domingo, 30 de outubro de 2011

REGRESSANDO












"Procuramos sempre o peso das responsabilidades, quando o que na verdade almejamos é a leveza da liberdade."

Milan Kundera


Estou chegando na etapa final desta jornada. Meu corpo ainda está em solo europeu, mas minha âncora pouco a pouco se desprende. O ano de 2011 será marcado pelo início de uma caminhada estrangeira. Vi muito e não vi nada. Há ainda muito para ver. Há muito mais para saber. Há um infinito de possibilidades.


Em pouco tempo minhas malas ficam prontas porque minha bagagem maior vai por dentro. Vou deixar um jogo de cama, um verniz vermelho, um ferro de passar e outras coisas que já não necessito. O sábio chinês sabe que após a travessia do rio, é melhor não carregar o barco com ele. Há que se ter fé na vida. E há que se viver com menos.


A grande herança que trago da Europa são os amigos que subirão comigo naquele avião. Aprendi muito com eles. E acho que talvez eles também aprenderam um pouquinho comigo.


São Salvador do Mundo (fotos acima) é um local sagrado. Dizem que os pedidos que são feitos ali, são atendidos. Peregrinei por inúmeras igrejas e santuários portugueses. Estive em Fátima. Estive frente a frente com São Bento, meu santo preferido, em Braga. Orei desajeitadamente em vários locais santos. E fui atendida. Todos os meus sonhos foram realizados de uma forma às vezes meio torta. Muitas vezes não consegui entender direito algumas adversidades. Tive obstáculos que hoje, parecem ínfimos diante da grandeza do meu milagre.


Ainda tenho direito a um curto período em terra portuguesa. E tudo o que mais desejo é usufruir ao máximo desta aventura maravilhosa que experimentei aqui.


Fiz amigos incríveis, conheci pessoas diferentes de mim, iguais a mim, próximas a mim e distantes de mim. Conheci mais da minha própria condição humana diante deste espelho gigante. Quando olhamos para os outros, vemos a nós mesmos. E mesmo com um continente inteiro de distância entre povos distintos, somos os mesmos.


Vou partir agora, mas vou retornar. Não sei se meu próximo destino será Portugal. Ainda quero conhecer a nação de Kundera, o universo de Dostoievsky, a casa de Neruda e o reino de Cleópatra. Andar pelo mundo é um caminho pessoal. E é justamente este que quero seguir.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O PROCESSO DE CRIAÇÃO




"Creio que quase sempre é necessário um golpe de loucura para se construir um destino"

Yourcenar


Estou vivendo na Europa há algum tempo e às vezes tenho crises silenciosas de pânico no que diz respeito à minha capacidade de escrever. Desde que cheguei aqui tenho lido muito. Mas mesmo muito. No Brasil as pessoas que conviviam comigo estavam sempre curiosas sobre meu intenso hábito de leitura. Eles não entendiam como eu podia ler cinco livros ao mesmo tempo sem embaralhar as histórias. Pois se meus amigos estivessem aqui, achariam que enlouqueci de vez.


É claro que estou sempre interessada na vida real, aquela vida que acontece fora dos livros, sabem? Estou sempre ouvindo as pessoas, observando os lugares e ouvindo opiniões a cerca de tudo. Afinal, a vida real é o combustível do meu trabalho.


A crise do "branco" geralmente ocorre quando desviamos o foco daquilo que verdadeiramente interessa. Pode ser a falta de grana, um amor mal resolvido, o medo do fracasso, o frio. Mas quando voltamos a nossa atenção à essência daquilo que somos, um milagre acontece.


Ontem finalizei uma nova obra. Para ser bem sincera eu nem sabia que ela estava lá, pronta, dentro de mim. Tomou-me como num assalto. Chegou de repente, com arma em punho e fez com que eu entregasse tudo. Meu livro nasceu de uma forma tão rápida e intensa que mal pude entender direito o processo da criação.


Este é o verdadeiro drama da vida do escritor. A gente tenta perseguir a inspiração, tenta saber de onde ela vem, tenta chegar à fonte desta água santa. Mas é sempre em vão.


É claro que o excesso de fortes experiências externas vão se acumulando e irrompem com violência à certa altura. É evidente que as dezenas de livros que leio ficam impregnados em mim. E é óbvio que nossos novos conceitos vão derrubando os velhos num Big Bang interno. Mas sinceramente, quando botamos no papel tudo aquilo que se acumulou, é sempre chocante.


