segunda-feira, 26 de setembro de 2011

EUROPA SEM JUNG?




"Muitas vezes me perguntaram qual era meu método psicoterapêutico ou analítico: não posso oferecer uma resposta unívoca. Quando um médico me diz que obedece estritamente a este ou àquele método, duvido de seus resultados terapêuticos. Trato cada doente tão individualmente quanto possível, pois a solução do problema é sempre pessoal. Uma verdade psicológica só é válida se puder ser invertida."

Carl Gustav Jung



Há pouco mais de um ano comecei um estudo solitário e autodidata da psicanálise junguiana. Meu interesse pela psicologia teve início nos meus anos de estudante quando graduava-me no curso de magistério. O curso de psicologia fazia parte de nossa grade curricular com grande número de carga horária, e foi lá que li sobre Freud, Skinner e Jung pela primeira vez. Naquela época eu era uma jovem adolescente com apenas 16 anos.



No início de 2010 tive uma crise existencial profunda. Já havia tirado meu diploma em Direito, já havia desistido de defender criminosos nos tribunais brasileiros, já havia passado por um casamento relâmpago e uma separação traumática e estava trabalhando dia e noite para pagar minhas contas e descobrir quem eu era de verdade e o que que gostaria de fazer da minha vida. De repente, tudo estava escuro e todas as minhas crenças haviam caído por terra. O problema é que não havia absolutamente nada de novo para ser colocado no local onde o abismo se abriu. Eu estava perdida.



Procurei então ajuda de um psicanalista, mas as consultas eram caras e eu estava poupando ao máximo para poder realizar minha viagem para a Europa. Portanto, desisti da terapia convencional e voltei-me para aquilo que mais conheço: os livros.



Pesquisei na internet e encontrei a psicanálise junguiana que me atraiu imediatamente. Comprei uns 10 livros e comecei a estudar Jung diariamente. Em pouco tempo minha percepção de mundo se abriu. Aquele abismo interno fechou-se e mergulhei num oceano límpido e profundo: o meu próprio inconsciente. E foi justamente ali, que encontrei a resposta para as minhas infinitas perguntas.



Quando cheguei à Europa deparei-me com vários tipos psicológicos que só conhecia através da literatura junguiana. A Europa não é diferente do Brasil e o que melhor aprendemos quando viajamos para fora do nosso país é que, no fundo, somos todos muitos parecidos na nossa essência humana. O mais engraçado é que eu estava tão absorta neste processo de individuação que trouxe minha pequena biblioteca psicanalítica comigo na bagagem de mão. Tive que abrir minha mala para os policiais de Amsterdã, e tudo o que eles viram lá foi os livros de Jung.



Há pouco tempo tive a triste oportunidade de presenciar uma grande e querida amiga sofrer um surto psicótico e estou confusa com o desenrolar do seu tratamento.



Para compreender melhor o que estava ocorrendo com ela, comecei a reler meus livros junguianos. E por meio desta leitura profunda, passei a tocar novamente em pontos pessoais que precisavam de revisão. A psicanálise é a cura por meio da palavra. O trabalho do psiquiatra é ouvir e interpretar o caos interno de seus pacientes trazendo à tona seus fantasmas mais sombrios e os derretendo sob a luz forte da racionalização.



Entrei no site da maior livraria virtual do país e descobri, para meu espanto, que não há um único livro do psiquiatra suíço Carl Jung traduzido para o português de Portugal. Todos os livros que encontrei estão em inglês, francês e até mesmo no nosso português do Brasil. Aparentemente os portugueses não leram Jung. Não sei se suas teses também são pouco apreciadas no resto da Europa ou não. O que acho estranho é que ele faça tanto sucesso longe de casa (no Brasil temos várias associações e psicanalistas que seguem sua linha) e não esteja tão em evidência por aqui.



Minha amiga está sendo tratada da seguinte forma: medicação forte 3 vezes ao dia, o que a deixa num perpétuo estado de transe emocional. Jung incentivava os pacientes a sonharem para poder colher material do inconsciente e trazer à luz da razão. Para ele a medicação deveria ser ministrada apenas em casos extremos.



Freud é considerado o pai da psicanálise e Jung, por algum tempo, foi considerado seu sucessor. Mas Jung começou a discordar da teoria de Freud e após sete anos de forte convívio a amizade se desfez. Jung foi considerado um místico sem qualidades científicas porque foi estudar a mitologia universal para poder interpretar a alma humana.



Jung era europeu, eu estou na Europa, e ainda não o encontrei.



