sexta-feira, 27 de julho de 2012

DE PAI PARA FILHA





Ricardo Ramos, meu pai, enviou-me um e-mail dizendo que meu estilo literário pode ser comparado ao do russo Gogol. Por incrível que pareça eu ainda não havia lido "O Capote", considerado o pai da literatura moderna por outro russo ilustre: Dostoievski. Fui correndo na internet e baixei a obra prima de Gogol que causou-me risos, gargalhadas, angústia, dor e um sentimento terrível de amor e temor pela humanidade. Fiquei honrada em ter meu trabalho comparado ao do mestre russo por outro mestre brasileiro, meu pai. Em meu último post conto um pouco sobre minha jornada na carreira literária e meu pai  então enviou-me outro e-mail (publicado abaixo na íntegra) revelando que minha paixão pelos livros tem possível origem genética: foi herdada do meu avô, e depois dele mesmo, meu pai. Ricardo Ramos é um pintor apaixonado pela arte do mundo, um seguidor entusiasta de Michelângelo e por este motivo, iniciamos uma parceria artística em UM NEURÓTICO NO DIVÃ, pois todas as ilustrações da obra estão assinadas por ele. Sou muito sortuda de ter nascido numa familia de intelectuais. Segue abaixo a versão de meu pai sobre meu gen artístico.      


Tamara, você tem a quem puxar. Vou contar uma historinha interessante. Quando eu tinha meus 14 anos, pedia sempre dinheiro a meu pai para sair com os amigos nos fins de semana (ir ao cinema, comprar pipoca, fazer um lanche etc.). Então ele me propos que fosse trabalhar com ele de Office Boy na parte da tarde, pois estudava de manhã no Ginásio Santista. Assim foi feito. Comecei a trabalhar em seu escritório e fiquei conhecendo sua pequena mas interessante biblioteca. Vô René era ávido leitor e possuia algumas obras que me atiçaram a mente. Desse modo, além de ler na escola, por obrigação, alguns autores nacionais tradicionais, como José de Alencar, Machado de Assis e outros mais cujos exemplares vinham da biblioteca de meu pai, passei a conhecer autores estrangeiros como Henry Miller, Gogol, Boris Pasternak Tolstoi, Lin Yutang, este chines, e até A Divina Comédia de Dante, e os Lusiadas de Camões, todos muito bem encadernados e organizados. Li também quase toda a obra de Jorge Amado, Graciliano Ramos e outros que não me vêm à memória agora. Tinhamos em casa o Tesouro da Juventude, uma espécie de enciclopédia escolar de 18 volumes ! Tínhamos mais coisas. Assim, pude conhecer alguma coisa de literatura - acho que tia Renata ainda tem algumas dessas obras em casa. Veja então que sua mãe é intelectual, seu pai sempre gostou de ler e herdou esse gosto de seu avô, uma pessoa bastante culta que falava inglês correntemente. Sabe porque ele seguia sempre como chefe da delegação do Santos Futebol Clube quando excursionava ao exterior ? Porque era o único diretor que sabia falar inglês.  Depois de 25 anos no Santos, ele saiu com o título de benemérito, como também o era da Federação Paulista de Futebol onde permaneceu por 22 anos seguidos, com Mendonça Falcão, Paulo Machado de Carvalho, que dá nome ao Estádio do Pacaembu em São Paulo, e José Ermínio de Morais Filho, irmão do Antonio Ermínio, donos da Votorantins, todos presidentes. Paulo Machado de Carvalho era dono da TV Record e era chamado de General da vitória, por ter comandado as excursões vitoriosas da Seleção Brasileira de 58 na Suécia e 62 no Chile. A homenagem que fizeram ao Vô na Vila Belmiro foi merecida e fiz questão de frizar isso naquele dia ao falar ao público agradecendo a lembrança. Beijos.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

LANÇAMENTO DO LIVRO: UM NEURÓTICO NO DIVÃ




Não me lembro do dia exato que decidi pela carreira de escritora. Minha lembrança mais longínqua do meu contato com os livros está lá na infância. Meus pais são super leitores apaixonados por livros e na minha casa havia uma estante de madeira que ia até o teto com mais de dois mil volumes lidos por eles. Minha mãe costumava contar histórias para nós e lembro que aos nove anos de idade me apaixonei por uma coleção de contos de suspense onde o autor dava ao leitor a possibilidade de escolher vários finais. Era assim, quando aparecia uma cena suspeita o autor perguntava ao leitor: Se você acha que o ladrão é madame fulana vá para a página 25, se acha que é o mordomo retorne a página 10. Eu lia e relia aqueles livros tentando encontrar todos os finais possíveis e me deliciava com aquelas histórias.

Aos 12 anos descobri a poesia de Fernando Pessoa pela minha tia Rô. Ganhei o livro "O Eu Profundo e Os Outros Eus" e adorei a ideia de poder ser mais de um através das letras. Aos 14 anos comecei a escrever meus próprios poemas muito timidamente, imitando os poetas famosos como todo novato faz. Ainda não tinha uma personalidade própria e por isso limitava-me a copiar quem a tinha. Aos 15 anos uma professora de português se encantou com minhas redações e começou a guardá-las. E penso que minha carreira teve início aí.

