terça-feira, 30 de junho de 2009

ÁGUA FRIA


Afoguei meu passado num mar de água fria. Tudo congelado de repente. Como se não fosse nada. Como se não tivesse acontecido. Meus erros enrijeceram na velocidade da luz. Cristalizados para sempre no fundo do oceano. As lamentações, as dúvidas e os arrependimentos afogaram-se sob ondas profundas. Mergulhei corpo e cabeça e congelei memórias inúteis. O corpo tremia de contentamento. Nada mais de antigo havia ali. Renasci do ventre de outra mãe. E então olhei ao redor e tudo parecia tão calmo. Eu nua, como no primeiro batismo e o oceano ali sozinho, olhando pra mim. Descobri que talvez eu viesse do mar. Azul sempre. Azul como as minhas antigas lembranças. Azul como a piscina onde brincava meu corpo infantil. Azul como a maioria dos meus poemas. A água estava fria. O mar. O vento sul. Meu passado. Meus erros. Tudo encharcado agora. Havia uma sereia em meus pensamentos. Tive a impressão de tê-la visto sorrir.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

SE EU NÃO PUDER DORMIR ESTA NOITE



SE EU NÃO PUDER DORMIR ESTA NOITE

By Tamara Ramos

Se eu não puder dormir esta noite,
se o barulho da cidade atormentar minhas lembranças,
se a fome de aventuras impedir o descanso do meu corpo,
se a fortuna, a fama e a casa vazia forem a leilão,
se minha vida der uma volta de 360 graus às cegas,
se tudo que plantei germinar em solos distantes,
se tudo que amei couber numa caixa de aço,
se minhas mãos paralisarem,
se minhas pernas dançarem,
se a felicidade bater novamente à minha porta,
estarei pronta a qualquer hora.

Se você voltar mais cedo,
se o tempo perdido revelar-se útil,
se eu chegar a tempo de impedir o temporal,
se a vida parecer promissora de repente,
se tudo ficar mais fácil,
eu direi sim.

Direi sim às 4 horas da madrugada de domingo,
direi sim às infinitas noite de espera,
direi sim aos fracassos,
às vitórias,
aos medos ,
às desilusões.

E de repente tudo parece tão velho,
tão distante de mim.
letra morta,
lei posta,
tempo fora de moda,
fim.

E tudo pulsa novo aqui por dentro,
o sangue ferve,
as horas voam,
o amor se apresenta,
e tudo que fiz até aqui,
já não importa mais.

terça-feira, 16 de junho de 2009

O DESERTO



O DESERTO
By Tamara Ramos


Esta noite sonhei que caminhava sozinha pelo deserto. Desde muito nova sinto uma imensa atração por esta região árida, entregue à própria sorte. Sob o sol inclemente que clareia a mente, pisando a areia fina que acolhe os pés, ouvindo a música dos beduínos. Para alguns parece o fim do mundo. Para mim, o deserto renova a alma e me faz pensar em novos caminhos.

Talvez por ser poeta eu tenha uma visão romântica demais das coisas. O fato é que nada me realiza tanto quanto poder ver estrelas sob um céu sem nuvens, me sentir parte de algo maior do que eu. O deserto me faz pequena e grande. Despir-se de todos os bens, dos apegos, das paixões.

Uma vez no deserto tudo que conta é a manutenção da própria vida. Quando não há mais ninguém para conversar, vem a vontade de orar. Quando não há nada mais a fazer, vem a renúncia e a espera. Quando somos muitos, esquecemos que somos um.

Uma vastidão solene diante de mim. Nos meus sonhos. Quem sou eu afinal? Por que tanto medo? O que poderia dar errado comigo? Nasci sob o signo da serpente. Herdei dela a capacidade de trocar de pele, a coragem de correr riscos.

Acordei às quatro horas da manhã. Senti meu corpo queimando como se houvesse passado a noite sob o sol. Pensei na minha vida. Não carrego arrependimentos. Nunca parei para pensar no conceito do pecado. Nunca lamentei meus fracassos. Nunca dei festas para comemorar vitórias.
Talvez habite em mim um beduíno do deserto. E ele segue em frente sem pensar no tempo. E me carrega pra longes que jamais sonhei pertencer.

terça-feira, 9 de junho de 2009

A FELICIDADE VEIO ME VISITAR ESTA NOITE

To Stefan: Thank you for making me smile.