De sua maior seguidora e colaboradora, Dra Marie Loiuse Von Franz (foto), também não há sinais. A obra dela, que considero meu tesouro mais precioso (caso contrário não teria me desfeito de minhas próprias roupas e sapatos para que seus livros tivessem espaço na minha mala), parece-me desconhecida por aqui. A Dra Von Franz é autora de um trabalho belíssimo e profundo de interpretação dos contos de fadas e dos mitos sob a ótica da psicologia. Ela trabalhou lado a lado com Jung durante trinta anos e tornou-se responsável pela sua Fundação após a morte do mestre.



Não satisfeita com a falta de literatura junguiana, procurei na internet por clínicas ou psicanalistas que seguissem essa área. Mais uma vez, nada. Nem uma referência na internet. Nem um único nome no google português.



Não sou médica e pode parecer presunção minha fazer uma crítica tão aberta à ausência de referência sobre a obra de Jung, mas fico mesmo entristecida por ver que um homem tão fantástico, que deixou um trabalho tão fabuloso no campo da psiquiatria tenha caído no esquecimento em seu próprio continente. Parece que santo de casa não faz mesmo milagre.



Graças talvez a um fenônemo de sincronicidade (como diria Jung), sua obra veio comigo e estou podendo apresentá-la para as pessoas daqui. O tratamento psiquiátrico que estou acompanhando aqui parece-me retrógrado e pouco eficaz quando comparado à vastidão do trabalho do médico suíço. A cada novo encontro com a psiquiatra eu lhe pergunto: E então? Ela te fez perguntas? Você falou sobre isso ou aquilo que te incomoda?



E para minha grande decepção a resposta é sempre a mesma: Ela não perguntou.



A psiquiatria é uma área vasta e há várias técnicas e métodos que podem ser empregados conforme a posição doutrinária do médico que a aplica, mas a falta de um diálogo mais profundo que tente penetrar na causa das emoções negativas me aflige.



Pois fica aqui o meu registro de decepção e tristeza ao saber que Jung, um dos homens mais influentes da psicanálise moderna, ficou esquecido justamente num país europeu. E convido os meus amigos tanto portugueses como brasileiros a lerem um pouco sobre suas teorias. Jung era um alquimista da alma humana, um médico excepcional que vale a pena conhecer.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

DOIS LADOS



"Sonho. Não sei quem sou neste momento.

Durmo sentindo-me. Na hora calma

Meu pensamento esquece o pensamento,

Minha alma não tem alma.



Se existo é um erro eu o saber. Se acordo

Parece que erro. Sinto que não sei.

Nada quero nem tenho nem recordo.

Não tenho ser nem lei.




Lapso da consciência entre ilusões,

Fantasmas me limitam e me contém.

Dorme inconsciente de alheios corações,

Coração de ninguém.




Fernando Pessoa






E eu aqui vagando pelas ruas do seu país.
Inglória pátria de ausentes.
Meus pais não entendem a jornada.
Meus pais me querem de volta,
de volta a nada.

Aqui do outro lado já não tenho lado nenhum.
E me mantenho. Como e bebo e durmo e acordo como faria lá,
como faço aqui,
como sempre fiz.

Como se eu pudesse vazar pelo mar e atravessar gaivotas.
E navegar sem barco nem vela nem ondas gigantes.
Como se eu pudesse ser caravela,
e encharcar um lugar sem mim.

O lado de cá é como o lado de lá.
Tanto faz estar lá ou cá.
Não posso ser outro que não seja eu.
Não posso apenas agradar.

E eu, prisioneiro fictício, encarcerado em mim,
falhei na data do seu aniversário,
no nascimento do seu filho,
no velório do seu pai.
Falhei porque não pude sair de mim.

Tanto faz o meu lugar.
O descompasso é interno,
a geografia não acompanha
o espaço.

Herdei algo estranho dos deuses.
Não saí aos meus pais.

domingo, 18 de setembro de 2011

ENCONTRO COM O POETA




"Sinto um cajado nas mãos,

e vejo um recorte de mim.

Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,

ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho.

E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz,

e quer fingir que compreende."

Fernando Pessoa - O Guardador de Rebanhos


Li Fernando Pessoa pela primeira vez aos catorze anos de idade. Ganhei de presente da minha tia preferida, a tia Rô, a obra "O eu profundo e os outros eus", que trazia poemas de Pessoa na figura de todos os seus pseudônimos. Poesias que marcaram a minha vida para sempre, como o Guardador de Rebanhos, meu poema predileto e que ainda hoje me emociona.