Hoje estou com quase 35 anos e então não posso mais me considerar uma escritora novata porque embora meu primeiro livro só tenha sido publicado agora, já possuo 20 anos de carreira! :)   

Em 2011 aventurei-me sozinha pela Europa e tive a oportunidade de trabalhar numa pequena editora que me deu a chance de ler mais de 30 livros em poucos meses. Foi lá na Europa que me apaixonei por Milan Kundera e Alan Bennett e acredito que o sucesso que estou começando a obter agora também seja fruto do meu contato com os grandes autores europeus.

O livro Um neurótico no divã ganhou o Prêmio Anchieta Arte e Cultura no mês de abril e foi esta vitória que me permitiu lançar a obra. Artista não tem dinheiro em começo de carreira e eu, como a maioria do grupo, também sobrevivi na dureza alimentada apenas pela paixão por minha arte. Foram anos brigando com dezenas de emprego que eu comparecia apenas para fazer dinheiro para comprar mais livros. É isso mesmo. Aliás, desde minha juventude, lembro que juntava minha mesada para gastar inteira na livraria. Nunca tive dinheiro para comprar casaco Chanel, bolsa Vitor Hugo e  vestido Dior e sinceramente? Isso nunca me fez falta alguma porque meu tesão está mesmo em comprar livros.

Depois de escrever 5 livros de poesias e um infanto-juvenil de trocentas páginas comecei minha jornada árdua pelas editoras do Brasil e de Portugal. Foram muitos nãos, e nãos, nãos. Os nãos eram tantos que cheguei a abrir uma pasta no meu e-mail chamada: NÃO e  salvava os nãos ali. Lá no fundo eu sabia que um dia receberia um SIM, mas até lá segui colecionando os nãos.

Chegava a sentir vergonha dos amigos que me perguntavam sempre: e aí? Já conseguiu publicar? A resposta foi não durante muitos anos. Mas aí eu lia a biografia de James Joyce e me consolava pensando que até mesmo ele levou 9 anos para receber um SIM ou a JK Rowling que levou 7 anos para que seu Harry Potter fose aceito por uma pequena editora corajosa. Fiquei viciada em biografias de escritores e isso foi ótimo para mim porque ali comecei a entender a qual clube eu pertencia. As histórias se pareciam tanto com a minha que passei a não ligar mais para meus fracassos pessoais, porque no fundo não eram assim tão pessoais, eram meio que a sina do grupo ao qual eu seguia.  

O importante é que mesmo com a bagatela de nãos recebidos eu segui escrevendo e criando mundos de ficção cada vez com mais alegria. A editora tal não gosta do meu trabalho? Azar! O editor tal acha que meu trabalho não é bom o suficiente? Problema dele! Em momento algum eu deixei de acreditar em mim mesma e acho que devo isso ao apoio dos amigos e principalmente da família. Sempre fui incentivada e encorajada dentro da minha casa e isso me deu forças para prosseguir. Deixo aqui impresso meu agradecimento.

O que importa é que hoje estou colhendo os frutos da minha persistência e Um Neurótico no Divã é prova disso. Ainda não fiz o lançamento oficial (que será dia 16 de agosto em Caratinga) e os livros ainda não estão à venda nas livrarias do país, mas eu chego lá.

Acho que a mensagem principal que esta vitória nos deixa é sobre a importância de perseguir nossos sonhos e isso serve para qualquer carreira. Nunca fui uma pessoa comodista e os percalços da minha vida (pessoal, financeira, amorosa) jamais paralisaram o meu caminhar. Pelo contrário! Quando a coisa vai mal em qualquer aspecto  da minha vida sempre me fortaleço na paixão que tenho por minha profissão. Podem ir os amores, o dinheiro, os amigos, pode tudo ir embora de vez desde que os livros fiquem. Aliás, cedo ou tarde também eu vou partir para sempre, mas minha obra sobreviverá a mim e me transformará num nome eterno. Se isso é importante? Talvez não. Seja como for, quando eu não pertencer mais a este mundo serei sempre motivo de grande incentivo para todos aqueles vivos que estiverem lutando pelos seus sonhos no período de sua existência. 

Realização para mim é poder olhar minha obra impressa e descobrir que não desperdicei minha vida com besteira. É descobrir que fiz algo bacana com a minha vida e curti cada momento que estive respirando por aqui.

Obrigada a todos os amigos, parentes, leitores, pessoas próximas ou distantes de mim que de alguma forma concorreram para o sucesso da minha jornada. Todos são importantes e inesquecíveis. A vida é cheia de mestres, basta estar aberto para reconhecê-los. Obrigada.

terça-feira, 24 de julho de 2012

ERNEST HEMINGWAY: PARIS É UMA FESTA



Ontem estava lendo um livro póstumo de Hemingway e fui dormir pensando sobre a vida e os valores do artista. Trata-se  da obra PARIS É UMA FESTA (Bertrand Brasil) que foi escrito entre os anos de 1957-1960. Hemingway estava  examinando as provas deste livro quando deu um tiro na cabeça em 1961, por isso não chegou a  vê-lo publicado.  O fato de ser um livro escrito no últimos momentos da vida do escritor deu um poder maior à mensagem transmitida ali.

