quinta-feira, 24 de março de 2011

DOIS EM UM



Ouse, ouse... ouse tudo! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém. Acredite: a vida lhe dará poucos presentes. Se você quer uma vida, aprenda ... a roubá-la! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!



Duvido da minha generosidade. Às vezes sou tão má e mesquinha que pesadelos se vingam à noite. Sinto mais pena de um gato perdido na rua do que um mendigo embriagado na sarjeta, pois foi a mente doente do homem inútil que o colocou ali. Já o gato, este é um pobre coitado sem culpa por ter nascido desprovido de consciência e de alguma ambição.

Com tantas possibilidades escolhemos as mesmas histórias e continuamos a repeti-las a nós mesmos de forma incessante. Não pulamos um único capítulo da maldita ladainha agoniante. Acreditamos que somos vítimas presos dentro de uma gaiola construída por nós mesmos.

A menina bonita que me atendeu hoje no balcão não tem nenhum outro sonho além de casar e ser feliz para sempre com o pobre marido. Ela nunca pensou em cruzar o atlântico sem levar na bagagem seu creme de pentar os cabelos.

Fui tomar um café no meio da tarde e me peguei observando sem muita piedade as mesas ao meu redor. Não escutei nenhuma conversa, mas garanto que o assunto era medíocre. Sobre o que mais podia falar um casal desprovido de graça segurando um bebê de três meses no colo? E aquela mesa da esquerda onde mãe e filha não trocavam meia palavra? Tinha uma mesa mais à direita onde o namorado da moça se encantou com outra moça que passava do lado de fora. E tinha também a minha mesa.

Falaremos da minha mesa. Antes de chegar um ex-casal que virou casal novamente minha amiga e eu discutíamos Nietzche. Sentamos com a intenção de tomar um café, mas a conversa ficou tão profunda que passamos a tarde toda comendo para aliviar o stress do processo filosófico. O que realmente queremos da vida? É possível viver em absoluta liberdade como sugere Nietzche ou realmente estamos enredados por um destino fatídico e hostil? Optamos pela primeira opção pensando que ali encontraríamos algum conforto. Doce ilusão. O que realmente representa a liberdade absoluta? E faremos exatamente o quê com nosso tempo completamente livre?

Era evidente a distância abissal entre a pergunta e a resposta. Já sabemos que todo mundo tem uma sombra. Estamos conscientes que duas metades contrariam a lei da física e compartilham o mesmo espaço comum. Mas como juntar estas duas partes? Por que é tão difícil viver como dois em um?

Um lado da gente ainda tende ao comprometimento com a ilusão do sagrado, mas há um lado rebelde que resiste ao acorrentamento. É uma luta indigesta, meu amigo leitor. Num momento achamos que queremos comprar uma casa bem grande para enchê-la de objetos fúteis. Em outro momento há o desejo irresistível de partir com apenas uma mala para descobrir o que se esconde além de nosso pequeno horizonte.

E há o problema do amor que não apenas ao filósofo corrompe. É melhor amar em prisão ou amar em liberdade? Se eu realmente te amo, porque te quero prender? Não seria a prisão feita apenas ao inimigo público? Então eu só te amo se fizeres tudo exclusivamente para mim? Retorno assim ao primeiro parágrafo onde surpreendo a mim mesmo como um ser mesquinho. E mais pesadelos virão.

E olhamos novamente ao redor. Será que alguém nestas mesas já leu algo de Nietzche? Sou vaidosa por me achar melhor do que os habitantes das outras mesas porque leio Nietzche? Será que isso não faz de mim uma pessoa pior?

- Garçon, uma torta de morango e duas coca-colas grandes, por favor.

Quem é mais feliz? O doce ignorante que não lê nada além de seus e-mails ou nós, pensadores, que perdemos o sono com o medo da opressão universal? E o que é melhor para uma mulher então? Encontrar um marido e trancar as portas do "lar" ou viver como Elizabeth, a rainha virgem, no controle absoluto de sua vida grandiosa?

