sexta-feira, 29 de julho de 2011

GASTRONOMIA PORTUGUESA





Estou perdidamente apaixonada pela gastronomia portuguesa. Quando digo perdidamente é no sentido literal mesmo! Com certeza absoluta já engordei uns 6 kilos nestes últimos quatro meses. É terrível e quase não me reconheço quando olho no espelho. Mas o que se pode fazer quando vive-se rodeado do melhor azeite, vinho e pães do mundo? Não tem jeito, é impossível resistir....



É mesmo engraçado, eu nunca havia imaginado que passaria tanto tempo em Portugal. Europa para mim era Londres, Milão, Paris, Escócia, Espanha. Portugal definitivamente não estava no mapa no dia em que comecei a planejar minha viagem.



Mas para minha doce surpresa (falando em doce, ai os pastéis de nata...), vim parar aqui nesta terra que é o berço da minha própria civilização.



Já logo de cara comi uma "francesinha" (especialidade típica portuguesa, um pão com queijo, salsicha, carne e um molho que não dá para explicar). Aí vieram os vinhos. Comecei logo pelo melhor do mundo: o vinho do Porto dos Magalhães (família que cultiva esta tradição há várias gerações) e fiquei viciada. Dizem que o tal vinho do Porto não se bebe, se mastiga. Eles tem toda razão! O bendito é uma bebida importada do paraíso e se anjo bebe alguma coisa no céu, deve ser vinho do Porto!



Mas meu problema não termina aí. Além do Porto há os espumantes, o vinho tinto tradicional, o portônico (esta mistura é segredo e não vou revelar aqui) e o fino (chopp) português com alto teor de álcool que me faz cantar ao vivo depois do terceiro copo...



Sobre a Ginja é necessário um parágrafo à parte. Ginja é basicamente um licor de cereja. Aí o leitor distraído pode pensar: "Ah! Licor de cereja, isso eu conheço!" Não leitor, se não esteve em Óbidos nenhuma vez na vida, não faz ideia do que eu estou falando. Marque logo sua passagem aérea e venha para cá. Ginja é uma profanação completa. Se você tem tendência a cometer pecados de forma compulsiva como eu, fique lonje da ginja! Você vai sair de Óbidos rindo alto, cambaleando e tremendo depois de 10 minutos que acabar seu último copinho com crise aguda de abstinência. Deixei Óbidos com a suspeita de que a Ginja é a bebida predileta de Afrodite.



Para agravar meu pecado da gula, iniciei uma verdadeira peregrinação em busca dos variados tipos de azeites da região. Meu caro leitor brasileiro, lamento, mas o azeite português dá de mil a zero no nosso. Também ganha de lavada do azeite grego, macedônio, francês, marciano, coreano ou de qualquer lugar do mundo! O tal do azeite português é violento como um tapa na cara. Depois que toma-se o primeiro ou odeia-se de vez o agressor ou apaixona-se loucamente por ele! Pois adivinha o que ocorreu comigo? Sim leitor, já não vivo sem o azeite português. É como se eu tivesse a síndrome de Estocolmo, mas gastronômica.

Se meu leitor estiver a caminho de Portugal e vier para a região do Douro, sugiro que visite o restaurante Tarracha. Para começar a picanha portuguesa do Tarracha é melhor do que a nossa. Desculpa gente, mas é verdade. Também aprecio o bom churrasco nacional, mas a picanha gigante do Tarracha... ai meu Deus....É um escândalo!


E aí vocês sabem o que acontece quando há azeite e carrne na mesa, não? Imediatamente imaginamos a cesta de pão para acompanhar.... E os pães portugueses... (Uma prece se faz necessária: Senhor das Almas Perdidas, perdoe-me pelo excesso de pão que consumo aqui, eu sei que sou herege. Amém). Olha, não teve uma única vez em que comi um pão igual ao outro em terras lusitanas. Vai saber de onde eles tiram tantas receitas.... É praticamente uma tentativa de homicídio: é de matar de tão bom!