Senti minha garganta apertar quando botei o ponto final na última página da minha história. Quando fechei o computador fui tomada por uma melancolia inexplicável. Sempre tenho esta sensação quando encerro uma obra. De repente as vozes cessam. De um momento ao outro, vejo-me sozinha, totalmente abandonada pelos personagens que eu mesma criei.


O problema da criação é que ela existe em outro nível. Temos a nítida impressão de que aquelas "pessoas" que vivem vidas extravagantes em nossos livros estão a parte de nós. Dá vontade de ligar para elas e convidá-las para um café no meio da tarde. Fico sempre aflita querendo conhecer o rumo de suas vidas. Mas não há números de telefones à nossa disposição. Não há ninguém além de nós mesmos e de nosso tumulto interior.


Quando um dos meus personagens se cala, é porque de alguma forma, já não tenho mais nada a dizer.


Mas esta manhã ocorreu algo estranho. Acordei novamente com o desejo de escrever. E vi a silhueta de novas "pessoas" flertando comigo. Pelo menos no meu caso, isso é um fato inédito. Geralmente levo meses a sentir isso. O mais comum é o silêncio.


Pois acho que estou inciando uma nova aventura pelas terras da literatura. Meu texto amadureceu, e penso que isso é o reflexo do meu próprio amadurecimento tanto como artista quanto como pessoa.


O que descobri com este novo livro concluído é que eu mudei. Já não sou quem eu era. Já não enxergo as coisas da mesma maneira. Houve uma alteração na essência da minha percepção. E devo isto à esta aventura maluca que estou vivendo tão longe de casa. Mas, principalmente, devo isso aos autores brilhantes que estou lendo. A literatura é universal e seus autores são imortais, pois eles continuam vivos nas páginas dos livros que escreveram e continuam a transformar a realidade dos que agora estão vivos.


A literatura é o grande amor da minha vida. Um amor fiel, apaixonado, e que sempre fez de mim uma pessoa feliz.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

TUDO O QUE EU TENHO TRAGO COMIGO




Gostaria de iniciar este post agradecendo a um grande amigo que virou meu leitor. Suas palavras me emocionaram. Obrigada, Gian.


A cada livro que leio dispo-me de objetos antigos. Coisas que já não fazem falta, uma blusa meio gasta, um par de sapatos, uma bolsa velha, um casaco de lã. A cada história nova preciso de mais espaço para acomodar lá dentro um caminhão cheio de mudanças.


A idade se aproxima e traz com ela a vontade de ser mais. Acordo todas as manhãs grata pelas minhas duas malas que, ainda acomodadas num canto do quarto, não pesam na aventura da minha viagem.


Minha alma peregrina deseja menos. Menos aparência, menos falsidade, menos futilidade, menos cansaço, menos perigo, menos problemas.


Minha alma peregrina deseja mais. Mais conteúdo, mais verdade, mais simplicidade, mais arte, mais vida ao ar livre, mais liberdade.


Tudo o que eu tenho trago comigo, pois tudo o que de fato me pertence está dentro de mim.


Os livros que eu leio, as lições que eu aprendo, o amor que eu sinto, o desejo que inflama, as palavras que escrevo, a obra que crio, a felicidade que sinto e a força que eu tenho. Nada disso poderá ser adquirido em shopping nenhum.


A liberdade é uma palavra traiçoeira. Somente uma pessoa forte pode enfrentar seu destino. Somente uma pessoa realmente livre pode cumrpir sua missão.


Olho ao redor, mas não é tudo o que vejo. Vejo ao redor, mas nem tudo compreendo. Olho nos olhos para interpretar melhor. Às vezes em vão, às vezes não.


Cruzei o continente e não vi nada diferente. Um detalhe pequenino ali, um acento, mero desacerto ortográfico.


Não sinto falta de nada porque trago tudo o que eu tenho comigo. E assim, de rua em rua sob o abrigo dos meus pertences, vou redefinindo aquilo que sou.

domingo, 9 de outubro de 2011

HAVIA A IRLANDA ENTRE NÓS




"Ireland sober is Ireland stiff."

James Joyce


Num romance o maior medo de uma mulher é que haja outra mulher. No meu caso em particular, meu maior medo não era uma outra mulher, mas um outro país: a Irlanda.


Era sempre a mesma ameaça: - Se as coisas não melhorarem entre nós, vou sozinho para a Irlanda! - Mas havia variações: - Estou farto disso tudo, vou pegar um avião no final do mês e passar trinta dias na Irlanda. - Ou ainda: - Cadê os meus cds de música irlandesa? Não suporto mais samba!