O que é um poeta afinal? Comecei minha aventura literária arriscando na composição de poemas. Escrevi quatro livros inteiros de poesias inspiradas por todas as minhas paixões: a vida, os amores, a arte e, principalmente, os artistas. Simplesmente adoro os artistas. Graças a eles a vida tem cor, tem um tom diferente e nos dá a sensação de que tudo é possível. Os artistas inventam a vida que querem viver. Geralmente eles tem um passado triste, um pai ausente, um abandono romântico, uma miséria crônica no currículum, uma queda a mais pelo álcool, um desajuste social, um desencaixe. Mas as adversidades não curvam o seu talento, embora deixem um ar suspenso de melancolia.


Mas acima de tudo os artistas são pessoas apaixonadas que amam sem limites. E são leais às suas paixões. Sejam elas as mulheres, os homens ou a sua própria arte.


Este sentimento de constância é o que mais me atrai nos poetas e nos poemas cheios de alma que eles produzem. Às vezes sou acusada de não acreditar no amor. Encaro isso como um insulto e uma ofensa pessoal. Antes de ser escritora, sou poeta. E os poetas existem por causa do amor.


O que eu vivo combatendo como pessoa e como escritora é o amor superficial, egoísta, mesquinho e pequeno que tanto vejo por aí, onde quer que eu vá. Combato com unhas e dentes o amor desleal, corrupto, que magoa e degrada. Combato o amor que mente, engana e trapaceia a pessoa amada. Se estiverem falando sobre isso, então está certo. Eu não acredito neste amor.


Fernando Pessoa dizia sobre Deus: "Não acredito em Deus porque nunca o vi. Se ele quisesse que eu acreditasse nele sem dúvida que viria falar comigo. E entraria pela minha porta adentro dizendo - Aqui estou! Mas se Deus é as flores e as árvores e os montes e o sol e o luar, então acredito nele. Acredito nele a toda hora." Pois é assim que interpreto o amor. Se às vezes digo que não acredito no amor, é porque assim como Deus não apareceu em carne e osso para Pessoa, o amor também a mim não visitou.


Do outro tipo de amor que não acredito eu conheço em pessoa. Com o amor que mente, inventa histórias, pula do barco no momento da tempestade e desaparece com o vento debaixo do rabo de saia, eu não quero amizade. Mas se há um outro tipo de amor que permanece ao seu lado e te dá forças para crescer, e faz com que você se torne melhor, maior e mais completo, então neste caso eu acredito nele.


O amor para mim é algo maior. Não tenho filhos, mas penso que este deve ser o sentimento mais próximo daquilo que idealizo como amor. É o tal do amor incondicional que a gente continua sentindo mesmo quando tudo desmorona. Ou o amor que sinto pelos animais que está sempre na altura máxima, mesmo quando eles rosnam ou ameaçam morder. Ou o amor de Cristo e Buda que se manteve intacto apesar de todas as heresias que cometemos contra eles.


As pessoas que pensam que eu não acredito no amor, estão enganadas. Eu acredito nele, apenas ainda não o vi pessoalmente. Os que bateram à minha porta eram covers, fake, dublês do original. É como se eu visse o cover do Elvis e achasse que estava diante do verdadeiro rei. Não estava!


Aí eu paro para refletir sobre os meus conceitos. Será que sou ingênua demais? Mas a ingenuidade não é justamente o traço mais marcante da caractrística do artista? Ele tem consciência da própria ingenuidade, mas ainda assim o é. Ele simplesmente não consegue deixar de o ser. A arte do artista não é justamente a sua visão ingênua da vida? As flores de Van Gogh não eram a visão ingênua e bela que ele tinha das flores? E depois que ele as pintou elas não passaram de fato a existir?


Os poetas amam tanto e de maneira tão profunda que as pessoas confundem isso com o sentimento contrário. É tão exótico o amor do poeta que ele chega a cair no descrédito.


O poeta ama da mesma forma que ama as estrelas ou o céu ou o sol. Ele olha pra cima e fica tão encantado com a beleza daquilo tudo que ninguém acredita no sentimento milagroso que traz em si. E por despeito ou inveja as pessoas menosprezam aquilo que elas próprias não conseguem sentir. E vão difamando o poeta por aí dizendo que ele é vulgar, arrogante e descrente!


Eu aprendi a amar com Fernando Pessoa e Pablo Neruda, professores divinos e incomuns. As cartas de amor que Neruda escreveu para Matilde vão tão além de tudo aquilo que somos capazes de mostrar que quase me atormenta. Não vivi com o casal e não sei como aquele casamento funcionava na prática, mas como poeta posso lhes garantir que só é possível escrever sobre aquilo que realmente se sente. Aquelas declarações explícitas de afeto não poderiam ser impressas se Neruda não tivesse nada daquilo por dentro.


Portanto é isso, acusem o poeta de qualquer coisa, menos de falta de sensibilidade ou capacidade de amor. O resto a história inventa.