Quando lemos "Paris é uma festa"  temos a sensação de que  Hemingway estava nostálgico e dá até mesmo para conjecturar que talvez ele tenha cometido suicidio porque não estava aguentando a  saudade de tudo aquilo que viveu. O livro cobre o período de 1921 a 1926, quando o escritor extremamente pobre larga a carreira de jornalista nos Estados Unidos e muda para Paris em busca do sonho de tornar-se um grande literato. Em 1961, quando Hemingway  decide botar um fim na própria  vida, ele já era um autor conhecido e aclamado no mundo inteiro tendo conquistado tudo aquilo pelo que lutou (como mostra a foto acima que traz Hemingway na capa da Life). Mas talvez a jornada tenha sido mais saborosa. Como apreciador de boxe, corridas de cavalo e touradas, Hemingway gostava de lutas, e quando esta acabou,  acabou também o sentido da sua vida.

O que me deixou emocionada na narrativa de Hemingway foi sua sensibilidade diante da vida e do que realmente é importante. Ele diz que embora fosse paupérrimo (passava mesmo fome, pois não tinha dinheiro para se alimentar direito em Paris) ele não se achava pobre. Dizia que a arte o alimentava. Quem possuía o talento para  caminhar pelo mundo da arte já possuía tudo. E havia um mundo riquíssimo dentro dele que o alimentava bem. O escritor não tinha dinheiro nem mesmo para alugar livros usados na lendária livraria Shakespeare & Company de Sylvia Beach, e por isso a proprietária da casa deixava Hem (como era conhecido) levar tudo à prazo, pagando quando pudesse. Já imaginou Hemingway sem dinheiro até mesmo para alugar um livro usado? E foi na Shakespeare&Co que Hemingway leu os russos: Tolstoi, Dostoievsky, Pasternak e depois os franceses e também os novatos autores americanos com o intuito de comparar seu próprio trabalho com os de seus conterrâneos. E foi dentro daquela livraria que o maior escritor americano tornou-se grande. 

Quem assistiu Meia-Noite em Paris de Woody Allen (filme que eu recomendo quase implorando para que você assista, pois é genial) vai se sentir familiarizado com Paris é Uma Festa. O período dos Anos 20 foi a época de ouro onde os maiores nomes  da pintura e da literatura mundial tomavam vinho juntos e jogavam conversa fora nas mesas de um mesmo bar. Hemingway conviveu com Picasso, Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Gertrude Stein, James Joyce e mais duas dúzias de gênios do seu tempo. Imaginem o que significa isso para um jovem aspirante à escritor. É o cúmulo do incentivo! Hemingway sentia-se sempre desafiado a fazer o melhor porque vivia entre os melhores. Sempre acreditei que o ambiente propício transforma o homem. 

O livro Paris é Uma Festa também revela bastante sobre o ritmo de produção literária de Hemingway. Por exemplo, o escritor trabalhava à mão, usando lápis e escrevia poucas páginas por dia. No início especializou-se em contos e  achava que jamais conseguiria escrever um romance longo por causa da sua objetividade no uso das palavras. Temos ali o retrato de um autor pobre e desconhecido lutando com todas as suas forças para tornar-se alguém importante. Como escritora tenho muita facilidade em me identificar com a luta de Hemingway para ver sua obra publicada. Interessante notar que seu país de origem (EUA) o rejeitava frequentemente e seus primeiros contos só foram  traduzidos e publicados em uma revista literária alemã. Ao preço de 12 francos por conto, o jovem Hemingway mal sustentava a si mesmo, muito menos esposa e filho. Mas havia também um espírito de união entre os artistas e os mais bem sucedidos sempre se uniam para ajudar os que estavam na pior.

Para quem é fã deste período da história da arte recomendo a leitura de Paris é Uma Festa com entusiasmo. Embora cubra apenas a década de 20, sinto que a obra é a verdadeira autobiografia do escritor, porque ao que tudo indica, este foi o período que mais valeu a pena para Hemingway. É como se a essência toda de sua vida  estivesse compactada ali. Boa leitura!        

domingo, 22 de julho de 2012

VALENTE: O ARQUÉTIPO DE ATALANTA NUMA PRINCESA MODERNA



Como escritora tenho pouco preconceito com relação aos filmes que escolho assistir. Com exceção dos filmes de guerra, comédias infames e gênero de terror, gosto de quase tudo. Quando a Disney, em parceria com a Pixar, anuncia um filme novo fico doida por um ingresso, entro no cinema feliz da vida e sempre me deixo levar pra qualquer mundo de ficção maluco que os diretores inventam para nós. 