Era simplesmente impossível competir com a minha maior rival. A Irlanda ganhava sempre. Não sei se The Pogues é melhor que os Titãs, mas lá em casa, o primeiro nocauteava o segundo. Não sei se Oscar Wilde é melhor do que Machado de Assis (tenhos fortes suspeitas de que era, mas...), o que interessa é que lá em casa, ele estava no topo.


O whisky ainda era escocês, mas a música, a arte e a literatura...Ah! Eram da Irlanda.


Mas havia momentos de trégua e, de vez em quando, a Irlanda virava o meu maior prêmio: - Eu amo você tanto, mas tanto, que vou te levar comigo para conhecer a Irlanda! - Ou ainda: - Então você gosta de poesia? Pois vou te dar um livro de...Yeats! (O maior poeta irlandês)


A Irlanda com Dublin, The Pogues, música celta, seus autores e seus poetas dividiam o mesmo espaço conosco num apartamento que, apesar dos seus quatro quartos, ficou pequeno para todos nós. Eu amava e odiava a Irlanda. Não, na verdade eu amava a Irlanda. E morria de inveja dela porque se algo acontecesse, Mark iria sozinho para lá. E eu iria sentir falta dele, da música e da poesia.


Mas aqui em Portugal, por estranho que pareça, a Irlanda está mais próxima do que nunca da minha vida. Aqui reencontrei a Irlanda, e hoje quem gostaria de fugir sozinha para lá, sou eu.


Mark me mandou um e-mail dizendo que estava ouvindo Marisa Monte diariamente. Tive que confessar que o que ando ouvindo diariamente...vem da Irlanda. E o que ando lendo também. Estou totalmente apaixonada por James Joyce, Yeats e Oscar Wilde. E ando bebendo Baileys. E ando escrevendo também.


A força das palavras e da vida de Joyce tiveram um impacto tão grande em mim que me impulsionou para o início de um novo livro. Um livro no estilo irlandês.


E que venham The Pogues, U2, The Corrs, Cramberries, The Commitments, The Bachelors, e o que vier. E que a fada verde de Joyce continue a inspirar minha obra.


Thank you, scottish.

sábado, 8 de outubro de 2011

ALAN BENNETT: SIMPLESMENTE GENIAL



"Eu era apenas uma criança. Havia perdido os meus pais. Aos vinte anos já era careca. Sou homossexual. Pelas circunstâncias eu tinha tudo o que um artista poderia desejar. Era praticamente marcado. Eu estava programado para ser um romancista ou um dramaturgo."

Alan Bennett



Alan Bennet foi a maior surpresa literária que descobri aqui na Europa. Autor inglês, aclamado pela crítica internacional, estupendamente talentoso e até então, desconhecido para mim.


Sua obra "A Leitora Real" foi para cama comigo há dois dias e foi devorada em poucas horas. O livro afugentou totalmente o meu sono e só pude dormir quando cheguei à página final. Não estamos falando de uma obra extensa com 500 páginas, mas de um livro pequenino, editado com a metade do formato normal e rápido de ler. Mas isso não significa que seja uma leitura fácil.


A Leitora Real é simplesmente genial. Alan Bennett é tão brilhante e foi tão feliz ao escrever esta obra que fiquei pensando se deveria mesmo seguir a carreira literária. Seu texto me desafiou. Seu texto me refinou. Seu texto me fez querer melhorar muito como escritora. Seu texto me fez pensar.


Alan Bennett é tão ousado que colocou a Rainha da Inglaterra como personagem principal da sua trama. Uma rainha meio inútil, já velha, e que por meio da descoberta da literatura, passa por uma revolução interna transformadora.


Bennett fala da mediocridade humana. Bennett combate a estupidez com humor e graça. Bennett dá um show!


Quando descobre uma biblioteca itinerante nos fundos do Palácio de Buckingham, a rainha sente-se obrigada a ser cortês e pega um livro emprestado para apoiar o projeto da leitura. Mas este simples contato faz dela uma leitora voraz, insaciável. A rainha fica tão obcecada pelos autores e pelo alto nível de desafio intelectual que somente a literatura pode oferecer, que perde o interesse por tudo o mais.

O livro é sublime! Engraçado, divertido, inspirador. Bennett faz da literatura uma arma de guerra poderosa : os que não lêem tem medo dos que lêem.

Tiro o meu chapéu e recomendo com nota máxima!

MINHA VIDA VIROU FICÇÃO






" - Mas a maioria das pessoas sabem ler! - disse a rainha indignada.