"Se perder um amor...não se perca!

Se o achar...segure-o!

Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala.

O mais...é nada."

Fernando Pessoa

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

NO PAÍS DAS MARAVILHAS




"Sempre que houver alternativas, tenha cuidado. Não opte pelo conveniente, pelo confortável, pelo respeitável, pelo socialmente aceitável,

pelo honroso. Opte pelo que faz o seu coração vibrar.

Opte pelo que gostaria de fazer, apesar das consequências"

OSHO






Sinto que fui tragada pela minha própria ficção. Assim como Alice, caí no buraco sem fundo atrás de um coelho maluco que estava sempre com pressa. O coelho maluco representa a minha vida.

Estou em lugar nenhum. Nem me lembro direito como fui que vim parar aqui. Tudo está fora do lugar. Minha cabeça dá voltas e o mundo parou. Estou no meio do deserto de Sleeping Village, só que em Sleeping Village, não há deserto algum.

Caminho pelo jardim secreto e as flores falam comigo pela manhã. Indicam um caminho obscuro que não sei onde vai dar. Às vezes sinto vontade de retornar, mas não posso parar.


Não entendo a língua desse lugar. A cabeça deles funciona de um modo distinto da minha. Eu olho nos olhos deles, mas suas expressões não revelam muita coisa. Que diabos estou fazendo aqui? Cadê a minha casa, os meus amigos, os meus livros, a minha gata, as referências do meu lugar?



E vou caindo, caindo, caindo. E não há ninguém lá embaixo que possa me salvar. Aqui em lugar nenhum as pessoas não acreditam em milagres. Eles rezam, e rezam, mas são incapazes de cometerem atos de coragem capaz de ajudar o santo a realizar o milagre. O que eles querem, afinal? E vão vivendo de mentira em mentira como atores mascarados numa peça de teatro grego.


Mas a minha língua é a verdade. E essa não me serve de nada por aqui.


O país das maravilhas está me sufocando. O sol brilhando sempre dá a sensação falsa de excesso de luz. Mas no fundo é tudo muito escuro.


O que foi que eu fiz? Será que pronunciei rápido demais as palavras mágicas?

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

CARTA AOS LEITORES



" Aqueles que reprimem o desejo assim o fazem porque o seu desejo é fraco o suficiente para ser reprimido."

William Blake





Quando decidi tornar público meu desassossego interno, não poderia imaginar a extensão da influência que eu teria sobre meus leitores. Na verdade, nem poderia saber se teria leitores. As palavras são o ar que respiro. Escrever, para mim, é uma questão vital. E a construção deste blog foi o meio que encontrei para deixar registrado as impressões que minhas próprias experiências me causam.

Mas ontem tive uma feliz surpresa dos meus leitores. Recebi inúmeros e-mails e mensagens de agradecimento pelos meus textos. Fiquei um pouco envergonhada diante da intensidade das declarações e fui obrigada a parar para pensar sobre a responsabilidade que tenho nas mãos a cada vez que publico aqui um desabafo íntimo.

Nós realmente não temos a menor ideia do impacto que causamos sobre nosso ambiente e sobre as pessoas. Os seres humanos necessitam de ídolos e de modelos para seguirem e compararem seus próprios esforços, derrotas e vitórias. Quando preciso de forças para seguir meu caminho, leio livros. Leio biografias e releio obras que me causaram forte impacto quando eu era mais jovem. E também leio outros blogs, como o do Paulo Coelho, por exemplo, que sempre tem uma palavra de incentivo aos leitores. E leio, acima de tudo, as palavras do meu maior herói, o rei Salomão. O livro do Eclesiastes é a minha maior referência.


É na literatura que encontro adubo para fortalecer meu jardim. E a literatura é feita pelo homem. Por isso, no final, lemos uns aos outros e nesta troca de experiências descobrimos que não estamos sozinhos.


Escrever é um ato totalmente solitário. Posso passar horas discutindo os mais variados assuntos com as pessoas mais inteligentes do mundo, mas na hora de escrever, eu estou só com meus pensamentos, minhas crenças e as conclusões que tirei baseadas na minha própria leitura de mundo. Por isso acho tão assustador saber que estou influenciando pessoas com a minha percepção subjetiva da vida.


Sempre fui considerada uma ovelha negra no rebanho. Nunca fui uma criança boazinha que obedecia cegamente às regras das instituições e dos professores. Nunca fui uma amiga convencional. Nunca fui uma namorada perfeita, e nem uma filha digna apenas de elogios. Meu jeito de ser sempre foi um pouco torto, porque sempre fiz questão de respeitar a minha individualidade. E sempre exigi que as pessoas me respeitassem pelo que sou. Quando me sinto desrespeitada, me afasto de forma natural. E raramente retorno.