Quando me aventurei a escrever livros infanto-juvenis a primeira coisa que fiz foi ir a locadora atrás da minha casa e alugar tudo o que eles tinham à disposição: de Harry Potter a Coração de Tinta passando por Shrek e Robin Wood, sem medo do ridículo. E confesso que me diverti tanto quanto me divirto em minhas saídas noturnas acompanhada de pessoas da minha idade. :) 

O que tenho percebido nos filmes atuais da Disney é que o ideal de princesa pura, encantadora e paciente diante da espera pelo príncipe encantado, morreu. Em Enrolados (Tangle, 2010) eu já havia ficado intrigada com a perpsectiva da personagem de Rapunzel que, num ato de pura  rebeldia, corta as tranças e fica tão moderna como uma jovem parisience do século XXI. No novo filme da Disney, Valente (Brave, 2012), a história se repete.  Merida é uma princesa escocesa dona de um espírito guerreiro tão afiado que chega a derrubar todos os seus pretendentes num duelo de arco e flecha.

Quando vi esta cena em particular lembrei-me da figura mitológica grega de Atalanta, a mulher guerreira.  Atalanta nasceu mulher para o desgosto de seu pai, que aguardava um filho homem. Para compensar a suposta fragilidade de seu sexo, Atalanta assume a postura predominantemente masculina de um gladiador, moldando seu caráter ao gosto da figura paterna. Na idade de se casar, Atalanta decide que apenas se entregará ao homem que a vencer numa gincana feroz, cujos desafios jamais poderiam ser superados por homem nenhum, pois ela era mestra em todos eles. Ou seja, a masculinidade de Atalanta, por ser arquetípica, era superior a masculinidade de um homem real.

Tanto na história de Atalanta quanto na história de Merida temos um drama psicológico no confronto com a personalidade feminina: a mãe. Atalanta apresentava um ânimus exacerbado e não se identificava com nenhum aspecto feminino, sentindo  aversão pela mãe e admiração pelo pai. No conto da Disney temos algo parecido: a princesa da Escócia sente-se mais identificada com o pai troglodita, revoltando-se contra a postura superportetora e arquetípica da mãe. Este desajuste leva a um desfecho interessante quando, após ingerir uma poção mágica feita pela filha, a mãe tranforma-se em urso, um animal selvagem e indomável que segue apenas o mais puro instinto. Interessante notar que nesta reviravolta mãe e filha se reencontram uma vez que a personalidade do urso dá a mãe a possibilidade de "estar na pele" da filha no sentido mais figurado. A mãe precisa compreender profundamente esta filha para que possa haver uma real comunhão. Antes da transformação elas eram tão opostas que não havia meios de um entendimento genuíno. 

Mas quando a situação se inverte tanto a mãe passa a compreender a alma selvagem da filha, como a filha entende as razões da mãe em sua atitude protetora e zelosa. Embora seja uma história feita para crianças, estou certa de que criança alguma poderia compreender as nuances psicológicas embutidas na mensagem do filme. Quanto mais assisto aos filmes infantis, mas compreendo o trabalho incrível da Dra. Marie Louise Von Franz, cuja pesquisa sobre o material psicológico nos contos de fada é capaz de curar uma alma doente.     

Para quem gosta de psicologia há muito que se analisar no filme Valente, mas vou deixar o desafio para o meu leitor mais curioso. Além das variações psicológicas, há que se falar da beleza estética dos filmes da Disney.  Valente é uma superprodução de tirar o fôlego!  Em muitos momentos a gente esquece que está assistindo a uma animação feita em computador, pois as cenas são tão reais que parece filmagem em terreno sólido. As cores de Valente também podem ser consideradas um espetáculo à parte. Os cabelos de fogo  da personagem, contrastando com a paisagem verde das florestas da Escócia, são de uma perfeição extrema.

Outra coisa bacana, e que deve ser apreciada, é a aparência física de Merida, a princesa. Desta vez a Disney fugiu totalmente dos estereótipos criando uma personagem fora dos padrões. Os cabelos cor de fogo encaracolados e despenteados de Merida é uma atração linda e anti-convencional. Merida parece uma deusa viking ou uma sacerdotisa celta, o conjunto todo é exótico, exuberante e um bálsamo para quem está cansado das princesinhas americanas com cara de Barbie.   

Se estiver de bobeira em casa neste domingão, vá ao cinema assistir Valente.  Há também em versão 3D para os que querem uma emoção ainda mais intensa!  Vale a pena.  

sexta-feira, 20 de julho de 2012

30 MIL ACESSOS!



Esta semana o blog "E eu que era tudo ou nada ao meio-dia" atingiu a marca dos 30.000 acessos! Esta é uma grande vitória pra mim e gosto de comemorar vitórias com meus leitores. 

Quando iniciei o blog em 2007, não podia imaginar que teria leitores de espécie alguma. O blog era mais um diário pessoal que me ajudava e organizar meu pensamento e "passar para o papel" as milhares de ideias que viviam rondando minha mente inquieta. Mas não poderia advinhar que minhas palavras ajudariam as pessoas a refletirem sobre suas próprias vidas. 

Durante todo o tempo que o blog está no ar tenho recebido mensagens, comentários e e-mails de todas as partes do Brasil e recentemente descobri que os russos também visitam este blog.