- Sabem ler, minha senhora, mas não tenho a certeza de que o façam. - respondeu Sir Kevin."


Alan Bennett em A Leitora Real




Li todos os livros publicados sobre a Lei da Atração: O Segredo, O segredo por trás do Segredo, A Chave Mestra, O Poder do Subconsciente, Quem Somos Nós e por aí vai. Desde pequena escuto que o universo é mental e somos nós mesmos quem criamos a nossa realidade. Sei também de que tudo aquilo que acontece à você, é intrínsecamente parecido consigo. Sei que pensamentos tornam-se coisas e sei que somos responsáveis tanto por nossas vitórias como pelas nossas derrotas. Sei que não há vítimas e também sei que tudo que está ruim na sua vida pode ser agora mesmo transformado por você.



O que eu ainda não tinha certeza absoluta era de como produzir efeitos reais de mudanças na minha vida. Mas agora, também disso, eu sei.

Na minha tela mental duas imagens eram fortes demais: viver da literatura e morar na Europa. Como sou formada em Direito, morava numa cidadezinha pequenina no litoral do Brasil e trabalhava apenas para pagar as minhas contas, não sabia de que forma poderia realizar de verdade os meus sonhos.



Nestes livros os autores dizem que a forma que o Universo vai encontrar para trazer à você aquilo que deseja, não importa. Não é da sua conta! Tudo o que tem que fazer é saber exatamente o que quer. E tem que desejar de verdade, com alma. Tem querer isso mais do que qualquer outra coisa. Tem que saber mesmo. Não pode duvidar, hesitar, ter medo. E tem que ter fé.

Pois bem, amanhã faz exatamente 6 meses que cheguei na Europa. Há 6 meses, eu não tinha ideia de como iria vir para Europa e o pior, como iria sobreviver aqui. Tudo o que eu tinha eram umas reservas financeiras guardadas com esforço, um passaporte tirado na base da fé de que um dia seria usado e nada mais. Nada mais mesmo.

Bom, havia algo mais: a certeza absoluta de era isso o que eu queria e de que iria conseguir.



Eu havia escrito uma obra infanto-juvenil e durante o processo da escrita, senti que estava sendo abduzida pela história. Comecei a sonhar com os personagens e a pensar como eles. A atividade da escrita é um pouco esquizofrênica porque vivemos em dois mundos como se ambos fossem totalmente reais. Quando estava chegando no final da história que eu mesma havia criado (ou havia sido inspirada, nunca sabemos ao certo se inventamos mesmo nossas histórias ou acessamos um mundo paralelo...) eu já não sabia mais separar uma coisa da outra. Trabalhava no mundo real alimentada pela paixão do mundo da ficção.

Pois bem, um belo dia, minha vida virou do avesso e em pouco tempo eu tinha a passagem nas mãos. Destino? Europa. Em que lugar da Europa? Isso eu não sabia bem.

Foi um tiro no escuro. Mesmo.


Se eu conhecia alguém aqui? Facebook conta?



Em doze horas parte dos meus sonhos estavam realizados: eu estava na Europa. Mas e o resto? Como poderia sobreviver num país estrangeiro às custas da literatura? Juro que mais uma vez, não tinha a menor ideia. Juro que não tinha.



Mas parece que a lei da atração funciona mesmo, exatamente como está descrito em dezenas de livros que meu leitor pode encontrar em qualquer livraria. O como não interessa! Mais uma vez tive que fazer apenas aquilo que cabia a mim: desejar com força. E eis que aconteceu. Sabem com o que eu trabalho hoje? Com literatura.



Portugal está passando por uma crise gigante. Quem lê jornal sabe. E a crise também me abala de certa forma. E abala o negócio da literatura de forma geral, como abala tantos outros negócios. Mas eu estou aqui.

Um belo dia olhei pela janela e levei um susto irremediável: eu estava vivendo literalmente no ambiente em que criei (?) para os meus personagens. Levei um bom tempo para perceber isso, porque a ideia em si é tão absurda que nem passou pela minha cabeça. Mas teve uma hora que a ficha caiu. Tinha que cair.



Minha história passa-se num vilarejo medieval. Um lugar idílico basicamente rural onde todos se conhecem e apoiam-se uns aos outros. Há castelos na minha história. Há um galo que canta de madrugada. Há mistérios. E há cores que eu nunca vi.

Pois é exatamente neste lugar que estou vivendo. Estou num vilarejo adormecido, estou fora do tempo normal, longe da cidade grande. E há castelos de verdade ao meu redor. E há mistério. E há cores que eu nunca havia visto. E há também um galo que canta de manhã.



