quarta-feira, 30 de novembro de 2011

MARGUERITE YOURCENAR






"Adriano sou eu."

Yourcenar



Além do fado, da gastronomia, dos castelos, do bom perfume e do clima perfeito, a Europa também me deu Yourcenar. Foi lá que entrei em contato com esta escritora belga extraordinária e com sua obra histórica monumental.

Marguerite Yourcenar foi a primeira mulher a ser aceita na Academia Francesa de Letras e sua obra, Memórias de Adriano, vendeu o assombroso número de 1 milhão de cópias à época do lançamento. Thomas Mann foi um dos célebres fãs deste livro e enviou para a escritora uma carta de congratulações pela beleza da obra.


Apesar de sua erudição e de seu estilo de escrita clássica, Marguerite não teve uma educação convencional. Ela nunca frequentou o Liceu ou a escola, mas foi educada em casa pelos tutores, o que era natural na sociedade de sua época.

Memórias de Adriano levou nada mais, nada menos do que trinta anos para ser concuída. E quando chegamos ao último parágrafo, temos a sensação de estarnos sendo expelidos para fora do túnel do tempo, tal a veracidade impressa na obra. Desde a primeira página do livro somos arremessados ao século II e vivemos com Adriano cada momento único de seu governo e as angústias de suas paixões.

Hesitei um pouco antes de escrever no blog sobre Yourcenar, pois a exatidão e encanto das palavras dela fazem qualquer tipo de texto parecer menor. Quem sou eu, afinal, para escrever sobre ela? Do que eu sei?

Primeiramente li a biografia de Yourcenar de edição portuguesa, editada pela ASA. A cada página virada uma sensação estranha ia se apoderando de mim. Yourcenar viveu o mito do herói. Ela não somente dedicou trinta anos da sua vida a compreender a essência do imperador romano, como tentou viver com a mesma grandeza de Adriano.

Adriano, mais do que um personagem histórico, era seu alter ego.

Escrito integralmente na primeira pessoa, como se pudéssemos escutar os pensamentos do próprio imperador, Memórias de Adriano dá um show de exuberância expressa. Cada palavra foi pensada com exatidão matemática e nada ali foi posto ao acaso. Yourcenar teve acesso à todos os documentos históricos referentes ao domínio de Adriano e reconstruiu ao mesmo tempo o homem e o mito.

A passagem mais bela do romance refere-se ao encontro de Adriano com seu jovem amante Antinoo. A força das palavras parecem pular do livro para mergulhar dentro de nosso coração. Apesar de imperador, herói e mito, Adriano poderia ser você ou eu. Acima de tudo, Adriano era um mortal, embora incomum.

Após o êxtase da leitura da obra-prima de Yourcenar, iniciei a leitura de outra obra igualmente fantástica da autora: A OBRA EM NEGRO. Romance alquímico ambientado no século XVI que nos leva a uma viagem ao mundo do obscurantismo da Idade Média e dos segredos comprendidos apenas por homens como Nicolau Flamel.

O personagem Zenon é fictício, mas a profundidade de sua expressão faz o leitor estremecer. Quem teme o pensamento filosófico mais denso deve se manter longe do livro. É perigoso demais, faz o homem pensar.



O bem e o mal simplesmente desaparecem na jornada de Zenon. O alquimista está se não acima, além disso. A busca pela liberdade absoluta magoa as pessoas. A liberdade total impede vínculos. O homem integrado em si mesmo despreza o outro. Seria isso um erro?

Todas as pessoas que cruzam o caminho de Zenon não permanecem por mais tempo que o necessário. Ele logo avisa de quem dele se aproxima: "Não pense em mim, pois certamente irei esquecê-lo".

O caminho de Zenon é sua obra em negro, OPUS NIGRUM, a magia da transmutação total. Ele sabe que nada é eterno. Conhece a lei mais dura da vida: todos vamos morrer. E este desapego absoluto por tudo o que o cerca faz dele um homem maior. O desprezo que sente pela aparência vã de todas as coisas o engradece. E a profundidade de seu pensamento transportado para os livros que escreve o torna "persona não quista" ao mundo que o cerca.

Zenon e Adriano nada tem de comum. Zenon e Adriano são igualmente belos em suas formas diferentes. O herói e sua antítese. A escritora e sua paixão pelos mitos.

