quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O ESCRITOR FIEL


Eu nunca havia ouvido falar do Códex Gigas. E olha que eu sou uma telespectadora fiel ao Discovery Channel e à National Geopraphic. Todo documentário histórico me interessa muito. Gosto de filmes antigos, obras do passado e relatos medievais que tragam à luz a vida da humanidade em tempos remotos.

Mas confesso que me assombrei ao ouvir a história do Códex. No início do séc. XIII havia um monastério em Praga onde os monges vestiam preto e enterravam vivos os infiéis. Nada novo considerando o sem fim de absurdos cometidos pela mais atroz das instituições religiosas. Porém, encerrado numa cela escura, um homem dedicou-se por mais de trinta anos a escrever um único livro: O Códex Gigas ou a Bíblia do Diabo.

Os estudiosos dizem que este homem havia traído a confiança dos clérigos e foi condenado a ser cimentado vivo na parede do Monastério. Já ouvi relatos de fogueiras que queimam corpos, campos de concentração, e todo tipo de tortura insana. Mas cimentado vivo em uma parede? Isso foi novidade pra mim.

A História conta que este monge condenado fez um trato com seus carrascos, ele garantiu que escreveria toda a história do Monastério em um único livro e em uma única noite. Pelos estudos atuais sabemos que ele levou mais de trinta anos para concluir o feito, mesmo assim sua obra é incrível. Os peritos concluíram que o livro inteiro foi escrito por uma única mão. Coerente do início ao fim.

Acredita-se que o autor fez um pacto com o diabo para que sua vida fosse preservada. Na verdade o livro não adula o demônio, nada mais é do que a compilação de relatos bíblicos. O grande diferencial é que ele desenhou o rosto do demônio numa página inteira da bíblia ao lado oposto ao paraíso de modo que ambos se completam e se distinguem simultaneamente.

Esta história do monge mexeu comigo. Como pode um homem dedicar uma vida inteira a escrever um único livro? Como escritora tenho dificuldade em manter a disciplina diária. E a cada novo dia novas impressões me chegam o que acaba por inspirar uma diversidade enorme de temas.

Será que o monge manteve a disciplina por medo ou porque realmente havia dentro dele uma determinação quente, capaz de ampará-lo continuamente? Este homem, pelo que conta a história, não via a luz do dia.
Ele habitava um porão úmido, sem conforto algum. Mas isso não aniquilou seu talento de escriba.
Desconheço os motivos reais que alavancou um trabalho hercúleo como o Códex, mas curvo-me em reverência ao talento de um escritor que desenvolveu meu ofício com perfeição há oito séculos antes de mim.