Os 30.000 acessos serão comemorados em alto estilo, pois esta semana sai da editora meu primeiro livro publicado: "Um Neurótico no Divã"  que venceu o Prêmio Arte e Cultura de Anchieta na modalidade literatura! Mas isso é assunto para um próximo post...  :)

Por ora gostaria apenas de agradecer ao meu público leitor pelo carinho e pela fidelidade. No início o blog era apenas uma extensão do meu pensamento, agora o blog é mais como uma casa aberta, pronta para receber visitantes de todos os lugares, com idade, cultura, crença e origem diferentes. Sejam  sempre bem-vindos!  Muito obrigada!

terça-feira, 17 de julho de 2012

O PODER ATÔMICO DA LITERATURA



"A presença de um pensamento é como a presença de quem se ama. Achamos que nunca esqueceremos esse pensamento e que nunca seremos indiferentes à nossa amada. Só que longe dos olhos, longe do coração! O mais belo pensamento corre o perigo de ser irremediavelmente esquecido quando não é escrito, assim como a amada pode nos abandonar se não nos casamos com ela. "
Schopenhauer em A Arte de  Escrever, pg; 52

Escrever, antes de tudo, é um ato emocional, político e existencial.  Emocional porque é proveniente das emoções do autor, político porque a visão de mundo do autor pode influenciar mudanças na sociedade e existencial porque quando escrevemos refletimos profundamente sobre quem somos diante de nós mesmos , diante dos outros e diante da visão que a sociedade projetou na gente.

No meu curso de Escrita Criativa ensino que a literatura é uma forma de arte. Nas palavras de   Afrânio Coutinho:   a Literatura, como toda arte é uma transfiguração do real, é a realidade recriada através do espírito do artista e retransmitida através da língua para as formas, que são os gêneros, e com os quais ela toma corpo e nova realidade. Passa, então, a viver outra vida, autônoma, independente do autor e da experiência de realidade de onde proveio. 

A ferramenta do autor é a palavra. Somente ela possibilitará ao artista a transposição dos ideais íntimos à manifestação real, capaz de ser compartilhada por outros pensadores. E é por isso que é tão importante o hábito da leitura na rotina do escritor, porque é só por meio da leitura que ele poderá dominar a língua e todas as variações da linguagem. 

O escritor não pode ter medo de transmitir sua verdade no texto que elabora. Preconceitos, tabus, medo, apego a dogmas e regras excessivas somente limitarão o universo do autor. Se ele ficar paralisado diante de um pensamento obscuro, ele jamais compreenderá a profundidade da alma humana e terá uma obra medíocre, cheia de vacilos e sem empatia com o leitor. O autor antes de tudo é um homem, uma pessoa que conhece as  falhas e os desejos secretos da humanidade, e sendo conhecedor de tão misterioso segredo, cabe a ele estender a mão ao leitor e permitir que este extravase todas as suas limitações reais por meio da ficção do seu texto. O autor deve abrir um portal mágico ao leitor  capaz de levá-lo aos recantos escondidos de sua alma. Se o autor tiver medo de enfrentar os próprios fantasmas, não  cativará a simpatia do leitor e este não deverá perder seu tempo com ele.

Acima de tudo o autor é um observador. Ele senta no fundo da sala e observa sem fazer julgamentos. Os personagens que o autor trará à vida devem ser reflexos e partículas  daquilo que viu ou sentiu. O ser humano é o personagem mais complexo que há, nenhum ser fictício é capaz de apresentar um número maior de contradições e paradoxos. E é essa riqueza de variedade da psique humana  que deve ser usada como matéria prima para o desenvolvimento da obra do autor.     

A palavra  escrita, ferramenta principal do ofício do escritor, é uma arma afiada e mortal. Quando vemos um livro fechado em cima da mesa não percebemos o potencial atômico compactado em suas páginas. Um livro pode levar uma pessoa a mudar completamente de vida. Pode levar uma pessoa a matar ou a largar tudo e viver em santidade terrena. Quando vemos o livro fechado não enxergamos o homem que reside nele. O livro é uma fotografia exata da mente do autor. Um raio-x perfeito. Por isso dizemos que quando lemos estamos socializando com pessoas das mais diversas convicções ou crenças. 

O livro permite a imortalidade do autor. Schopenhauer (que citei no início do texto) , morreu em 1886, mas estará eternamente vivo por meio das palavras que deixou. O seu cérebro físico morreu, mas a fotografia que foi tirada dele nos dá a oportunidade de o conhecermos em seu período mais ativo por meio do seu livro.   

Como escritora entendo que a única forma de eternizarmos a nossa existência é por meio da palavra escrita. Os filhos podem morrer jovens ou podem afastar-se sem nos suceder; a construção de uma obra pode ser destruída pelas mãos dos homens ou pelo capricho da natureza, a filmagem pode envelhecer e se perder, mas a palavra, que é a manifestação e a tradução mais exata e complexa de nosso pensamento, esta se manterá eterna. E viverá sempre à mão das pessoas dispostas a viajarem num túnel do tempo infalível que nos levará ao encontro das antigas gerações.   

sexta-feira, 13 de julho de 2012

TAMERINA: O SEGREDO EGÍPCIO DO MEU AVÔ


Meu pai é leitor do blog e quando descobriu aqui meu interesse em reviver a paixão pela dança do ventre, enviou-me uma foto fantástica do meu avô sendo agarrado por uma dançarina egípcia numa viagem que fez ao Cairo. René Ramos (meu já falecido avô) foi diretor do Santos Futebol Clube por 25 anos, na época áurea do Pelé, e a gente brincava dizendo que ele possuía mais fotos ao lado do Pelé do que da minha avó!