A leitura da obra Yourcenar exige disciplina, esforço e atenção do leitor. Não são livros recomendados para toda gente. Indico apenas aos leitores apaixonados de verdade pela literatura, pela filosofia, pelo autoconhecimento e pela História universal. E leitor deve saber de antemão que estará incorrendo num texto de extrema erudição, onde as palavras e as ideias são transcritas e pensadas com precisão cirúrgica. Marguerite é uma autora clássica e seus textos também o são.

Portanto, cabe ao leitor avaliar o grau de comprometimento que terá com a leitura de Yourcenar. Mas posso garantir àqueles que tiverem ousadia para iniciarem esta jornada que serão recompensados pelo vislumbre de um mundo novo, nem sempre de acordo com os padrões vigentes, mas ainda assim extraordinário.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

MEIA-NOITE EM PARIS



"Noventa por cento do sucesso se baseia simplesmente em insistir."



Woody Allen é, para mim, um dos maiores artistas de nosso século. Juntamente com Pedro Almodóvar, este novaiorquino neurótico, polêmico e politicamente incorreto está no topo da minha lista de cineastas preferidos.


Allen faz do drama uma cena cômica. Ele faz o expectador rir de verdade das maiores desgraças que podem acontecer a um ser humano. Em seus filmes vemos homens e mulheres lidando com um número gigante de problemas, mas como há humor, tudo fica bem.


O amadurecimento do cineasta pode ser acompanhado a olho nu em seus últimos filmes: Match Point, Vicky Cristina Barcelona e Meia-noite em Paris.


Meia-noite em Paris é uma verdadeira obra de arte. Totalmente ambientado na cidade luz, o filme trata da importância de fazermos a escolha certa. O protagonista, um escritor frustrado que escreve filmes de sucesso medíocres em Hollywood e que está prestes a se casar com uma mulher bonita, mas completamente imbecil; embarca numa viagem fantástica onde se vê perdido nos anos 20 e em contato direto com seus maiores ídolos.


Este encontro surreal com Fitzgerald, Gertrud Stein, Picasso, Dalí, T. S. Elliot e Hemingway faz com que ele repense sua própria vida e o coloca novamente no caminho certo: o caminho para o cumprimento de sua verdadeira missão. Ele é despertado do pesadelo absurdo que é sua própria vida e começa a resgatar seus antigos ideiais e a ser movido pela sua verdadeira paixão.


Quantas vezes nos olhamos no espelho e desconfiamos de nosso poder? Quantas vezes olhamos para as pessoas à nossa volta (marido, esposa, amigos, patrão, etc.) e percebemos que aquelas pessoas simplesmente não representam nem um décimo daquilo que somos ou desejamos? Quantas vezes seguimos um caminho na vida completamente oposto àquilo que havíamos sonhado? E quantas vezes nos resignamos e continuamos melancólicos e entristecidos sem coragem para mudarmos o rumo da nossa embarcação?


Meia-noite em Paris nos coloca frente a frente com o dilema das nossas escolhas, sejam elas de ordem profissional ou amorosa.


No amor é a mesma coisa. Quantos homens com potencial extraordinário desperdiçam tudo por causa de uma parceira fútil que não o ajuda a chegar a lugar nenhum? E quantas mulheres anulam seu talento em nome de um casamento medíocre e uma falsa sensação de proteção?


Woody Allen é um gênio e seu filme é simplesmente genial. Vale a pena conferir e refletir.

sábado, 26 de novembro de 2011

PERTO DOS AMIGOS










"A amizade é , acima de tudo, certeza – é isso que a distingue do amor."



Voltar para o Brasil não significa apenas retornar para o país de origem, mas retornar para perto dos amigos, das amizades conquistadas há anos. Sexta-feira à noite, Guaramare: noite perfeita rodeada dos melhores amigos, da melhor gastronomia e da melhor expressão de arte.


Já não via meu querido amigo, pintor, chef e escritor Vicente Bojovsky há quase um ano. Fiquei feliz ao vê-lo totalmente recuperado, bebendo seu vinho sem medo e cheio de inspiração para novos projetos. Obrigada pelo carinho, amizade e motivação que sempre me deu.