A vida é um deserto que navegamos, muitas vezes, sozinhos. É um barco grande cujo rumo depende da rota que escolhemos para ele. Sou capitã da minha nau e tenho navegado no escuro sem saber se vou alcançar meu destino. Por isso, fiquei muito surpresa quando tomei conhecimento de que minha embarcação fantasma estava atraindo tripulantes.


Gostaria de agradecer a todos os meus leitores que entraram em contato comigo nesta semana: Cláudia Martins, Roberto Almeida, Denise Dutra, Dari Walker (que está lendo o blog lá de Los Angeles!), Nagib, Regina Ramos (minha mãe e fã), e a todos os outros que enviaram mensagens pelo face e por e-mail.



Vou continuar a contar minha história aqui e espero que possamos continuar com esta troca de experiências. E que eu consiga continuar a incentivar e motivar meus leitores a transformarem suas vidas de forma que se assemelhe aquilo que mais desejam.


Lembrem-se: a felicidade é uma escolha exclusivamente pessoal. Cabe somente a si fazer as escolhas certas que farão de você uma pessoa completa e feliz.

E não se esqueçam: Não existe obstáculo insuperável e nem problema sem solução. Ouça o seu coração e saberá como operar o milagre máximo da transmutação: o de transformar o mais simples metal em ouro. Também isso está nas suas mãos.



Obrigada,

Tamara Ramos

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A OPORTUNIDADE NÃO BATERÁ DUAS VEZES À SUA PORTA




"O PIOR DE TODOS OS PECADOS? O ARREPENDIMENTO."

"Todos os dias Deus nos dá um momento em que é possivel mudar tudo o que nos deixa infelizes. É o momento em que um 'sim' ou um 'não' pode mudar toda a nossa existência."
Paulo Coelho


Quantas pessoas passam a vida inteira à espera de um milagre e, quando se defrontam com ele, não o reconhecem? Quantas pessoas dedicam anos às lembranças dos traumas passados sem nunca arriscar um futuro que cure? Quantas pessoas carregam a cruz pesada do arrependimento?


A vida é feita de pensamentos, palavras, desejos , vibrações e escolhas. Acredito sinceramente que atraímos para nossa vida tudo aquilo que se parece com a gente. Todas as experiências que temos reflete quem somos. Não há como escapar. Se prestar bem atenção, verá que a realidade da sua vida foi criada por você mesmo. Não há vítimas do destino e nem um Deus opressor te impondo castigos.

Conheci vários personagens interessantes ao longo da minha jornada pessoal. Algumas pessoas não percebem a contradição do próprio discurso e seguem acalentando utopias, como o vendedor de cristais do Alquimista, que sonhava em visitar Meca, mas no fundo sabia que no dia em que realizasse a viagem, perderia a razão da sua existência.

 
Todas as vezes que desejei de verdade algo, manifestei-o em minha vida. Das pequenas às grandes coisas, nada passou batido. Somos aquilo que acreditamos. Somos aquilo que desejamos. Somos aquilo que criamos.

Tenho ouvido muitos lamentos de arrependimentos ultimamente. Pessoas olhando para trás e dizendo: - Ah, se eu tivesse feito isso, se eu não tivesse feito aquilo...

Mas quando aparece uma oportunidade real de mudanças, capaz de virar do avesso as próprias crenças e desesperanças, essas pessoas recusam a chance, dão um passo para trás, recuam.

Desde pequena escuto que a oportunidade não bate duas vezes na mesma porta. Quando aparecia a chance de algo extraordinário na minha vida e eu, por medo ou insegurança, hesitava em aceitar, minha família dizia: - Se não agarrar esta chance já, ela vai fugir de você e bater em outra porta!


Meu pavor de perder a chance e de não conseguir perdoar a mim mesma pela covardia era tão grande que me movia pra frente. Sempre foi assim.

Quando faço uma retrospectiva fico feliz com as minhas decisões. Não sei se foram todas certas ou erradas, mas falaram alto ao meu coração e é isso o que importa.

Lembro-me quando deixei Santos para estudar em Guarapari, por exemplo. Bastou um telefonema e eu disse sim, sem refletir, ponderar, pensar. Tudo o que eu mais queria naquele momento era concluir os meus estudos e se a vida estava me convidando a deixar tudo o que eu tinha em troca da realização desse sonho, então eu aceitava.

 
Foi o mesmo quando vim para Portugal. Três dias antes de me mudar para Itália (onde tudo deu errado e eu estava sozinha com a passagem na mão), uma pessoa que eu nem conhecia ligou pra mim e disse: - Venha para Portugal, pois aqui eu vou te ajudar.