Mais uma coca-cola e opto por conquistar o mundo.

O mundo e eu, frente a frente, um novo conflito. Se você não é megalomaníaco como Hitler vai ficar meio confuso sobre o que fazer diante do mundo. Ser amado por todos é vaidade e vento que passa como diz Salomão, o sábio. Ser ignorado e morrer no anonimato é tolice e incompetência das mais absolutas. Como pode você vir ao mundo e não fazer a menor falta quando tiver que partir? Por que veio então? Ficasse no limbo aguardando parado o discurso de Deus.

E lá se enfrentam de olhos vermelhos os dois habitantes que moram em mim. Um quer conquistar o mundo e o outro acha que tudo é bobagem e prefere dormir. Não suporto a ambos quando começam a discutir. Como posso saber quem sou se o que sou é uma mistura confusa e disforme do que todo mundo é?

Não sei absolutamente quem sou. Nem acho que sou dois, mas dez, mil, milhões de almas insanas compartilhando experiências nem sempre agradáveis. Queria entrar em contato com minha verdade pura e genuína. Mas é impossível, pois fui moldada pelos meus pais, minha cidade, meus amigos e pelos inúmeros autores que li. E nesta dança da contradição a ansiedade me devora.

Depois de tanto doce, deu fome de algo salgado.

- Garçom, uma esfiha de frango, por favor.

Chegou o ex-casal/atual casal. Ele estava sem fome. Ela estava sem dormir. Uma insônia que parecia infinita. Ela diz que não tem o hábito de ler. Não, nunca leu Nietzche. E porque diabos ela não consegue dormir? Não era eu quem deveria passar a vida inteira tendo noites em claro?


sábado, 19 de março de 2011

A ESSÊNCIA DO ESTILO




Estou me deliciando com a leitura da obra "A essência do estilo" de Joan DeJean. Após um longo e profundo mergulho no mundo dos arquétipos junguianos e nas mais várias obras complexas de psicanálise , dei a mim mesma umas férias e estou fascinada pelo mundo do luxo parisience.

É uma grande bobagem encarar o universo da sofisticação como desnecessário e supérfluo. Quem não gosta de provar um prato altamente bem preparado com os melhores ingredientes que se pode conseguir? Quem não curte sentar num belo café chique numa tarde desocupada com os amigos? Atire a primeira pedra (ou alfinete) aquele que não adora contemplar a própria imagem no espelho quando está usando uma belíssima roupa recém-comprada! Qual a mulher que não fica encantada no lado de dentro de uma perfumaria internacional?

As pessoas tem mania de subestimar os momentos de puro luxo como se fosse algo obsceno. Mas na verdade, todos gostam de passear no shopping ou sonhar com uma mega viagem em condições de conforto. Ou não?

A obra de Joan De Jean é extremamente bem escrita e pesquisada. Todas as referências do livro são baseadas em arquivos históricos. Por meio desta leitura podemos quase sentir o aroma que circundava na Paris do século XVII, quando o Rei Sol estava em posse da monarquia. O Rei Luís XIV, mais conhecido como rei sol, foi o responsável por uma transformação absoluta da cultura francesa, colocando a cidade no topo do mundo no que se refere à sofisticação, beleza e glamour.

Tudo o que há de mais caro e fabuloso no mundo em que conhecemos foi inventado pelo rei Sol: os cafés chiques, os perfumes, a alta-costura, a gastronomia, o uso de jóias imponentes, o champanhe, os espelhos, a iluminação noturna e o guarda-chuva são apenas alguns dos exemplos que o leitor irá encontrar na obra.

O primeiro livro de receitas foi publicado na França e a primeira panela de pressão também. Até as vitrines que hoje são uma banalidade em qualquer shopping center do mundo, foram inventadas por eles!

Sugiro ao leitor que se dispa de todo preconceito sobre o mundo do luxo e deixe-se cativar pela obra fascinante de DeJean! Permita-se passear pela Paris glamourosa do século XVII como se fizesse parte da elite francesa. É diversão garantida!