sábado, 23 de maio de 2009

POESIA PERSA: RUMI - O POETA DO AMOR



POESIA PERSA: RUMI - O POETA DO AMOR

“Silêncio.Não explique o fundo de seus mares.” Rumi

Descobri a poesia de Rumi tardiamente. Já havia lido alguns de seus poemas na juventude e não sei por que razão levei tantos anos para reencontrá-los. Estou vivendo um caso de amor profundo com Rumi. Ele tem dormido ao lado de minha cama, sussurrado versos aos meus ouvidos e inspirado obscenamente minha produção poética atual e minha vida pessoal.

Djalal ad-Din Rûmi nasceu em setembro de 1207, onde hoje está o Afeganistão. Rumi é considerado o maior poeta persa de todos os tempos. Sua vasta obra, composta por 70.000 versos, é comparada pelos estudiosos à grandiosidade de Shakespeare, Dante e Beethoven.


Rumi fala de amor, mas não desse amor pequeno e fugaz que testemunhamos nas relações de hoje. A obra de Rumi fala de um amor maior. Um amor maior que a Terra, mais profundo que o oceano, mais quente que o sangue que corre em todas as veias. Rumi fala de um amor espiritual, um amor que transcende o tempo, a vida e a morte.


Aos 30 anos de idade Rumi conheceu seu guia espiritual e seu amante Shams de Tabriz. Shams era um homem de 60 anos à época, um marginal sem casa, sem futuro, sem medo e sem rumo. Seu apelido era “pássaro”, pois era incapaz de permanecer por muito tempo em um único lugar. Shams pregava pelas ruas sua verdade espiritual.


Shams e Rumi passaram meses isolados em comunhão espiritual. Eram almas gêmeas e buscavam uma meta única: a integração total com Deus. Rumi era um ser espiritual, mas não religioso. O amor que ele pregava era maior, incapaz de conter preconceitos, dogmas inflexíveis, punições. A poesia de Rumi é carregada de beleza terrena e divina, onde se é permitido amar, beber, viver e entregar-se ao amado (Deus).


Quando Shams morre, provavelmente assassinado por algum discípulo enciumado de Rumi, sua poesia sobe vários degraus e alcança o cume de uma montanha altíssima: a montanha do amor universal e da união mística.


Para Rumi a vida só tem sentido para quem sabe amar. Só quem ama conhece a imensa alegria e a profunda dor. Quem ama é do amor prisioneiro e senhor. Somente aquele que ama pode expor-se ao meio-dia sem queimar-se.


Rumi viveu um amor maior. Abençoado seja Rumi, que ele inspire nossas vidas e liberte nossos corações.

ANDO EM MIM PERDIDO


ANDO EM MIM PERDIDO
(Homenagem a Rumi)
“Quando se aquietam os lábios,
mil línguas ferem o coração”.
Rumi
Ando em mim perdido,
Por ruas estreitas que me apertam o peito,
Vielas duras de asfalto frio,
Como por dentro.

Foste a vida feita para se viver sem medo?
Foste a morte o augúrio de um mau pressentimento?
Onde está aquele tempo que amei?
Onde está o tempo?

Amei Shams de Tabriz nos versos de Rumi,
Amei Rumi,
E ao meu lado o que tenho?
Trovão e vento.

Meu coração partiu mais de dez vezes,
Mas não me lamento,
Pois meu modo de amar ainda me assombra,
mas sigo fervendo.

Percorri o túnel do meu próprio tempo,
Enterrei pessoas queridas,
Trouxe à vida uma obra vasta,
Talvez inútil, mas vasta.