O meu maior sonho era cruzar o oceano e batalhar pela minha arte, então não pensei duas vezes antes de ir a uma agência de turismo e comprar uma passagem para o Porto, sem saber o que seria da minha vida quando eu chegasse lá.

Não gosto de meio-termos, não sei lidar com isso de jeito nenhum (talvez este seja o grande aprendizado da minha vida), por isso sempre mergulhei de cabeça em busca daquilo que me faz feliz. E sou grata pela minha coragem, pois por causa dela, não tenho arrependimentos.


O arrependimento me persegue apenas quando faço algo que contraria a minha essência. Quando vejo-me conivente com situações que desprezo. Quando, por fraqueza, insisto num caminho que me faz mal. Não tenho medo de deixar tudo pra trás e começar de novo. Não tenho medo do fracasso. Não tenho medo dos altos e baixos da minha vida, pois os encaro há anos. E venço.


Venço sempre porque as minhas metas são claras. A vida, pra mim, é uma guerra cheia de batalhas que a gente vai enfrentando. Às vezes soltam vários leões de uma vez atrás de mim, e temo pela minha integridade. Mas depois lembro de quem sou, e avanço. Sou uma gladiadora da vida que se exibe no coliseu do século XXI sem armaduras.

Se meu leitor estiver em dúvida diante de uma grande oportunidade, meu conselho é para que a aceite. Quando a gente se entrega sem medo em troca de um grande sonho, parece que Deus fica satisfeito e te ajuda. Nossa capacidade de ação é a medida exata da nossa coragem.


Se você estiver estagnado numa situação que te oprime há anos, dê um passo à frente. Aceite a mão que se estende em sua direção. Vá à luta.

O arrependimento é uma doença mortal que vai comendo seu coração e atrofiando a sua mente. É tão grave e nocivo como a depressão, o rancor, a fraqueza moral e a paralisia pessoal.

Não seja manipulado pela opinião alheia, pelo moralismo social, pelas interferências familiares, a língua ferina da vizinhança ou qualquer outro tipo de veneno. Seja apenas você. Faça o que deve ser feito agora. Expresse sua alma, exija respeito e siga seu caminho sem olhar para trás.

Agora, se por qualquer motivo, você não consegue sair do lugar e prefere aceitar as limitações que você mesmo se impõe, por favor, não reclame. Não contamine o ambiente com a sua falta de coragem. E nunca, jamais, sob hipótese alguma, culpe a vida pelos seus fracassos. Lembre-se: tudo aquilo que te acontece, foi por criado por você.

Somos os escultores da nossa vida. Somos responsáveis pela nossa arte. Da mesma forma que Michelângelo decorou lindamente a Capela Sistina, também nós podemos ousar na tela da nossa história. Use mil cores, tente novas técnicas, faça diferente e se realize como homem, mulher, pessoa inteira que você é.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

E EU QUE SOU TUDO OU NADA AO MEIO DIA



"Eu sou um monstro, mas também sou a liberdade. Sou a expressão da liberdade. Se sinto-me à margem? Sim."

Lady Gaga


"À propósito este negócio de alma livre foi você quem me ensinou. Quem lê o seu blog acha você louca. Amiga, acho que você não sabe quem é. Mas eu vou te explicar: você tem a alma livre. Ter alma livre é ser quem você é e ponto. Você vive o que é bom nas pessoas, nos lugares, nos sentimentos e no final ri disso tudo. Ou então mete o cacete no blog, para todo mundo ver, sem se preocupar com as consequências. É como voar de asa delta no escuro. Essa é você."

De Cláudia Martins para mim (por e-mail)



Hoje peguei a mim mesma dando conselhos sobre a vida a uma adolescente de dezesseis anos. Ela está deprimida porque não quer mudar de cidade e eu a olhei com cara de espanto. Aos dezesseis anos com medo da roda da vida? Não pode ser. Cadê a coragem e a ousadia desses jovens?


Eu nunca fui medrosa. Nunca tive medo de mudança nenhuma. Quando o bichinho da mudança rondava a minha casa (e minha mãe é uma alma cigana que nos fez sempre mudar muito), eu já logo começava a arrumar as malas e sonhar acordada com o próximo destino. Nada nem ninguém me fazia parar. Nunca me faltou adrenalina para seguir viagem.


E graças a este espírito selvagem minha vida foi sempre um caldeirão de grandes oportunidades. Vivi nas melhores e maiores cidades do Brasil, viajei muito, tive acesso a todo tipo de gente e de conduta e fui me aprimorando a cada contato. Hoje sou uma mulher forte que conhece todo tipo de vegetação e planícies e continuo me deslumbrando a cada nova paragem.