O arroz e feijão português já vem misturado. Vem tudo junto numa travessa grande e você começa a rezar de novo para que Deus te perdoe por tantas recaídas...


Quando você acha que já viu de tudo, chega uma travessa fumegante de bacalhau. Compreendam, eu não sou a maior fã de peixe que existe no mundo, mas o bacalhau português é divino! Tem bacalhau de tudo quanto é jeito e você começa a desistir logo de tentar salvar sua alma.


Os doces eu vou pular porque se eu falar aqui, desço direto pro inferno e levo todo mundo comigo...


Eu não sei o que será da minha silhueta se eu continuar vivendo aqui. Acho que é melhor eu começar a fazer uma novena amanhã mesmo para qualquer santo das causas impossíveis para ver se me afasta este cálice (de vinho do Porto, tinto, branco...).

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A VIDA É UMA BREVE VIAGEM, SEJA FELIZ.









"O segredo dos relacionamentos é dar o amor que gostaríamos de receber."

Joe Vitale



"Seja a mudança que gostaria de ver no mundo."

Mahatma Ghandi





No último sábado passei o dia viajando pelas estradas de Portugal. O comboio tinha horários complicados e passei a maior parte do dia em viagem. Já fiz este percurso dezenas de vezes e sei que a paisagem é estonteante, mas nesta minha última viagem mal notei as curvas do Douro. Minha atenção esteve focada em mim mesma e na tentativa de descobrir o que realmente quero fazer da vida.


Neste último mês estive muito aflita por diversos motivos. É difícil ser uma estrangeira longe de casa lutando por um sonho abstrato que não sabemos se conseguiremos realizar. Tenho perguntado a mim mesma se meu excesso de otimismo não é um reflexo da minha ingenuidade.


Estou em Portugal há quase 4 meses e esta tem sido uma viagem extraordinária. Eu adoro meu país, mas aqui descobri que o mundo é pequeno e que eu seria feliz em qualquer lugar. A felicidade está onde nosso coração está. E meu coração não está em nenhum local que possa ser demarcado geograficamente, meu coração está dentro de mim. Por isso, onde quer que eu vá, sinto-me inteira.


Durante a viagem lancei-me um desafio: tinha que descobrir quais eram as três coisas que eu mais desejo na vida. Tinha que lembrar que caso um dos desejos estivesse em contradição com os outros dois, eu estava fadada ao fracasso. Mas felizmente descobri que as três coisas que mais desejo na vida são compatíveis entre si.


Os desejos são coisas muito pessoais e vou estar me expondo muito (como sempre) se escrevê-los aqui. Mas uma das razões que me motivam a escrever é saber que estou sempre inspirando as pessoas com minha trajetória, por isso seria egoísmo não compartilhar com meu leitor esta experiência tão íntima.


Depois de refletir muito listei meus desejos: 1) Publicar meus livros (foi por este motivo que fiz as malas e rumei para Portugal), 2) Fazer fortuna (parece insano, fútil e bobo, mas os milhões continuam no foco), 3) Encontrar um amor verdadeiro, pois acredito sinceramente que a vida é melhor quando compartilhada a dois.


Refleti muito sobre as minhas escolhas no percurso Régua-Porto no dia 23. Fiz uma análise mental e profunda sobre as reais possibilidades de concretizar meus desejos. Depois de avaliar percebi que minha parte está sendo feita, mas as coisas não estão 100% nas minhas mãos.


Como escritora, meu dever é escrever. E isso eu cumpri. Duas obras já estão sendo analisadas e há mais 4 obras inteiramente prontas aguardando sua vez de vir ao mundo. Aos 33 anos escrevi 6 livros. Isso me dá satisfação e sinto-me feliz comigo mesma pela disciplina e pelo prazer que este ofício me traz.