Ando em mim perdido,
Por ruas estreitas que me apertam o peito,
Vielas duras de asfalto frio,
Como por dentro.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

VOCÊ VAI ME ENCONTRAR


VOCÊ VAI ME ENCONTRAR
By Tamara Ramos
"I am your harp,
play me easy,
play me hard,
or don't touch my strings at all."
Rumi
Você vai me encontrar em todos os quartos de uma casa que não é minha. Vai me encontrar pelas ruas desertas do seu país. Vai me encontrar ao lado direito de outra cama. Nos livros escritos em outro idioma. Nas areias de outras praias. Vai me encontrar na garagem vazia. Nos arredores da cidade em festa, nas livrarias e no Tribunal. Você vai me encontrar na estrofe de sua música preferida. No seu automóvel com cheiro de novo. Você vai me encontrar sem querer, por acidente, nos seus sonhos. Vai me encontrar na fila do banco. No bar da esquina. No terraço plano e no precipício. Você vai me encontrar em lugares altos. Vai subir montanhas e desbravar fronteiras infinitas. Você vai me encontrar mais perto. Você vai procurar. Você vai me encontrar.

terça-feira, 12 de maio de 2009

A BELA ARTE DE LEONID AFREMOV



A BELA ARTE DE LEONID AFREMOV
Fui apresentada ao trabalho de Afremov pelo meu irmão. Na minha família todos temos algum talento artístico. Meu pai é pintor, meu irmão é maestro e eu sou poeta. Mas independente de nosso trabalho individual, somos completamente apaixonados pelas mais diversas formas de arte.

Fiquei extasiada quando tive o primeiro contato com o trabalho deste pintor bielo-russo e senti uma necessidade enorme de compartilhar a beleza de suas telas com o meu leitor. Leonid Afremov nasceu em 1955 na cidade de Vitebsk, mesma cidade onde nasceu Mark Chagal. Afremov graduou-se na Vitebsk Art School em 1978. Esta escola de arte foi fundada por Chagal e teve como membro o igualmente genial, Kandinky.

O diferencial do trabalho de Afremov é que ele não utiliza pincel, mas espátula.
Além da beleza estética evidente na pintura de Afremov, o que mais me atraiu neste artista foi o seu discurso sobre a arte. Afremov diz que cada quadro seu é pleno de seu mundo interior. Ele revela que ama expressar a beleza, a harmonia e a alma do mundo em seu trabalho. Seu coração é completamente aberto a arte e suas cores revelam seus mais íntimos sentimentos, paixões e a música proveniente de sua alma.

Para Leonid Afremov a verdadeira arte é viva e inspirada na humanidade. Ele crê que a arte ajuda a nos mantermos livres das agressões e do sentimento de depressão.

O contato com o trabalho de Afremov me abriu novos horizontes. Minha arte, assim como a dele, também está marcada pelas impressões que tenho sobre a vida. É tudo muito pessoal. E sim, também creio que a verdadeira arte seja viva. Talvez por isso Afremov e eu compartilhamos a mesma paixão pelo excesso de cores. Vemos a vida de uma forma muito colorida e intensa. E por isso não hesitamos em expressar de forma explosiva tudo aquilo que carregamos em nossa alma de artista.

Para saber mais: http://www.afremov.com/

Dica de filme: “O mestre da vida” (Local Color)

sábado, 9 de maio de 2009

POESIA




DESISTO DE VER

By Tamara Ramos


Desisto de ver a vida que passa em preto em branco,
Que passa por mim se som, sem acordes, em silêncio.

Fecho os olhos para a multidão enfurecida,
Para a perda de casas em enchentes,
Para os acordos paralelos dos homens de preto,
Para a tortura de certas celas.

Fecho os olhos para os escritos ríspidos,
Para a falta de amor ao próximo,
Para a falta de zelo,
Os desencontros e os dias lentos.

Não quero ver mais heróis atravessando o meu caminho,
Não quero ver vítimas de tumultos absurdos,
Não quero ver a desordem nem o descontentamento.

Abrirei meus olhos apenas quando o amor vencer o medo,
E resgatar suas histórias,
E celebrar.

Abrirei meus olhos apenas quando a festa acabar,
E todos já tiverem partido,
E restarem apenas crianças cantando,
E restar o mar,
E a alegria do vento.
.
E assim de olhos fechados permanecerei,
Até que o último trovão se cale,
Em respeito ao sol,
E à beleza vibrante de um novo alvorecer.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

SOB O SIGNO DA SERPENTE



SOB O SIGNO DA SERPENTE
By Tamara Ramos


Nasci sob o signo da serpente de fogo que habita o deserto. Sempre atenta às coisas da terra. Sou o enigma do ciclo chinês. Posso rastejar sozinha sem sua ajuda. E sempre fixa, com o olhar imutável, tenho a certeza da hora exata da vitória. Pode demorar, podem desacreditar, pode ser lento, mas a serpente sempre alcança sua meta.