Ontem ao lado da Miriam e do Aloízio chegamos à conclusão de que Portugal oferece ao visitante a melhor gastronomia do mundo. Eles já percorreram o mundo inteiro e nunca comeram tão bem como em Portugal. Segundo o casal, a tão tradicional e badalada cozinha francesa fica no chinelo quando comparada a Portugal. Fiquei feliz por ter tido a oportunidade de provar muitos pratos portugueses maravilhosos e pude concordar com eles com conhecimento de causa!


A Cláudia estava no céu quando chegou a lagosta gigante preparada pelo Vicente! Como a nossa conversa nunca acaba, nossas noites também se prolongam... Por isso, depois da meia-noite caímos na balada capixaba e tivemos a sorte de encontrar minha querida amiga Maria Fernanda, cantora de primeira linha, orgulhosa por acabar de lançar sua banda em um delicioso cd.


Estão todos bem na minha terra e isso faz com que me sinta cada vez mais grata pela emigração que fiz há oito anos. Nestes anos fiz amigos fantásticos e me sinto totalmente em casa nesse paraíso escondido do Espírito Santo. Amém.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

DICA DE BLOG: LÚCIA VERÍSSIMO



Estou sempre garimpando novidades na internet e, vira e mexe, deparo-me com alguma jóia preciosa. Sou leitora assídua de alguns blogs, como o do cineasta espanhol Almodóvar ou o da atriz Maitê Proença. Mas há pouco descobri uma escritora talentosa na atriz Lúcia Veríssimo, e gostaria de partilhar a descoberta com meu leitor:




Desde que lancei meu blog em 2007 tenho tido apenas alegrias. Algumas pessoas torcem o nariz e acusam o blog de ser um diário a céu aberto absolutamente desnecessário. Chamam de auto-exposição, atividade narcisista e por aí vai.


Pois para quem pensa desse jeito eu nada a tenho a dizer. Sou democrática e acredito que todos tem direito à opinião própria.


Mas para aqueles leitores que acompanham meu trabalho e também para os outros escritores que se expõe na internet, o blog é apenas mais um material para reflexão. Sou escritora e leitora dos blogs mais variados e acho que lendo a gente entende melhor o mundo ao nosso redor.


Parabéns Lúcia Veríssimo pela franqueza e beleza dos seus textos! Acabou de ganhar mais uma leitora!

A RODA DA VIDA



"Não espere que Ítaca lhe dê mais riquezas.

Ítaca já lhe deu uma bela viagem;

sem Ítaca, você jamais teria partido.

Ela já lhe deu tudo, e nada mais pode lhe dar.


Se, no final, você achar que Ítaca é pobre,

não pense que ela o enganou.

Porque você tornou-se um sábio, viveu uma vida intensa,

e este é o significado de Ítaca.


Konstantinos Kavafis (1863-1933)



Ainda não fez uma semana do meu regresso. Acabei de chegar. Mas desde que o avião deixou o solo de Lisboa em direção ao Rio, tudo mudou em mim.


Não sei se foi o movimento da decolagem ou o desconforto das horas da viagem. Não sei se foi alguma palavra solta dentro de um livro antigo ou o refrão de uma música nova. Não sei se foi o peso das nuvens lá em cima ou ou brilho do oceano lá abaixo. Não sei o que aconteceu comigo.


Hoje tenho a sensação de que estava dormindo durante alguns eventos da estrada. Fiz pactos medíocres, amei sem ser amada, amei talvez foi nada.


Os alquimistas sabem tudo sobre a roda da vida. Ela gira levando abaixo o que está hoje em cima, inverte a ordem dos fatos, abala o porvir e derruba planos. Não acredito que nossas vidas estejam 100% nas mãos de um destino involuntário, mas algumas coisas realmente estão além da nossa vontade. Porém, creio que 80% de tudo o que nos acontece provém das escolhas que a gente mesmo faz.


E há que se ter cuidado na hora de jogar os dados. Continuo acreditando de verdade que a oportunidade só bate uma vez na nossa porta, e se a gente não atender, ela toca na porta ao lado.


Por esta razão procuro estar atenta aos sinais da vida. Nada acontece por obra do mero acaso. E o maremoto de hoje podia ser evitado se estivéssemos atentos à maré alta de ontem.