Quanto à publicação...bem, esta não está nas minhas mãos. JK Rowling recebeu inúmeros NÃOS durante 7 anos até seu Harry Potter conquistar o mundo. Stephanie Meyer levou 20 NÃOS até Crepúsculo ser aceito pelas editoras nacionais e internacionais. Fernando Pessoa tirou dinheiro do próprio bolso para ver suas palavras impressas em brochura. Apenas para citar alguns exemplos.


Quanto à fortuna, estou sempre sonhando com ela. Minha ideia de abundância é meio como a imagem do cofre do Tio Patinhas com montanhas de moedas de ouro atingindo o teto. É uma visão romântica, mas fantástica, não acham?


E o terceiro desejo é, para mim, o mais complicado de conquistar. Afinal, o que é um amor verdadeiro? Eu sou uma otimista nata. Acredito que o universo é mental e que podemos criar e viver a vida que sonhamos para nós. O fato de eu estar na Europa neste momento é prova disso. Mas quando pensamos em relacionamento tudo se complica, pois entra em questão a lista dos 3 ou mais desejos do outro e a sua própria e individual visão de mundo.


Geralmente os princípios entram em choque e os conflitos começam a surgir. E quando surgem conflitos que causam separação e dor, penso que estamos seguindo uma trilha oposta ao amor.


Eu não sei fazer nada pela metade. Não sei sentir nada pela metade, nem viver pela metade. Para mim as emoções e experiências devem ser vividas na integridade, sem limites, sem medos. Mas como vivenciar uma relação a dois em total cumplicidade?


Tenho uma ideia bastante infantil do amor. Quando penso no amor verdadeiro penso na minha gatinha Chanel que ficou no Brasil, ou penso na minha amiga Cláudia. Não consigo lembrar-me de nem um único momento em que estas relações me machucaram. Chanel ama todos os dias de forma muito simples e natural. Quanto mais lhe dou amor, mais ela me devolve em troca. Cláudia é uma companheira de alma. Nunca tivemos uma única discussão, mesmo quando nossos palpites divergem.


Pois é isso que significa o amor para mim. Amar por amar. Amar e respeitar pelo que se é. Quem ama não destroi o outro, não fere e nem machuca. É impossível ofender quem se ama. É errado e anti-natural. Mas então por que é tão difícil trazermos esta felicidade estável para nossas relações íntimas de afeto? Amor não é posse. Amor não é ciúme. Amor não é escravidão. Amor não é complicação.


Eu sou uma apaixonada incurável. Nunca perdi tempo medindo a quantidade de amor que deveria dar. Se eu tiver 1 kilo de amor, entrego 1 kilo. Se tiver 1 tonelada, entrego também. Se eu tiver 2 apartamentos de frente para o mar e um cofre de ouro, levam também. Porque para mim o amor é uma fonte infinita que nunca se esgota.


Mas as pessoas nem sempre entendem isso. E fazem jogos, e perdem o sono e ficam angustiadas com medo de dar e receber doses abundantes de amor. Mas não é o amor a base real da felicidade?


Durante minha viagem percebi que a qualquer momento o trem poderia descarrilhar, eu poderia morrer ali mesmo e meus sonhos jamais seriam realizados.


Nunca pensamos na morte. Na verdade, evitamos falar disso a qualquer custo. Mas ela está sempre muito próxima a nós e pode nos levar a qualquer instante. A viagem é mesmo muito breve. Temos pouco tempo para expressarmos a nossa essência e realizarmos nossos sonhos. Por este motivo convido meu leitor a refletir um pouco sobre a brevidade de todas as coisas.


