quarta-feira, 7 de março de 2012

AMIZADE SEM CLICHÊS




Esta semana gostaria de convidar meu leitor a refletir sobre um tema que geralmente leva menos mérito do que o amor, mas talvez seja até mais importante do que ele: a amizade.


Há muitos clichês e frases prontas sobre amizade. De modo geral as pessoas acham que amigo é aquele que concorda com tudo, apoia o outro incondicionalmente, fica ao lado do amigo em todos os momentos e fecha os olhos para todas as loucuras, defeitos e escolhas do outro. Dizem que amigos devem perdoar tudo, esquecer tudo, compartilhar tudo, etc.


Se você buscar frases de efeito no google sobre a amizade vai encontrar apenas ideias otimistas e pouco reflexivas. Amigo pode tudo e pronto.


Esta semana estou enfrentando um dilema no terreno da amizade. E assim como compartilho minhas reflexões sobre amor, trabalho, arte, literatura e viagens, acho justo compartilhar também minhas reflexões sobre a amizade.


Para mim a amizade é sim a relação mais bonita e inteira que pode haver entre duas ou mais pessoas. A família você não escolhe, mas os amigos sim, e muitas vezes os amigos escolhidos chegam a ser até mesmo mais importantes do que nossa própria família biológica. Mas será que não há mesmo limites no que pode ser feito por um amigo? Será que ser amigo é mesmo concordar com tudo incondicionalmente?


O que devemos fazer quando um amigo está enfrentando um problema de alcoolismo, por exemplo? Devemos dar-lhe mais bebida no ápice da crise de abstinência apenas para que ele se acalme? Isso é benéfico? Ou devemos lutar contra o vício mesmo que isso custe o bem estar da amizade?


O que fazer quando um amigo querido insiste num caminho que é autodestrutivo para ele? Devemos apoiá-lo incondicionalmente ou devemos resistir e tentar impedi-lo? O que devemos fazer quando percebemos que nosso amigo não confia tanto assim na gente e passa a deixar de compartilhar decisões importantes na sua vida?


O que realmente um amigo deve fazer?


O que fazer quando um amigo passa por mudanças profundas e deixa de ter afinidades conosco? O que fazer quando percebemos que nosso amigo já não compartilha das mesmas ideias, da mesma visão de mundo, dos mesmos princípios? Devemos nos afastar ou devemos ir contra nossa opinião apenas para não magoar aquele amigo?


O que fazer quando nosso amigo encontra um grupo totalmente contrário aos nossos valores? Será que o afastamento é errado? Será que vale a pena continuar discutindo, mesmo quando quando há fortes divergências de opinião, pelo bem da amizade? Devemos abrir mão daquilo que pensamos para preservar uma amizade?


Eu adoro meus amigos. Eles são importantes demais para mim e quero o bem deles acima de tudo. Mas nem sempre é possível comungar de uma situação totalmente contrária àquilo que cremos. Nem sempre é possível apoiar incondicionalmente um amigo quando temos a opinião (pessoal, claro) de que ele está seguindo uma via oposta ao caminho do bem.


Às vezes estes amigos não compeendem nossa posição. Ficam perplexos diante de nossa retirada ou de nossa atitude de reprovação e não entendem que nossa recusa em ajudá-los é a maior prova de amizade que lhes poderíamos dar. Porque amigo não é aquele que concorda com tudo cegamente, amigo é aquele que quer acima de tudo o seu bem.


É claro que as pessoas tem o seu livre arbítrio e podem escolher o caminho que acharem melhor. É evidente que devemos respeitar as escolhas dos outros e deixá-los à vontade para cometerem erros ou acertos. Sabemos que todos devem viver suas experiências porque é por meio delas que crescemos e nos enriquecemos como pessoas. Mas devemos estar atentos às consequências das coisas.


Amigo é aquele que zela pelo outro, que puxa a orelha de vez em quando, que discorda quando necessário, que ajuda, que quer o bem do outro, que inspira o amigo a seguir o caminho da felicidade. Nem que para isso ele seja mal interpretado, julgado e condenado.


Amigo de verdade não oferece cachaça para quem não pode beber. Amigo de verdade não compra arma pro amigo que tem tendências suicidas. Amigo de verdade não se faz de cego quando vê o outro beirando o precipício. Nem que para isso tenha que colocar em risco a própria amizade.

2 comentários:

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

" amigo é aquele que zela pelo outro" e nunca, nunca espera nada em troca

Tamara Ramos disse...

Sim, o zelar pelo outro é a chave da questão. Quando vemos que um amigo está à beira do precipício lhe puxamos para trás, e jamais o empurramos para frente (nem mesmo que ele peça!). Abraço