Esta semana li que uma arqueóloga dominicana descobriu o túmulo de Cleópatra. As escavações devem começar ainda este mês. Li três vezes a matéria. Quando dei por mim estava vagando pelo antigo Egito, nos tempos grandiosos dos faraós. Pensei em Cleópatra com sua serpente que lhe tirou a vida e lhe devolveu a dignidade. O conceito da serpente varia de cultura para cultura. A Bíblia a definiu como a escória, a filha do diabo, a maldita pecadora que pôs fim ao paraíso. Os egípcios a cultuaram como o símbolo de sabedoria. Os chineses creem ser a serpente a representante das coisas ocultas, conhecedora dos mistérios da vida.

O que é comum a todas as culturas é o sentimento de reverência e medo que ela evoca. Vagarosa, astuta, pouco afeita à melancolia, a serpente prossegue sempre em seu ritmo natural conhecendo a brevidade de todas as coisas. Cleópatra sabia que só poderia contar com ela. Afinal, quem mais poderia aniquilar uma rainha e, ao mesmo tempo, salvá-la da derrota e da humilhação?

A serpente quando morde sua cauda nos oferece o símbolo do infinito. O círculo sagrado representando o ciclo que nos leva do começo ao fim, e do fim ao começo num eterno movimento.
Tenho grande admiração pela figura da serpente e sinto uma profunda identificação. Tento aprender com ela o valor do silêncio. Uma serpente nativa jamais perde tempo explicando o que só se entende sentindo.

Frente a frente com a serpente a vítima tem duas opções: ou desiste da vida ou aprimora sua fé.
Dizem que os nativos da serpente são atraídos por fama, dinheiro e poder durante toda sua trajetória. Há um fundo de verdade nesta afirmação, mas não penso que ela busque isso como meta principal. Acredito que tudo lhe chega de forma natural, em consequência de suas habilidades em dedicar sua atenção apenas ao que há de melhor. Uma serpente não perde tempo com coisas fúteis. Ela não briga de igual para igual e nunca devolve nada na mesma moeda. O que pode ser um problema.

Uma serpente vai pensar muito antes de agir. (Ela deveria ser a protetora dos escritores...). Geralmente sua vingança é o afastamento e a indiferença. Quando uma serpente é ferida ela retorna ao deserto. E dificilmente será capturada outra vez.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

AZUL



AZUL

By Tamara Ramos

E eu de novo falando do azul. Talvez porque ele esteja em tudo. Picasso teve a sua fase azul. Neruda falou tanto do oceano que fez versos azuis. O astronauta garante que a Terra é azul. E tem o mar, ah o mar... Capaz de lavar a alma do mundo. E afogar pessoas, e desvendar mistérios. Nossa arara em extinção é azul. Minha pedra preciosa preferida, turquesa, é azul. Meu jeans é azul. Os olhos de Ryan são azuis e a casa de Frida também. Sei mais do azul das minhas histórias do que sabe o pescador do azul noturno do seu mar infinito. E ainda tem o infinito. Ele próprio azul. E o destino dos homens sérios. E o sermão do padre cristão. A desordem. No fim da jornada, o caos. O começo de todas as coisas. A reforma da casa. Os novos amores. As crianças que estão por nascer. Vou pintar minha casa de azul e deixar que o sol reflita seus raios nela. E então a imensidão vai transparecer por todos os poros. E ela é azul.

domingo, 3 de maio de 2009

MARCAS PERMANENTES



Neste feriado de 1º de maio perdi um amigo muito querido. Um verdadeiro mestre. Manoel Serpa era um pintor mineiro, inovador, e cheio de projetos que serão enterrados com ele. Não fui ao velório, nem ao enterro. Não suportaria ver o corpo de um artista separado de sua alma criativa. Seria um golpe cruel demais para mim. Serpa me deu a honra de conhecer sua casa e sua obra. Um verdadeiro bom vivant. Serpa não sabia nada sobre preconceitos nem limites. Serpa desconhecia o impossível. Serpa me ensinou que eu também posso viver da arte. Todos podem. Basta amá-la e entregar-se a ela. Não lamento pela vida de Serpa, pois ele a viveu intensamente e produziu beleza neste mundo cinza que hoje vivemos. Lamento, sim, por sua morte. Os artistas deveriam ser eternos como suas obras.