Faça você também uma lista dos seus maiores desejos e aja agora mesmo. O fracasso não importa. O importante é viver de acordo com seus sonhos. O importante é ser infinitamente feliz neste momento presente. O importante é ser feliz agora. E para ser feliz agora, deve aceitar o amor. E dar amor em troca. Um kilo, uma tonelada, uma dose gigantesca de amor. Porque é através do amor que a alma se expande. É por meio do amor que encontramos a paz.

domingo, 24 de julho de 2011

A ESSÊNCIA DE AMY WINEHOUSE





PARA AQUELES QUE NÃO COMPREENDEM MEU AMOR INCONDICIONAL POR AMY WINEHOUSE , SEGUE ABAIXO O LINK DE UMA ENTREVISTA QUE ELA DEU À FOLHA DE SÃO PAULO EM 2007.


http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/948827-leia-entrevista-de-amy-winehouse-a-folha-em-2007.shtml




EU TERIA DADO AS MESMAS RESPOSTAS QUE ELA DEU. ESPERO QUE MEU FIM NÃO SEJA TÃO TRÁGICO COMO O DELA, POIS SOMOS DUAS ALMAS EXTREMAMENTE PARECIDAS.




NOSSO PROBLEMA É SERMOS AUTÊNTICAS DEMAIS, APAIXONADAS DEMAIS, ENTREGUES DEMAIS, VISIONÁRIAS, INTELIGENTES, DESTEMIDAS, FORTES E VIOLENTAS QUANDO LUTAMOS PELO QUE DESEJAMOS. NÃO NOS IMPORTAMOS COM A LÍNGUA ALHEIA, OS FALSOS MORALISMOS, A COMPOSTURA SOCIAL OU QUALQUER TIPO DE FRAUDE À ÍNTEGRA DE NOSSA PERSONALIDADE.




NOSSO PROBLEMA É SERMOS DEMASIADO FIÉIS AO NOSSO DISCURSO E À NOSSA ESSÊNCIA. NOSSO PROBLEMA É NÃO TERMOS PROBLEMAS COM O QUE PENSAMOS , SENTIMOS E DIZEMOS. NOSSO PROBLEMA É IGNORAR E ABANDONAR POR COMPLETO TUDO AQUILO QUE NOS FAZ INFELIZ. CUSTE O QUE CUSTAR.




Tamara Ramos


sábado, 23 de julho de 2011

DUAS MORTES: A DA AMY E A MINHA



Acabei de ligar o computador e deparei-me com a triste notícia da morte de Amy Winehouse. Os amigos estão esperando para jantar e estou sendo mesmo indelicada em não ligar a mínima para nada. A morte da Amy matou um pedacinho de mim também.


Lembro de uma matéria que a atriz Malu Mader fez em homenagem a Amy. Ela foi ao seu show sem saber se a própria Amy apareceria por lá...mas não se arrependeu, pois o amor que sentimos por este gênio tão jovem permitia-nos perdoá-la sempre.


Amy Winehouse cantava na minha casa todos os dias quando eu estava no Brasil. Cantava para mim e para o Mark quando estávamos juntos em casa em clima de paz. Cantava em todos os bares brasileiros. Cantava para o mundo inteiro e deixava todo mundo extasiado com seu excesso de talento.


A noticia da morte da Amy tirou meu chão. Todos aqui ao meu lado dizem que isso é uma bobagem, pois era mais do que previsto que seu fim seria assim. No fundo sei que sua alma era suicida, e isso só me faz lamentar ainda mais a tristeza que sinto neste momento.


Amy tinha 27 anos. Compos as músicas mais belas dos últimos tempos aos 23. Ouvia Ella Fitzgerald, Nina Simone e outros monstros do jazz. Era culta , inteligente e faminta por fortes emoções. Amy era uma bad girl de primeira linha e grandeza. Ela sabia que era assim e cantou sua verdade mais alto do que a moralidade permitiu.


Cuspiu no palco, cheirou cocaína em público, mostrou os seios ao vivo, foi presa e amou demais. Nunca tentou forjar uma imagem diferente da essência que trazia por dentro. Foi coerente com ela mesma do início ao fim.


Como estou sempre em busca de tudo o que é legítimo, a perda de Amy trouxe-me desesperança. Tem tanta gente ruim que não se droga com rachiche, mas polui o mundo todo com suas infâmias! Putz Amy, você deveria ter ficado viva!


Que porcaria de mundo é esse que deixa os trastes andando livres pela rua e mata os gênios antes dos 30 anos?