Peguei um avião que estava indo para o desconhecido. Eu mesma comprei a passagem, escolhi os horários e embarquei na viagem. Não podia prever nada. Não podia saber que rumo meu destino tomaria. Mas nunca tive medo. Cheguei sem medo, parti sem medo. Se eu nao tivesse arriscado eu jamais saberia. E não pode haver nada mais desgastante do que lidar com o próprio fracasso e a nossa falta de coragem.


Mas é engraçado observar as mudanças que ocorrem em nosso coração depois de uma grande viagem. Já não penso da mesma forma que antes, já não tenho os mesmos conceitos, já não sou a mesma pessoa. Minha percepção se expandiu e posso ir e voltar no tempo.


Às vezes paro para pensar em algumas pessoas que conheci durante a jornada. Algumas serão sempre difíceis de decifrar. Homens e mulheres que aparecem em meus sonhos com a cabeça da Esfinge. Mas nem tudo foi um puzzle gigante. Algumas pessoas me ensinaram demais. Com algumas aprendi a ler palavras não escritas, com outras aprendi a escrever o que vi.


Amei seres que viviam na Ilha da Fantasia, e meu maior erro foi tentar amá-los fora de lá.


Hoje de volta à Ítaca entendo melhor a rota e a embarcação. O cronômetro foi totalmente zerado e olhando adiante há nada além que uma nova estrada. Sofri muito por nada. Tive momentos de profunda tristeza mas, olhando agora de perto, não fazem sentido nenhum. Mas também tive momentos de muita festa e descobertas incríveis. Tudo o que aconteceu comigo estava certo. Tudo foi importante no processo da caminhada. A roda da vida girou, girou, girou e vai continuar girando.


Às vezes sentimos que perdemos algo importante. Demos tanto amor, meu deus, não foi o bastante?

E esquecemos que só damos aos outros aquilo que temos. E se damos amor demais é porque temos o bastante. E ele vai se renovar, se expandir, se multiplicar. E vai voltar cintilante.


Algumas pessoas se acomodam no sofá da sala de estar e dali só saem para visitar a cama.


Mas eu não. Fiz as malas, viajei, mudei de cidade, mudei de país, transformei minha realidade, amei, escrevi uma obra, falei outras línguas, conheci sua história e me agigantei. E quero aproveitar ao máximo meu momento de imponência porque a roda da vida vai girar outra vez. E aquilo tudo que temos por certo vai deixar as nossas mãos. E vai voar.

domingo, 20 de novembro de 2011

UTOPIA E PAIXÃO



"Ser livre agora não garante, pois, que o sejamos amanhã. Ser livre é um processo contínuo de ir à luta para garantir as conquistas já feitas e ampliá-las. É isso mesmo o que parece ser a nossa liberdade: uma conquista, nunca um direito assegurado."

Roberto Freire


Toda vez que entro na casa da Cláudia, sinto que estou entrando na minha própia casa. Não a casa residencial onde como e durmo (embora também faça isso na casa dela), mas um templo sagrado da verdadeira amizade onde o vinho, o charuto, a boa mesa e a troca intensa de experiências vivida na vida e nos livros se entrelaçam e nos agiganta.


Toda vez que entro na casa da Cláudia encontro a mim mesma. Penso que somos o grande alter ego uma da outra e nos enxergamos melhor quano estamos juntas.


A experiência toda que vivi na Europa foi incrível, mas voltar para casa me parece agora mais incrível ainda.


Na Europa descobri que todos somos exatamente iguais. Nossas angústias, medos, expectativas, paixões, dor, desejo e sensibilidade. Somos todos parte desta raça humana gigante e esta coerência nos iguala. Mas na Europa também descobri o quanto eu sou brasileira. Sou brasileira não apenas por causa da nacionalidade, mas por causa das referências, da visão de mundo, do jeito, do sotaque e da liberdade.


Vi muita coisa legal na Europa, mas também vi muitas coisas que não compreendi. A coisa que mais me chocou na Europa foi a superficialidade das relações. Discordo quando escuto as pessoas dizerem que os europeus são frios. Isso não é verdade. Mas há sim algo diferente na forma em que eles se relacionam que fica um pouco difícil para um brasileiro compreender.


Nós, brasileiros, somos muito passionais. E sinceramente? Eu amo este traço da nossa personalidade! Prefiro viver tudo intensamente e lutar pelo "felizes para sempre" do que me submeter à situações medíocres e desprovidas de paixão.


