das sombras para que sejam transformadas em luz exigem tanto trabalho, foco e determinação como a arte, a ciência e o esporte. 
 
Acho que no fundo todos nós temos uma missão. Todos nós assinamos um contrato antes de descer ao planeta para que pudéssemos acertar algumas contas e realizar algumas coisas específicas.
 
E foi isso o que a Suíça me deu, a oportunidade de refletir sobre a nossa missão pessoal e encontrar o meio mais adequado de realiza-la. Tô grata. ;)