Esta foto foi tirada quando ele chefiava a delegação do Santos em excursão pelos países árabes em 1973. Quando estavam no Cairo, foram a um show de dança do ventre em que se apresentava Tamerina, a moça da foto. Os jogadores do Santos mandaram tirar essa foto quando meu avô estava distraído e o Clodoaldo (tri-campeão mundial de 70 no México pela seleção brasileira e jogador do Santos junto com Pelé e outros mais), certo dia bateu na casa do meu pai e entregou um envelope para a mãe dele, a  minha avó Musa. Quando ela abriu, era essa foto. Ficou brava com o vô por isso. Era tudo gozação dos jogadores. Na foto estão também Solange Bibas, jornalista do jornal Gazeta Esportiva, atual TV Gazeta que acompanhava o Santos (o de cabelo branco), e o Dr.Luiz Yanagi, médico do Santos.
 
Eu me lembro desta foto e sempre fui encantada com ela. Estava sempre perguntando ao meu avô sobre as percepções que ele teve do Egito e ele dizia que aquilo tinha sido uma decepção, pois o deserto ficava lado a lado com a cidade! Meu avô também não teve coragem de entrar nas pirâmides porque a porta de entrada era muito baixa e ele sentiu-se claustrofóbico.
 
Esta foto me deu ainda mais vontade de escrever o livro novo. Obrigada, pai!

quarta-feira, 11 de julho de 2012

ENCONTRO DE ARTISTAS


Semana passada a galera de peso se reuniu no bar Mangericão, em Iriri, para uma jazz session e uma conversa boa que levou todo mundo a madrugar! Só tem metade da galera aí na foto, mas já dá pra sentir a imponência da tribo: Maria Fernanda (vocalista da banda Mary Di que está ganhando todos os prêmios musicais do Estado); João (médico, simpatizante de Freud e gaitista genial) e Cláudia Martins, advogada e madrinha do gueto! Essa semana tem mais!    

AOS LEITORES RUSSOS



Por incrível que pareça a Rússia é o país que mais visita o meu blog! Depois do Brasil, a Rússia vem logo abaixo com visitas diárias, e em terceiro lugar está os Estados Unidos. Fiquei muito intrigada com o serviço de estatísticas do Blogger que foi a fonte desta informação.

Quando o blog nasceu em 2007 eu não poderia imaginar o número de pessoas que atingiria. Hoje são quase 30 mil visitantes numa média de 85 a 100 pessoas por dia visitando esta página. Sei que os leitores russos não me conhecem e provavelmente chegam ao blog por meio de pesquisas referentes ao próprio país. Como sou fã dos escritores e da arte russa, estou sempre postando algo sobre isso por aqui.  Creio que esta seja a isca que anda pescando leitores russos. Seja como for, a pesquisa me surpreendeu, e decidi colocar no blog uma fonte de tradução direta para o idioma glacial.

A internet é simplesmente genial. O mundo inteiro está conectado à distância de um click e com isso nossas diferenças diminuem. Só quem tem acesso à internet pode entender o que significa viver numa aldeia global.

Для моих русских читателей: спасибо!

terça-feira, 10 de julho de 2012

O JARDIM E AS BORBOLETAS



Todos conhecem aquela história do jardim, certo? Cuide do jardim e as borboletas virão. Pode parecer uma comparação estranha, mas a mente do escritor também é como um jardim. Estava empacada no meio de uma obra e não sabia como resolveria o problema da minha personagem principal. Todo mundo sabe que personagem é alter ego de autor, e quando o autor não sabe bem o que fazer com o personagem é porque também não sabe bem o que fazer com a própria vida. E quando ocorre este impasse só há uma única saída: parar por um momento e entregar a obra a um pensamento maior. 

Na falta de qualquer opção melhor (até porque insistir num caminho incerto pode arruinar a vida de ambos: do personagem e do autor), entrei no meu amado, adorado, salve salve, site da Estante Virtual e me entupi de livros. Li tudo o que todo mundo disse e cheguei à seguinte conclusão: o personagem estava no caminho certo quem estava no caminho errado era eu. Na verdade, quando parei o meu próprio trabalho e me dispus a ler o trabalho de outras pessoas fiz algo como cuidar ativamente do jardim. Ao final de meia dúzia de livros verifiquei uma dúzia de borboletas pairando sobre minha mente e a decisão de escrever voltou com tudo. Não apenas descobri o destino de minha personagem, mas também o meu.

É uma complicação só essa cabeça de artista que vive de dar voltas por aí. A gente vai se encantando com tudo à nossa volta e mal percebe que também somos parte integrante do mesmo plano. A diferença entre Anais Nin e eu? Os anos. 