Ontem, na casa da Cláudia, conversamos sobre tudo. E ao contar minhas experiências para ela, retomei meu lugar. Passei meses com a mala no chão experimentando uma aventura fantástica. Ontem, pela primeira vez em meses, coloquei tudo nas devidas gavetas e me senti mais inteira. Mas o fato de ter minhas roupas arrumadas em gavetas não eliminou a minha vontade de experimentar mais.


É engraçado. Fui para a Europa em busca de algo que somente encontrei aqui mesmo, justamente onde estava. Até os livros que procurei na Europa e não achei, encontrei aqui na esquina de casa. Estou lendo Memórias de Adriano em português do Brasil, viu Helena? :)


O legal desta aventura foi descobrir que posso viver em qualquer lugar porque sou uma cidadã do mundo, e não porque o Brasil não me satisfaz. Posso viver no mundo inteiro e nunca vou deixar de ser brasileira. E melhor ainda foi descobrir o quanto é bom retornar pra perto dos amigos.


Concordo com Roberto Freire quando ele diz que a liberdade é uma busca contínua. O fato de sermos livres hoje não significa que seremos livres amanhã. A liberdade é uma escolha pessoal e talvez seja a mais difícil de se fazer. Eu voei mais longe porque tinha a alma livre. E agora devo fazer a lição de casa diariamente para me manter assim. Devo escolher a liberdade. Porém, acredito que a liberdade possa ser partilhada, e este talvez seja meu ponto de discórdia com Freire.


Seja como for, agora que estou em casa preciso refletir melhor sobre tudo o que aconteceu comigo. É somente a partir disso que vou definir a minha próxima escolha. O que sei por agora é que algumas coisas que fizeram sentido para mim durante o período em que estive fora, hoje não fazem mais. Estou passando tudo por um processador multi-uso e em breve vou ter a certeza do que ainda me serve e do que não serve mais.


E é exatamante por isso que faço essas viagens, para conhecer melhor a mim mesma e as infinitas possibilidades que a vida me traz.

sábado, 19 de novembro de 2011

DE VOLTA AO BRASIL




Já me encontro em solo brasileiro. Minha temporada em terras lusitanas chegou ao fim, e estou feliz por estar em casa novamente. Somente agora sei o que é o sentimento patriótico, aquela sensação boa de pertencer a um lugar que carrega toda a nossa história de vida.

Portugal vai viver para sempre no meu coração. Não faço a menor ideia se regressarei um dia ou se nunca mais vou visitar aquela terra do fado agora tão distante de mim. Fiz amigos em Portugal, provei novos pratos, ouvi muitas histórias, vivi tudo de forma intensa. Quem sabe a roda da vida gire e me leve novamente pra lá? Não temos controle sobre o nosso destino.

O que posso dizer agora é que estou realmente muito feliz aqui no Brasil. É bom demais ter meus amigos por perto de novo. E é bom ouvir o sotaque nacional, comer o feijão separado do arroz e assistir às novelas das 6, das 7 e das 9.

Portugal transformou a minha relação com meu próprio país. Hoje sou uma brasileira orgulhosa da própria nacionalidade.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

SANTIAGO DE COMPOSTELA









Sou uma peregrina. Realizei uma jornada em busca de algo interessante, que só pude encontrar dentro de mim. Desde a adolescência sonho em visitar Santiago de Compostela. Li todos os livros sobre o assunto, acompanhei a caminhada de Paulo Coelho em seu Diário de um Mago, e sempre desejei fazer esta viagem. O santuário de Fátima emociona, mas confesso que nunca havia pensado em visitar o local. Mas Santiago de Compostela...é simplesmente mágico.


Achei que quando estivesse diante da catedral, meu coração pararia. Mas nada aconteceu. Caminhei pelo pátio da catedral, toquei a cabeça de Santiago em seu manto coberto de pedras preciosas, vi de perto o maior fumeiro do mundo, cruzei com peregrinos chegando exaustos após dias e dias de caminhada. E nada.


Dentro da catedral havia uma imagem de Santiago segurando uma caixa onde você pode escrever os desejos e pedir pela sua realização. Prontamente arrumei papel e caneta. E nada. Não consegui fazer um único pedido. Não tinha desejo algum naquele momento. Tudo o que consegui escrever foram palavras de agradecimento: obrigada, obrigada, obrigada.


