quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

LITERATURA DO LESTE EUROPEU



"Essas coisas são assim; desejamos alguém obsessiva, perdidamente, no limite do inferno e da morte. Buscamos, perseguimos em vão, e a vida se consome em nostalgia. Desde que viera para Roma esperava por este momento o tempo todo, para ele se preparara, e chegara a acreditar que jamais falaria com Éva. E de repente ela aparece, e nessa hora apertamos o pijama velho contra o peito, sentimos vergonha de estarmos descabelados (...) e gostaríamos que não estivesse ali aquela por quem ansiamos indizivelmente."


Antal Szerb, O Viajante e o Mundo da Lua



Não sei dizer exatamente o que os autores do leste europeu tem de diferente dos outros. Há algo de mais profundo e irônicamente humano que os tchecos, os húngaros e os iugoslavos percebem melhor do que nós. Realmente não sei dizer o que é.

Os autores daquele lado frio da Europa parecem compreender o que há de mais vergonhoso dentro de nós. Tudo aquilo que tentamos esconder, eles mostram com certo desprezo. Como se fosse uma banalidade risível. Todos os nossos medos e anseios, as nossas bobagens estupidamente humanas e além fronteira, nossas barbáries, nosso ciúme, mesquinhez, delinquência e humor negro universal. Está tudo ali, retratado fielmente da forma que é. Sem limites e sem disfarces.


Os autores do Leste Europeu estão me deixando fascinada com seu bom senso estranho, sua capacidade sem igual de compreender nossas fraquezas, sua generosidade em perdoar a raça humana por sua notória embriaguez. Há algo de lúcido nestes autores que raramente encontramos nos escritores de outras nações. Não dá para descrever, tem que ler para saber.


Na República Tcheca, por exemplo, 70% da população não acredita em Deus. Suas igrejas estão sendo transformadas em hotéis e há um profundo desprezo pelas coisas transcendentais do espírito. Mas lendo os autores tchecos, tenho a impressão de que sua descrença é proveniente de sua profunda compreensão sobre as falhas e os erros humanos. Se acreditassem que o ser humano é feito à imagem e semelhante de Deus, então teriam que conceber uma nova divindidade desajustada e infinitamente imperfeita.


Os autores do leste europeu são verdadeiros filósofos. Não há um livro que venha daquelas bandas que não nos ponha para pensar mais seriamente sobre a nossa jornada e características pessoais. Cada livro que abro sinto que estou sendo dissecada por dentro e a cada página virada, uma máscara cai.


A gente vai levando a leitura com um sorriso meio sem graça nos lábios, um mal estar insistente, uma identificação amoral com a linguagem. É como se saíssemos de mãos dadas com as nossas sombras para um passeio noturno.

Se meu leitor estiver disposto a dar um mergulho mais profundo nos abissais da nossa existência, sugiro que leia os autores-filósofos do lado de lá. Deixo aqui a dica de um livro húngaro fácil de encontrar nas livrarias: "O Viajante e o Mundo da Lua" de Antal Szerb

Para quem quiser ir ainda mais fundo recomendo: "A Ignorância" e "A Insustentável Leveza do Ser" de Milan Kundera e "Cotovia" de Dezsó Kostolányi

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