Cuidar do jardim significa parar de pensar na versão própria de todas as coisas e convidar outras percepções a entrar. É ver tudo de novo do avesso, é sentar-se ao lado de outras cabeças que pensam, é renovar. 

Graças a uma semana de pausa meu jardim está novamente florido e convidativo para muitas borboletas que possam querer se aproximar. 

domingo, 8 de julho de 2012

VELHOS HÁBITOS



O que temos nós além de uma data comum no antigo calendário da cozinha?
Vou seguindo aquele velho caminho trazendo ao bolso um telefone de outro alguém. Do que sei eu a esta altura enquanto aquela melodia insiste em torturar–me? Dez dedos rápidos num violão desafinado, dois copos vazios de uísque escocês, dois filmes não vistos, cinco meses de maus tratos, uma centena de e–mails trocados e ele ainda faz parte do maldito caminho. Seria triste se não fosse exótico, se não fosse um sonho a cores que ainda me acorda no meio da noite, se não fosse um fantasma vivo. Os cabelos pretos, a roupa negra, as botas do inverno, uma centena de ideias cuspidas nos livros em série, um punhado de prêmios fazendo de mim alguém. É claro que estou feliz, como não estaria? Mas ainda assim o tempo estanca, nada acontece ao redor, e ele longe. Ouço as músicas que herdei do pequeno divórcio, toco Bob Dylan pra mim mesma, visto uma boina xadrez. É claro que está tudo errado, como não estaria? Por que lembramos apenas dos bons modos da pessoa que morre? É tão injusto cegar–se pela luz infinita de um anjo caído. Ninguém vai pro céu. Pelo menos não nesta noite. Fiz tudo o que tive vontade, não reprimi um único desejo, decepei futuras neuroses, estou sã, mas não salva. Um poema antigo escrito num papel sujo de café forte ainda guardado no bolso de trás. Um milhão de promessas esquecidas em nossas malas de viagem. Eu me lembro apenas do último adeus há dois ou três anos atrás. Ninguém pode fechar este corte estrangeiro. Somos o oposto e o mesmo de nós dois. Temos as mesmas lembranças estranhas, os medos adultos comuns às crianças, os traumas e os defeitos dos nossos pais. Fui me declarando assim de graça pra aquele que passa esperando que mais alguém passe além de você. Mas não havia outro trem na nossa estação. Perdemos o bilhete que nos levava sempre ao encontro de nossa oposição. Ainda posso sentir o cheiro forte de uísque. Ainda posso cantar a nossa música sem os acordes do seu violão. Ainda posso encarar os dias de lutas sem achar que é maldição. Nada, nada, nada. Nada mais por hoje. Nada de novo amanhã. Você sabe o quanto erramos. Ambos sentimos muito, perdão.

sábado, 7 de julho de 2012

PROCESSO DE CRIAÇÃO: ERNEST HEMINGWAY



quinta-feira, 5 de julho de 2012

O VERDADEIRO AMOR INCONDICIONAL




"How come you can't see?
All that you need
Is right here with me."
(Como você não consegue ver que tudo o que você precisa está aqui comigo?)
Love Spent - Madonna


O filme W.E. de Madonna fala sobre o relacionamento da norte-americana Wallis Simpson e o rei Edward VIII  da Inglaterra. Um romance proibido que culminou na renúncia do rei em nome do amor. Consegue imaginar algo assim? Consegue imaginar alguém abrindo mão de um império, um reinado, uma coroa, por você? Consegue imaginar um amor tão grande capaz de minimizar todo o resto ao redor?

Depois de assistir a W.E.  fiquei um pouco deprimida. Nem a Madonna, uma das mulheres mais incríveis, belas e criativas do mundo, conquistou um amor assim. Wallis Simpson era o oposto de tudo aquilo que combinava com a coroa: inteligente, divorciada duas vezes, ainda casada quando se envolveu com o rei, festeira, cheia de vida e brilhante. Uma mulher que simplesmente não se encaixaria nunca no estilo ultraconservador e hipócrita da família real. Mas Edward a amava, e largou as aparências, os títulos, a riqueza e o poder por este amor único e eterno.

O mundo inteiro acusou Wallis por ter arruinado a vida do rei, mas ninguém parou para pensar no que ela própria teve que renunciar para estar à altura deste grande amor. É sempre uma via de mão dupla. Não conheço nenhuma história de amor verdadeira entre casais egoístas e superficiais. Tem que ser muito corajoso pra viver um amor real. É engraçado ver como tanta gente confunde amor com comodismo e segue vivendo uma vida a dois rasa, sem tesão, sem paixão, sem felicidade genuína. 

É evidente que para tudo há um preço. Tanto Wallis quanto Edward pagaram um preço altíssimo, mas não creio que se pudessem voltar atrás, teriam feito escolhas diferentes.

Até que ponto você está aberto para viver um verdadeiro e legítimo amor? Exatamente o quê você está disposto a sacrificar em nome de algo assim?

quarta-feira, 4 de julho de 2012

ESTANTE VIRTUAL



Hoje quero apenas deixar uma dica de site para o leitor. Há três anos fiz meu cadastro no site da Estante Virtual e nunca mais parei de usá-lo. Somente no mês de junho eu comprei seis livros em diferentes sebos do site. Todos os livros que vocês possam imaginar, podem ser encontrados aqui. A Estante Virtual pra mim é como um catálogo da Biblioteca perdida de Alexandria e fico sempre muito excitada quando começo minhas pesquisas por ali!