Na verdade, o que ocorreu comigo diante da catedral se assemelha a um estado de choque. Tudo parecia tão surreal e improvável que não acreditei que eu estava mesmo ali. Acho que a ficha só vai cair de verdade quando eu chegar no Brasil.


É simplesmente extraordinário que uma viajante aventureira tão desprovida de juízo como eu tenha encerrado a sua jornada às portas de Santiago.


Ainda não caí direito em mim. Mas assim que minha mente voltar ao normal, escrevo outro texto e compartilho com você o êxtase da minha loucura.


Obrigada Valentim por mais este sonho realizado.

A MELHOR FRANCESINHA DE PORTUGAL






A gastronomia portuguesa é simplesmente excepcional. Durante todos estes meses que estou fora fora de casa não senti a mínima saudade da culinária brasileira. Vejam lá, não estou dizendo que nossos pratos não são bons, mas quando o assunto é excelência, Portugal leva a medalha de ouro.


Provei de tudo ao que tive direito aqui. Cozido à portuguesa, bacalhau de tudo quanto é jeito, vitela e carne de porco, a posta mirandesa do Veiga (única que vem com certificado de qualidade espetado no pedaço de carne que vem pro nosso prato), baba de camelo, castanhas, vinho branco, tinto, verde e ginja. Os portugueses definitivamente sabem o que é comer!

A Francesinha é um prato típico do Porto e é vendida em praticamente em todos os estabelecimentos da restauração portuguesa. Mas a melhor Francesinha que comi aqui não foi comprada em restaurante nenhum. A mais saborosa e deliciosa Francesinha de Portugal só pode mesmo ser encontrada na cozinha da minha querida amiga Helena Magalhães.



Helena é uma artista como eu. Escritora, poeta, boêmia e uma excelente chef! Foi com ela que aprendi a fazer não só a Francesinha, mas também outros vários pratos da gastronomia lusitana.



São destas coisas que mais sentirei falta no meu regresso ao Brasil. Conhecemos um país não somente pela história e arquitetura, mas pela boa comida servida diariamente nas residências.

Eu não sou muito lá fã de peixe, por este motivo, aqui na casa da Helena o peixe foi abolido em minha homenagem. Também por isso devo agradecê-los. Creio que nas próximas semanas não haverá carne na casa da Helena. Provavelmente o prato da semana será peixe ou sardinha, o prato preferido do Valentim. E eles devem estar felizes com a ideia!

Helena e Valentim, obrigada pelas refeições diárias, pelo acolhimento, pela amizade e pelo carinho sem limites que devotaram a mim. Vou sentir saudade de vocês.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O PASTOR



"Eu nunca guardei rebanhos, mas é se como os guardasse".

Fernando Pessoa




Guardo um rebanho de palavras soltas.

Carrego-as comigo na bagagem:

um cajado, um alforje, um manto sagrado.

E elas seguem a curva do meu pensamento

como se lá eu não estivesse.

E seguem sem amarras, sem pudores,

ao largo de mim.




Às vezes perco a linha do meu pensamento,

confundo-me, torturo-me, esqueço-me.

Mas se a memória não é matéria atômica,

então já não me importa.

E que elas passem,

e passem.




Não guardo mais do que duas lembranças:

o nascimento e o dia de ontem.

Hoje não estou aqui nem ali.

E quando não estou,

morro.




Há tempos sonhei com montanhas verdes.

Havia mulheres idosas trajadas de preto.

Havia silêncio.

Havia nada.






Mas quando acordei no meio do sonho

vi minha alma presa.

E já não podia sair dali,

e já não sabia dizer quem eu era.




Às vezes minha voz se cala.

Tento convencer num discurso inútil,

mas nada revela-se ao acaso.

E estou só.

Acordo só.

Durmo só.

E observo o tempo que parte sem mim.




Meu rebanho de palavras mudas desvia-se da estrada.

Empunho o cajado, chamo-o aos gritos, berro.

Mas elas voam dos livros que ainda não li,

e encontram sossego em solo alheio.




Caminhei a pé pela estrada verde.

Julguei encontrar algo mais que montanhas outrora vistas.

Mas nada mais vi do que aquilo que já era.

Tudo igual.

Ao redor, tudo igual.