Não quero ouvir uma palavra de condenação aos excessos de Amy Winehouse. O único erro dela foi ter amado demais, sentido demais e se entregado com ferocidade às suas paixões.


Esses são os erros que eu cometo também. Por isso, que ninguém atire uma única pedra no caixão de Amy. Que ela descanse em paz.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

PALAVRAS AO VENTO



Por que é tão difícil agir de acordo com o que pregamos? Passamos a vida toda ouvindo conversas tolas. Somos hipocritamente indecentes fazendo julgamentos e levantando a voz e o dedo em nossa oposta direção.


Tenho escutado muitas palavras vãs. Quando falamos exercemos uma atividade ancestral e tentamos convencer o outro de nossa grandeza. Falamos porque gostamos de ouvir nossas próprias palavras. Falamos porque nos faz bem contar nossa própria história. Falamos porque achamos importante expressar nosso ponto de vista único e pessoal.


Mas nossas palavras geralmente fracassam quando somos chamados à ação. Não passamos no teste e descobrimos que não somos tão bons quanto afirmamos.


Sempre tive uma obsessão cretina pelas palavras verdadeiras. Sempre fui assim desde pequena. Passei a maior parte da minha vida procurando (e encontrando) nos livros sagrados palavras de luz. Palavras que iluminem a minha vida e que me tragam esperança.


Encontrei 3 grandes mestres: Salomão, Buda e Cristo.


O discurso destes homens forjou o meu caráter. Religião para mim não tem relação nenhuma com igreja, templo e reuniões comunitárias. Caridade para mim é não fazer aos outros o que não faria a você mesmo.


Salomão e o seu belíssimo Eclesiastes mudou a minha vida. Buda me ensinou sobre a transitoriedade de todas as coisas e sobre a necessidade de se trabalhar o desapego. E Cristo calou meu coração no Sermão da Montanha.


Três homens simples. Três homens fortes. Três homens capazes de redimir a insensatez de nossa medíocre espécie humana.


Por que é tão difícil viver de acordo com as regras destes homens santos? Por que causamos tanto mal ao outro por causa de nossa mesquinharia e estupidez?


Cristo pregou o amor. Salomão nos alertou sobre a vaidade. Buda descobriu a fonte de todo o sofrimento. Juntos nos entregaram por escrito os grandes segredos da vida. Mas somos fúteis e pequeninos demais para compreendermos a profundidade da revelação que herdamos.


Tento seguir à risca o que me ensinaram, mas sou humana e cometo erros. Porém sou humilde o suficiente para reler os textos sagrados e colocar-me de volta no caminho do meio. Este é o caminho do amor sem limites. O amor que compreende e perdoa. O caminho da benevolência e da compaixão.


Gostaria de encontrar Buda sentado em meditação pelas ruas que ando. Desejaria ter nascido a tempo de ouvir o sermão aos pés de Jesus. Queria ter passado um único dia da minha vida ao lado do Rei Salomão. Mas nasci tarde demais. E hoje tudo o que tenho é uma bíblia gasta e um compilado de sutras japoneses.


Convido meu leitor a refletir por um único segundo antes de atirar palavras ao vento. Se não puder sustentar nas atitudes tudo aquilo que garante com palavras, é melhor ficar calado.





quinta-feira, 7 de julho de 2011

QUE DIFERENÇA FAZ?




Que diferença faz a língua que você fala, a roupa que você usa, a cor que você experimenta nos cabelos?

Que diferença faz o time que você torce, a bebida que te põe alta, o tipo de música que embala teu sono?

Que diferença faz o que se entende por beleza, a feiúra de quem se ama, uma dose a mais?

Que diferença faz um traço assimétrico, um dedo meio torto, as palavras banais?

Faz toda a diferença, porque me define quem sou.


Juro que tento me enquadrar: observo as pessoas corretas, imito a postura, tento me igualar.