A felicidade veio me visitar esta noite,
Chegou em silêncio,
Suspirou algo em meus ouvidos,
Abriu uma janela à minha frente,
Ofereceu uma saída incomum.

O céu estava mais claro,
A brisa noturna sussurrou um verso de amor,
O início de uma nova história,
Um novo dia.

E eu, pronta para viver mais, aquiesci.
E fiz novamente as malas,
E rumei para outra estação.

E chegando lá tomei o caminho mais curto,
E não havia mais peso às costas,
Não havia mais correntes.
Nem discursos,
Nem sermões.

O espelho refletiu a face de outro alguém,
Uma versão melhor de mim,
Livre outra vez,
Sem passado,
Sem juízo,
Sem amarras,
Sem depois.

A felicidade veio me visitar esta noite,
Chegou em silêncio,
Suspirou algo em meus ouvidos,
Me tirou pra dançar,
E assim em paz permaneci até a noite acabar,
E fui além,
Fui mais feliz.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

PALAVRAS



PALAVRAS
By Tamara Ramos


Às vezes as palavras ficam melhores no papel. Há coisas que não devem ser ditas. As palavras nem sempre voam. Às vezes elas se repetem num argumento inútil. Ás vezes não há mais nada a dizer, mas ainda resiste aquela sensação de que restaram palavras importantes que não foram ditas. Como se meia dúzia de palavras inéditas pudessem explicar melhor o mesmo assunto. Aquele tema gasto, revisado, revirado, discutido mil vezes. Não sei o que as pessoas pensam quando me escutam falar. Também não sei o que elas pensam quando lêem meus textos. Sinto falta de um bom argumento. Sinto falta de um interlocutor perspicaz. Às vezes falo pro vento. Às vezes falo comigo mesma. Escrevo cartas que não envio. Escrevo livros que não publico. Escrevo palavras. Escrevo porque tudo fica mais claro quando consigo organizar meu pensamento. Escrevo porque sou escritora. Já nem me lembro quando fiz disso uma profissão. Não chega a ser um trabalho sério, é só um desabafo. Eu tenho alguns amigos, mas nem sempre eles entendem minhas palavras. Às vezes se impressionam com meus textos e me mandam e-mails emocionados. Mas nunca sei se eles realmente entendem o que eu tenho a dizer. Nem sempre tenho algo a dizer. São só palavras. Mas eu preciso delas como preciso de ar. E sigo escrevendo. E falando. Palavras de amor, palavras de ferro, palavras de desespero, minhas próprias palavras. Queria encontrar palavras mágicas que me trouxessem de volta o sono perdido, o tempo passado, a sua companhia. Mas eu não sou mágica. Não faço a menor idéia de onde eles tiram aqueles coelhos. Tudo que conheço são palavras. E nem sempre elas me bastam.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

É TUDO MUITO CHATO



É TUDO MUITO CHATO

By Tamara Ramos


É tudo muito chato, essa falta de assunto, de jeito, o desaviso, o desajuste interno. É tudo muito chato, essa falação na rua, a falsa intimidade, o tempo frio e o desemprego. E a gente vai seguindo em frente fingindo que não tá sentindo, que não tá vendo. Vai mentindo pra si mesmo, enganando o tempo e o desassossego. E a gente finge ainda que presta atenção às notícias, que se interessa pela guerra da Coréia e pela chatice da novela. E vai falando assim consigo, ruminando impropérios, reclamando do mundo em silêncio, sem comprometimento. E vai tentando levar a vida de leve, meio sóbria, meio aérea, meio acordada, meio dormindo. E tem gente que vem vindo assim grunhindo desde muito tempo. E ainda tem a chatice da miséria, a fala mansa do pastor na tela, distorcendo verdades, mentindo. Sem falar no telefone que não toca, o e-mail que não chega, a carona que desacelera. É tudo muito chato quando ainda por cima é domingo, a cara meio de sono, a preguiça e o mau tempo. É tudo muito chato quando eu estou aqui sozinha e você aí tão longe, sabe Deus fazendo o quê.