terça-feira, 27 de abril de 2010

PERDENDO AMIGOS




Hoje recebi uma notícia triste pela manhã. Um amigo dos tempos daquela juventude divertida e despreocupada, partiu. Um acidente de moto estúpido, fatal. James era um cara legal. Quando ele estava por perto a sala inteira sorria. Passei o dia inteiro ouvindo as músicas que ele gostava tocando de forma incessante na minha memória.


Há muitos anos não nos víamos. Desde que deixei Santos, acabei deixando para trás muitos amigos. A vida é mesmo assim. Separa as pessoas, transforma as circunstâncias, conta várias histórias. Mas é incrível como tudo ficou tão vivo nas minhas lembranças a partir do momento em que recebi a notícia do seu falecimento.


Todo mundo sabe que todo mundo morre. No ano passado perdi dois amigos queridos. A inigualável Mônica e o inspirador Serpa. A morte da Mônica quase me matou de remorso. Por que passei tantos anos sem visitá-la? Por que nunca telefonei para saber como estava? Por que me resignei aos e-mails frios? A morte acaba com nossos sonhos. Frustra todas as chances de fazermos melhor.


Estamos sempre contando com o dia de amanhã. Amanhã telefono, amanhã eu explico, amanhã digo que amo. Mas nem sempre a vida nos presenteia com um próximo amanhã.


James, até hoje me lembro daquela tarde que você cantou Roupa Nova bem alto e assumiu que era brega fazendo todo mundo rir com você. Lembro da sua paixão sem explicação pelo filme Ruas de Fogo e da sua respectiva trilha sonora. Lembro da sua paixão pelo samba e pelo pagode. Lembro do seu sorriso gentil e sua fome pelo salgado incomparável do carioca.

Ainda sinto o cheiro do café que tomamos juntos. E dos momentos em que nos consolamos quando recebemos nãos dos nossos provisórios amores.


Ainda me lembro de você. James. E vou me lembrar para sempre dos dias de vida e deste dia tão triste em que te digo adeus.
Tamara Ramos

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Sinal



O que diferencia você dos outros vai além das marcas de nascença em lugares não óbvios. Um olhar direto, a língua solta e uma vontade clara de engolir o mundo. O que faz de você alguém melhor do que os outros é a falta de vergonha, a dualidade do caráter, o paradoxo entre o homem mau e o bom rapaz. O que diferencia você dos outros é a distância de casa, o endereço além mar, a extravagante rota. O sinal verde acendeu no primeiro momento, dois dias, três dias, uma hora a mais. E eu que nada queria acabei fazendo mais do que devia. Acordei com as costas molhadas e um sorriso no canto da boca que me entregava. Somos assim, eu e você, um dia ruim, uma noite vazada, água gelada, azar.
Tamara Ramos

terça-feira, 20 de abril de 2010

E EU QUE ERA TUDO OU NADA 2




E eu que era tudo ou nada nas ruas da cidade grande,
hoje me aposento sob o sol quente desta vila mínima,
pela manhã, sem sono, sem chão.
Caminho pela areia quente aos pés de mais um oceano,
um mar imenso que jamais foi meu.

E eu que contava estrelas sobre a torre alta do meu edifício,
que gastava dinheiro nos bares de Santos,
vestindo o preto da minha turma urbana,
sem pais à vista, sem limite, sem direção.
Vivo hoje tranquila neste fim de mundo,
resguardando algum sonho e alguma ambição.

E eu que era tudo ou nada nos almoços de família,
que nem sempre estive à vontade em meio a parentes íntimos,
trato agora de falar mais alto,
sobre aquilo que acredito,
sobre a pessoa que sou.

Lamento se já não me acompanha,
não atraso meu raciocínio por motivo de culpa,
não calo meu discurso por motivação moral,
já não mais me engano.

E eu que era tudo ou nada nos córregos destas águas limpas,
naufrago pés e cabeça em novos caminhos.
Não me acompanhe se estiver com medo,
não me detenha pela força de um hábito antigo,
não me chame pelo meu sobrenome,
não me acorde antes do alvorecer.

O SOL NÃO DÁ A MÍNIMA PARA NOSSOS DESAJUSTES



Dizem que quando um não quer, dois não brigam. Os fatos tem me mostrado justamente o contrário. Parece que quando um não quer, o outro quer, e vice versa. Quanto tempo perdido por nada. Quanto rancor e solidão. Quanto temor e quanta bobagem. A vida segue daquele jeito que todo mundo já sabe. Vai atropelando os desavisados, os preguiçosos, os confusos e todo aquele bando de despreparados à espera de um milagre bobo. O sol não dá a mínima para nossos desajustes. Continua nascendo com todo esplendor para revigorar os dias. Parece até que já não se recorda da tempestade de ontem à tarde. Nasce, seca, esquenta e varre do solo as lágrimas tristes. A vida é um palco repleto de atores coadjuvantes. Levantei esta manhã mais cedo do que o normal. O sol ainda dormia. Nem percebeu que eu estava acordada. Porque o sol não dá a mínima pros nossos lamentos fúteis. Segue queimando, sorrindo, amando, lambendo a vida nos seus dias bons e desprezando a rotina dos tolos e os tempos ruins.
Tamara Ramos

domingo, 18 de abril de 2010

VICIOUS CIRCLE



Outra noite, outro alguém. Alguém mais. Abrindo passagem ao instinto selvagem. Boa noite, até mais. Sem passado, sem história, quem se importa? Outra vez. Meu nome está impresso no muro desta vila. Boa noite, boa sorte, te vejo amanhã, talvez. E se o sol nascer, e se o mar tiver revolto, e se a festa acabar mais tarde. Quem se importa? Não me pergunte sobre os meus sonhos. Eu tenho sonhos impossíveis. Não me pergunte onde estou. Não me pergunte onde vou. Não me siga esta noite. Você pode se assustar. Não vou esconder do que sou capaz. Não vou esconder nada mais. Outra noite, outro alguém. Alguém mais. E neste círculo vicioso me entrego, me perco, me acho. Boa noite, até mais.
Tamara Ramos

quinta-feira, 1 de abril de 2010

ESTOU FAMINTA



Estou atrás de novos assuntos, novos caminhos, novas pessoas. Deve haver alguém por aí perdido mais parecido comigo, sem medo da vida, sem medo do vício. Alguém que me conte histórias de outras fontes, novos amores, picantes sabores. Alguém por aí perdido buscando respostas para muitas perguntas, querendo companhia noturna, querendo mais do que tem. Estou faminta por mais alegria, como a criança no circo repleto de cores. Estou faminta de amor e de fama, de cama macia e de paixão que inflama. Deve haver alguém por aí perdido, mais parecido comigo, pronto pra mudar meu destino e matar minha fome.
Tamara Ramos