Tenho uma estranha mania de colecionar lembranças. Às vezes são as pessoas, outras as palavras. Não sei bem como acontece, mas sinto que minha mente é como uma tela em branco que vai sendo impressa com o passar dos anos. Deve ocorrer com todo mundo, mas talvez o artista seja mais sensível ao entra e sai que ocorre em sua vida. Talvez porque certas impressões se transformam no combustível que move sua obra.

Hoje quando me olho no espelho identifico inúmeras influências que se acumularam e que fizeram de mim o que sou. Na verdade, quando me olho no espelho vejo países, pessoas, paisagens, cores, acordes. Cada milímetro do que sou devo a algo ou a alguém.

Principalmente nas minhas atividades profissionais, seja como escritora ou como fotógrafa, sempre reverenciei aos meus heróis. Sempre dei preferência aos artistas, pela sua criatividade, inventividade e extravagância. Lamento não ter nascido antes do falecimento de Picasso. Lamento não ter podido comprar o primeiro e único quadro que Van Gogh jamais vendeu. Mas tive a sorte de poder conviver com gênios contemporâneos a mim.

Andreja Spiridonovic era um gênio, e eu tive o privilégio de conhecê-lo. Andreja era um pintor sérvio que veio ao Brasil fugido da guerra. Um gênio casado com uma das mulheres mais bonitas que já vi. Eu era uma criança quando a vida deste casal único se cruzou com a vida de minha família, mas eu jamais os esqueci. Ainda me lembro do cheiro de tinta, tabaco e vinho que exalava do ateliê de Andreja. Ainda me lembro das telas enormes daquele mestre impressionista dispostas pela casa.

E Manoel Serpa. Este pintor cheio de paixão pela sua arte era um homem completo. Um homem aberto aos amigos, à vida e às idéias que lhe faziam pintar mais, mais e mais a cada dia. Havia esculturas em sua casa, e apito de passarinho, e um desenho de Dalí emoldurado na parede.

A vida sem beleza e sem arte não faz sentido algum. Não tenho filhos, mas o que mais poderemos ensinar às crianças além do amor pela arte e pela beleza de todas as coisas vivas? Eu fui uma criança de sorte. Meu pai, ele próprio um artista, sempre me estimulou a flertar com a arte. Todo tipo de arte. Íamos ao cinema com freqüência, líamos muito (na minha casa havia uma biblioteca com dois mil livros – lidos), e foi por influência dele que comecei a fotografar.

Na escola de fotografia tive a oportunidade de conhecer pessoas brilhantes, que dedicavam todo seu tempo a perceber o que ninguém via, depois fotografavam, e surpreendiam muita gente. Porque a beleza está aí, ela escapa da guerra, foge do senso comum, trapaceia a estupidez de alguns homens, ignora o preconceito e a cegueira da massa.

Toda vez que me sento para escrever, reverencio aos escritores que estiveram ali antes de mim. Atormentados por uma idéia, felizes ou infelizes por algum motivo secreto. Meus antecessores não tinham a praticidade que tenho hoje por utilizar um computador moderno, mas o princípio ainda é o mesmo. Tela em branco, tinta e urgência em contar uma história.

A arte me ajuda a curar minhas próprias feridas, me ajuda a homenagear pessoas que amo e a transmitir a quem possa interessar, o que de fato se passa pela cabeça de um artista em pleno desenvolvimento.

Sim, a arte é minha terapia de cura. Ela é minha terapeuta, meu remédio tarja preta, meu repouso, minha internação e minha alta. Porque o artista sofre de um mal crônico, sem chance de recuperação. Porque ele tem que criar, e vai seguir criando até a última cor, até o final.

Para Manoel Serpa, que sua alma descanse em paz.