E continuo sentindo em mim o encosto perturbador da tal liberdade. Esta manhã abri a porta da rua e olhei fixamente para as vinhas do Douro. Quando na minha vida eu poderia prever que viveria num lugar como esse? Olhei as viúvas de preto caminhando sem pressa, os cães correndo atrás dos carros, os homens de expressão cansada da vida no campo, o tempo quase parado. Eu não pertenço a este lugar, mas ele me comove e faz pensar.


Uma alma livre transita sem problemas por diversos mundos. E vai se adaptando, se aconchegando, andando no meio deles como se fosse um. E esta é a melhor e a pior herança que eu vou deixar nesta vida.


Às vezes acordo de manhã e penso: o que eu vou fazer com tanta liberdade? Olho para as minhas malas no canto do quarto e estou sempre consciente de que a qualquer momento eu posso partir. E esta sensação me alucina e assusta ao mesmo tempo. Por um lado desejo parar num lugar qualquer e construir raízes. Por outro sinto forte rejeição às amarras. Não quero viver uma vida medíocre. E tenho vencido neste aspecto, porque minha vida pode ser tudo, menos medíocre!


Assim como numa tela de Picasso, minha vida precisa de loucura e de cor.


Não é à toa que batizei meu blog com o nome que ele tem. Tudo o que está escrito aqui, sou eu. E eu sou tudo ou nada ao meio-dia, gostem ou não. Ao meio-dia temos o ápice de luz. Ao meio-dia nenhum fantasma se esconde, nenhuma mentira perdura, nenhuma máscara está segura. Ao meio-dia minha obra se expande. Ao meio-dia tomo as decisões mais importantes. Ao meio-dia minha vida se faz.


Eu, sinceramente, não faço a menor ideia se o caminho que sigo é certo ou errado. Juro por tudo o que é mais sagrado que não sei onde ele vai dar. Mas sempre senti muito mais prazer na viagem do que no destino final. A caminhada é o mais importante porque é nela que a gente aprende. É caminhando que o corpo levanta. É andando que a gente vai.


Penso nos heróis da minha história. Eles também eram tudo ou nada ao meio-dia e é por isso que seus nomes não serão esquecidos. A vida tem fim pra todo mundo. Mas não é a morte que importa, e sim os dias que a gente faz. E nossos dias devem ser repletos daquilo que somos. Nossa vida deve ser a tradução exata de nós.


Na condição de artista eu sei que minha cota de erros ultrapassa a de acertos. Porque o artista é um alquimista que testa no laboratório da vida a própria arte. Meus instrumentos são as minhas experiências e as minhas palavras, nada mais. E é por isso que mesmo carregando apenas duas malas comigo tive a sensação que a bagagem pesava.


Quando você abre mão de todo tipo de bobagem para exercer plenamente a sua individualidade, fica difícil tolerar meias verdades. Quando você acredita totalmente na sua postura diante da vida, fica dificil ponderar sermão.


E eu que sou tudo ou nada ao meio-dia vou prosseguir a rota da minha viagem sob a imensidão ofuscante do sol. E é assim que eu quero ser lembrada na hora da minha morte. Como alguém que viveu sem medo, com pouca bagagem, com muita verdade e movida pela paixão.


quinta-feira, 1 de setembro de 2011

COMO É QUE PODE?




"I just can´t wait to get on the road again"

Willie Nelson



Estou dando a volta ao mundo em busca de coisas diferentes. Deixei o Brasil bastante irritada acreditando que todos os nossos problemas pessoais deviam-se aos problemas gerais de nossa cultura latina. Mas até mesmo o percurso que me trouxe à Portugal foi inusitado.


Viajei lado a lado com um sueco lindo de olhos azuis que falava fluentemente o inglês. Ele veio fazendo perguntas sobre o Brasil, sobre meu trabalho, meus amigos e minha vida amorosa (claro). Eu olhava pra ele e pensava: - Este cara tá me cantando ou o quê?


Quando sobrevoamos os alpes suiços ele pulou pro meu lado da janela com o pretexto que "queria ver mais de perto" o espetáculo da natureza. Descemos juntos ao aeroporto de Schippol em Amsterdã e ele aguardou pacientemente ao meu lado enquanto eu conferia sem pressa quais as cores de base da Clinique ficariam melhor em minha pele. No Duty Free fez questão absoluta de me ajudar a escolher um perfume e uma máquina fotográfica. Fui ao banheiro por 5 minutos e quando voltei, havia croissants, coca-cola gelada e chocolate belga à minha espera.