Usuária há três anos, nunca tive nem um único problema com o site da Estante. A transação é simples: faça seu cadastro (gratuito), busque o que quer, encomende, pague e receba em casa com total segurança. Você pode optar por várias formas de pagamento. Eu opto sempre pelo pagamento direto nos bancos, mas você pode usar paypal, etc. 

Além de ser um museu que contém milhares de livros excelentes que já estão extintos nas livrarias normais, a Estante Virtual oferece preços muito abaixo do mercado. Como trata-se de livros usados e semi-novos (embora também possa encontrar livros novos), o valor das obras caem terrivelmente da mesma forma que cai o preço do carro quando deixa a concessionária. As ideias imortalizadas nos livros não perdem o valor, mas o manuseio da obra barateia o preço.

Convido o leitor a visitar o site e, se ele for fanático por livros como eu, terá a mesma sensação da criança que visita a Disneylândia pela primeira vez! É mesmo um mundo mágico! 

Boa leitura!    

segunda-feira, 2 de julho de 2012

O RETRATO DE DORIAN GRAY - OSCAR WILDE


Oscar Wilde é sem sombra de dúvida um dos meus escritores preferidos e sua obra, O Retrato de Dorian Gray,  causou-me profundo impacto quando tive acesso a ela pela primeira vez. Adoro os escritores irlandeses, escoceses e ingleses porque consigo captar algo mais sombrio nas obras desses autores que falam ao meu lado mais obscuro. Talvez pelo clima chuvoso, nublado e frio, ou pelo fato de terem uma história difícil com muitos reinados e lutas pela autonomia  da nação, eles tenham percebido algo diferente na nossa natureza humana que quando exposta em palavras, nos aterroriza. É como se tirassem um raio-x da nossa sombra e pendurassem toda a nossa crueldade interna num mural em praça pública. 

O Retrato de Dorian  Gray trata exatamente disso. Aqui, o irlandês Oscar Wilde, trabalha com temas que incomodam a todos nós: a perda da juventude, da beleza e a inevitável morte final. Dorian Gray é um belíssimo rapaz ingênuo e desprovido de bom senso que chega à Londres para tomar posse de sua herança deixada por um tio. Sua beleza impressionante e sua juventude despertam paixão, desejo, inveja e cobiça em todos os que fazem parte de seu novo círculo social.

O pintor Basil decide por imortalizá-lo num quadro único e excepcional que consegue captar a beleza de Dorian Gray de forma tão profunda e enigmática que até o próprio retratado fica enamorado de sua imagem artificial. No momento que Dorian Gray vê a si mesmo tão belamente retratado (como um deus) fica tomado por um sentimento de amor e medo de perder a juventude e naquele exato momento, vende sua alma ao diabo em troca da juventude eterna.

Há em Dorian Gray uma discussão constante entre seguir o caminho do bem ou ceder aos impulsos do mal. O mal, neste caso, vem na pele do amigo Harry (que no filme é encenado magistralmente pelo Colin Firth) que com seu discurso eloquente empurra o jovem e ambicioso Dorian a uma vida hedonista onde apenas o prazer pessoal, e estendido ao máximo, é o que importa. Dorian então passa a ser um devorador de almas, uma entidade maligna insaciável  capaz de exterminar qualquer um que tente lhe negar um prazer.

Aqui compreendemos que o quadro (a imagem mais profunda de Dorian) possuiu sua alma e apenas ele passa por transformações com o passar do tempo, poupando Dorian Gray do desprazer do envelhecimento e da decrepitude do corpo mortal.  Dorian então deixa de ser humano.

O livro de Oscar Wilde é complexo demais para ser compreendido em apenas duas horas de uma produção cinematográfica, mas eu gostei do filme. Convido meu leitor a conhecer os dois lados dessa obra: leia o livro e veja o filme. Dorian Gray caiu como uma luva (será um evento de sincronicidade descoberto por Jung?) para mim, pois estou estudando sobre essas camadas mais densas da alma humana para desenvolver os personagens de minha nova obra. Vale a pena ser imortal? 

Há uma cena que me chocou profundamente no filme que ocorre quando, após abandonar a cidade por vinte e cinco anos, Dorian Gray retorna e vai ao encontro dos velhos amigos. A cena assusta porque todos estão muito velhos, mas Dorian ressurge jovem, com os vinte anos intactos em sua aparência, embora sua alma  carregue o peso da decrepitude total de sua alma apodrecida.

A obra de Wilde é intensa, reflexiva e muitas vezes, perturbadora, e por isso mesmo vale a pena conhecê-la. Nelson Rodrigues dizia que a arte deve ser feita para chocar, para apertar todos os botões de quem a observa e botá-la em contato direto com os horrores de nosso inconsciente. Se é mesmo isso o mais importante, então Oscar Wilde cumpriu sua missão. É fantástico!