Descobri um pouco tarde que havia caído na minha própria ficção. Eu caí dentro da minha própria história! Se isso não é o cúmulo da lei da atração, então não sei o que é.



Além de ter atraído o ambiente que havia criado no meu livro, o trabalho com a literatura e a condição de viver na Europa, ainda atraí pessoas muito parecidas comigo. Estou sempre esquecendo de que não estou no Brasil (mesmo com todas as evidências gritantes ao meu redor). Isso acontece porque o europeu em nada difere do brasileiro. E tenho fortes suspeitas de o que o marroquino não difere do austríaco, bem como o esquimó do Alasca não difere do índio apache americano. Penso que há características humanas tão fortes em nós que nos iguala em profundidade.



Os problemas dos europeus são idênticos aos nossos. Há problemas familiares, financeiros, amorosos, de saúde e problemas políticos. Todas as músicas que tocam nas rádios daqui, tocam nas rádios daí. Todos os livros que lemos aqui, lemos aí. Todas as roupas que usamos aqui, usamos aí. O leitor pode estar pensando no efeito da globalização...claro que isso é um fato.

Mas acho que há algo mais complexo do que a globalização. O entendimento humano é amplo e se expande derrubando as fronteiras. Aqui também toma-se chá para curar a gripe, come-se pão com manteiga no café da manhã, e olha-se no relógio constantemente para não se perder as horas. Não aprendemos estas pequenas coisas na globalização. Somos iguais porque somos humanos e nos organizamos em sociedade de forma muito parecida.

Agora entendo melhor do que nunca porque a literatura é universal. O autor não escreve apenas sobre a própria vida, mas sobre a vida de todas as pessoas. Por isso não nos sentimos sós quando lemos um bom livro, porque sentimos que alguém está partilhando sua história conosco e ela faz todo sentido para nós. Entendemos o que o autor quer dizer porque também fazemos as perguntas.

Tenho lido muito em Portugal. O fato de eu estar trabalhando num editora e distribuidora de livros, para mim, é quase um milagre. Passa pelas minhas mãos centenas de livros diariamente e vou colocando de lado tudo aquilo que me interessa. Após o jantar tenho me recolhido cedo e leio. Leio James Joyce, Marcel Proust, Bernhard Schlink, Anthony Bourdain, Alan Bennet, Jane Austen, Elizabeth Adler, Milan Kundera, Joanne Harrys. Leio autores de todas as nações e adivinhem? Sim, são todos humanos e falam a nossa mesmíssima linguagem.

Leio sobre Campos de Concentração e sobre a monarquia inglesa, leio filosofia e psicanálise, leio romances adocicados e livros de guerra. Leio pessoas. Escuto vozes de todos os cantos do mundo por meio da escrita deles. Tornei-me uma cosmopolita literária, uma cidadã do mundo da literatura universal.


Se sinto falta dos Tribunais, dos processos judiciais ou do trabalho que exercia como gerente de marketing de uma empresa? Na verdade não sinto, porque trago todas essas experiências comigo. Ainda tenho o pensamento da advogada, a forma de interpretar o mercado como uma agente de marketing e o desenrasco da dona de casa que ainda cozinha e limpa o chão.



Não perdemos nada das experiências anteriores, pelo contrário, isso só nos enriquece e faz crescer. Cinco anos de Direito e dois anos defendendo acusados, além dos quatros anos de trabalho em escritórios e tribunais ainda fazem efeito na minha vida. Assim como os trabalhos atrás de balcões de lojas de roupa da minha juventude, e outras atividades de sobrevivência. Hoje entendo que tudo isso é o meu tesouro e me dá bases para trabalhar minha arte. O escritor que não convive com a realidade do mundo não consegue falar ao coração das pessoas.

Por isso, não importa que tipo de atividade você esteja exercendo agora, não faz mal se ela é menor do que você e que tenha certeza de que merece algo melhor. Aproveite todas as experiências. Aprenda com elas. E lembre-se de que a lei da atração é uma realidade infalível e por meio dela você pode mudar tudo na sua vida.



Eu caí na minha própria ficção. Se aconteceu comigo, pode acontecer com você.



Descubra o que deseja de verdade. Mas tem que querer mesmo! Você precisa estar completamente apaixonado por aquilo que deseja. Não pode haver dúvidas e nem resignação. Estabeleça metas e fique cego para as tentações que tentarem te desviar do caminho. Você vai conseguir.