Mas tem alguma coisa queimando lá dentro que me faz tropeçar. E quando me vejo no espelho entendo que a chama é interna, um fogo maldito que me consome as entranhas e não me deixa parar.


Mudei tudo quando cruzei aquele oceano: mudei de casa, de cabelo, de amigos, de emprego, de vida. Mas agora que fui da esquerda para a direita, do fim ao começo, do Oiapoque ao Chuí...sinto falta de mim mesma na forma mais pura.


Ás vezes precisamos abrir mão de tudo apenas para construir novamente as mesmas coisas que deixamos para trás. E quando fazemos novamente as mesmas escolhas entendemos quem somos de forma mais profunda.


Sim, é claro que estou ouvindo rock enquanto escrevo aqui. Sim, são três da manhã e há um copo de cerveja ao lado do computador. Sim, já marquei a hora no salão para botar de volta o negro dos meus cabelos. Sim, já fiz de novo as minhas malas e estou pronta para outra mudança. Sim, continuo lendo cinco livros ao mesmo tempo mesmo estando do outro lado do mundo. Sim, estou apaixonada e acreditando novamente no amor. Sim, estou fazendo as mesmas escolhas de antes porque é assim que eu sou.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

A LUNETA DO MEU PAI







O céu estrelado do norte de Portugal faz-me lembrar minha infância. Uma das coisas que mais me fascinam na região do Douro é poder ver o céu totalmente estrelado à noite. As estrelas e a Lua do Douro brilham tanto que acendem a escuridão.



Como fui criada na cidade de São Paulo não tenho muitas lembranças do cheiro do mato ou de brincadeiras de contar estrelas. Era tudo sempre tão barulhento em São Paulo, os carros, as pessoas, as músicas, as festas, o mercado, a vizinhança. Também não me lembro muito de experiências próximas a rio nenhum. O Tietê paulistano é uma vergonha nacional e ninguém perde seu tempo olhando muito pra ele. Mas aqui no Douro a vida se desenvolve junto ao rio e a abundância da fauna e da flora local estimulam a capacidade de sonhar do observador.



Tive a sorte de ter um tio que possuía um sítio afastado da cidade, em Santa Isabel. E uma das coisas que me lembro mais desta época da minha infância era deitar na grama junto às minhas primas durante a noite para tentar identificar as constelações. Mas isso era coisa rara. Penso que o mais próximo que já cheguei das estrelas foi numa visita ao planetário de São Paulo quando ainda era menina.

Porém, mesmo com todos os obstáculos reais que nos impedem de ver as estrelas na cidade grande, meu pai burlou o sistema e montou um pequeno observatório na pequenina varanda de nosso apartamento paulistano. Um belo dia ele tirou da caixa uma pequena luneta e mostrou para meu irmão e para mim o tamanho da lua. Era difícil manter a mão firme sem tremer e invariavelmente a lua escapava da nossa visão.



- Estão vendo a lua? - perguntava meu pai.

- Não, não estamos vendo. - dizíamos frustrados.

- Segure a mão firme e mantenha o foco. - orientava meu pai.



E então, como que por milagre, a lua aparecia gigante diante de nossa pequena luneta e ficávamos fascinados ao perceber que ela nem era assim tão redonda, nem tão pouco lisa. Mas era enorme e parecia tão perto das mãos...



Hoje não possuo mais a pequena luneta, mas ainda tenho o desejo de comprar um telescópio para instalar na varanda de alguma casa do Douro onde me sinto mais perto do céu. Herdei do meu pai a paixão de observar o céu estrelado e tenho certeza de que ele ficaria encantado com a paisagem que vejo todos os dias aqui.




(Foto: Ricardo Ramos, Tamara e Tarso)



segunda-feira, 4 de julho de 2011

LITERATURA PORTUGUESA






Esta semana tive a sorte de ser chamada a participar da Feira do Livro do Valongo, na cidade de Ermesinde, aqui em Portugal. Não há nada melhor para uma escritora do que poder passar os dias entre milhares de livros e poder lê-los à vontade.