Desconfiei do excesso de bons modos e já estava quase fazendo a pergunta derradeira quando o celular dele tocou. Em três segundos o bom moço transformou-se numa criança boba dando mil desculpas pra alguém do outro lado que não parecia muito satisfeita com ele. Quem era, meninas? Que rufem os tambores! Sim, a mulher dele!


Estou relembrando esta história para que meu leitor compreenda que minha ilusão de encontrar algo diferente do outro lado do mundo caiu por terra durante a conexão dos meus vôos, antes mesmo de aterrisar no meu destino final.


Eu olhei pra ele com aquela cara de "agora te peguei, seu cabra safado!", agradeci as doze horas de delicadeza e segui viagem para Milão.


Mesmo assim, achei melhor pensar que aquilo era só mesmo um pequeno azar, resquício dos meus traumas passados que acabaram por atrair um Dom Juan sueco.


Cheguei com minhas duas malinhas no aeroporto do Porto e fui cansada e feliz para o meu hotel. Lá chegando, outra surpresa. Havia um campeonato internacional de futebol no Porto e acho que todos os times estavam hospedados no mesmo hotel. Levantei de manhã e tomei um susto quando vi uma multidão de homens de toalha no corredor que dava para o meu quarto. Como já sou crescidinha, botei meus óculos escuros e corri para o elevador. Nesta manhã passei imune.


À tarde fui tomar um café no roll do hotel e os problemas começaram. Um americano de 2 metros de altura me ofereceu um brinde à distância com seu copo de leite. (Sim, leite). Olhei pro outro lado e fingi que não era comigo. Não demorou cinco minutos para que o gringo se aproximasse. Tirei os óculos escuros e mirei bem naquela marquinha branca entre os dedos do rapaz. Sim, marca de aliança de casado. Disse a ele que estava morrendo de pressa e desapareci tão rápido como os aviões do David Copperfield.


Comecei a desconfiar de que havia algo errado com o outro lado do mundo. Será que este problema é mesmo universal? Uma mulher mata todas as charadas quando viaja sozinha. Se ela abrir bem os olhos verá de perto a realidade das coisas.


Após algum tempo em Portugal, outras situações apareceram. Eu achei que já estava vacinada, mas me enganei leitor. Me enganei com força. :(


E aí é inevitável que o tema se apresente novamente. Por que diabos as pessoas estão sempre em busca de novas aventuras no campo afetivo? O que será que falta em casa que sobra na rua? Será que não é tudo uma grande ilusão?


Hoje a Cláudia me mandou um e-mail falando de uma discussão que teve com um, chamaremos de palhaço, virtual. O infeliz teve a cara-de-pau de dizer que as mulheres na rua são todas umas "#$%%#" e que a esposinha doce tem dele o que nenhuma outra terá. Pois bem, se são todas reprováveis e sua esposa é uma santa, por que não fica quietinho ao lado dela?? Hein, palhaço?


Olha, eu não sei o que as pessoas buscam fora do casamento oficial. A gente namora, namora, namora. Prova de tudo. Conhece um pouco de tudo. Quando escolhe um e casa, deveria saber o que está fazendo, não? Eu saberia!


Felizmente, parei de tentar compreender estes disparates. Acho que no fundo, as pessoas não fazem a menor ideia do que é felicidade e insistem num discurso vazio. Conheço pessoas que são desrespeitadas há anos. São traídas, enganadas, passadas pra trás, usadas, mas permanecem firmes nesta relação doente. Falta o quê para se libertar de tamanho desatino? Auto-estima? Amor próprio? Consciência? Coragem? Vergonha na cara? Como é que pode?


Como é que alguém pode saber que é traído e continuar ali, com cara de paisagem, repetindo "eu te amo" a quem não merece? Cláudia, minha amiga, nós conhecemos de perto duas dezenas de histórias dessas, não é mesmo? Nós mesmas temos nossas próprias histórias. Hoje cedo quando li o seu e-mail meu estômago revirou. E este texto acabou saindo por desabafo.


Ainda assim acredito que se eu posso encarar um relacionamento de frente sem mentiras, traições e sacanagens, deve haver mais alguém neste mundo que também possa. E eu vou encontrar, Cláudia. E se ele tiver um irmão gêmeo, eu o encaminho para você!


Em breve estarei partindo do lugar onde estou. Meus dias já estão sendo contados num calendário de bolso. Acho que não retorno mais ao Brasil, mas meus problemas com meu país estão sendo todos resolvidos aqui. O que descubro a cada dia nesta jornada é que nossos problemas não são culturais, piores e nem melhores. Nossos problemas devem-se exclusivamente à pobreza de nosso caráter. E este é um problema nacional e internacional.