Dois autores portugueses me encantaram pela beleza , simplicidade e honestidade de suas obras: Bárbara Norton de Matos, uma lisboeta jovem e talentosa; e Miguel Souza Tavares, o maior autor português de nossa época.

Miguel Souza Tavares é um monstro da literatura tendo em seu curriculum livros como Equador e Rio das Flores (ambos publicados no Brasil), mas comecei a conhecer seu trabalho por meio de um livro pequenino e despretensioso chamado "No teu deserto", onde o autor conta um (quase) romance e uma aventura que viveu durante quatro dias no deserto da África. A escrita de Miguel é tão simples e honesta que quase podemos senti-lo chorando ou se emocionando ao nosso lado, como se as páginas de seu livro tivessem vida própria.



Observei sua foto em preto e branco na capa do livro e parei por uns segundos para pensar na profissão de escritores. Miguel está olhando para nós com um sorriso satisfeito de quem já pode morrer sem temer o esquecimento.

Às vezes penso que esta profissão é uma fraude. Como pode uma pessoa fazer fortuna ao contar uma história? Mas quando inicio a leitura destes textos maravilhosos logo sinto a culpa pela mesquinharia de meu pensamento. E acabo sempre por me perguntar: o que seria do mundo sem a literatura e os seus senhores intelectuais? Que outro tipo de prazer poderia nos dar tanto satisfação como a leitura de um bom livro nos dá?



Bárbara Norton de Matos também me surpreendeu pela beleza e juventude de seu texto. Esta mulher linda, escritora e atriz de talento me levou por uma viagem surpreendente por meio de sua narrativa contemporânea e crua sobre os desencontros da vida e a existência do destino. Senti uma série de emoções distintas enquanto lia seu livro e tive vontade de tomar decisões imediatas após o término da história. Os livros tem este poder mágico de mudar nossa forma de pensamento.



"Escrito nas estrelas" conta uma história tão simples e real sobre as decepções em nossos relacionamentos, que desmonta o acaso e nos faz pensar sobre a fatalidade da vida.



A leitura dos autores portugueses me levam por um único caminho: o desejo de cada vez mais ler os autores portugueses!

domingo, 3 de julho de 2011

VIDA FORASTEIRA




De bar em bar pelas ruas portuguesas descobrimos que no fundo toda a humanidade é igual. Minha dose certa limita-se a três finos, mais que isso é suicídio moral.

Falo mais alto, revelo segredos, trago o passado inglório para cima da mesa.

Exponho o lado negro, tenho atitudes mesquinhas e não levo nada a sério.

Três finos portugueses para mim equivalem a duas caipirinhas brasileiras.

E Deus é pai e a cachaça vai....



Passo a vista ao redor, tudo igual.

Os mesmos jovens, as mesmas roupas ocidentais, o mesmo flerte irreverente, a mesma dose a mais.

Por que diabos somos tão iguais?

Estou tão longe de casa, tão distante da minha estrada, tão separada dos meus amigos...

E ainda assim continuo a mesma criatura cheia de erros e acertos com ou sem chopps a mais.



Coloco um casaco e saio do bar da frente apenas para entrar no bar de trás.

As mesmas conversas fúteis, o mesmo riso forçado pelo alto teor de álcool.



Olho todos nos olhos porque não sou daqui.

Tanto faz a mensagem oculta escondida nos meus interesses pessoais.

Posso tudo, posso mais, sou uma alma forasteira longe de casa.



E assim sem juízo e compromisso vou visitando os bares portugueses.

Escritora, poeta, consultora, advogada, nada demais.

Após as seis da tarde sou apenas uma aventureira brasileira longe dos pais.



Fico curiosa com o que vejo, mas não me surpreendo.

Os mesmos bares, a mesma vida, os mesmos anseios.

Mas como estrangeira estou liberada de certas regras de conduta.

Não devo nada a ninguém,

Não digo mais do que quero,

Nem sempre vou além.