quinta-feira, 30 de abril de 2009

AMIZADES QUE FAZEM A VIDA VALER A PENA





AMIZADES QUE FAZEM A VIDA VALER A PENA

By Tamara Ramos

Quando me mudei para Guarapari/ES deixei muitos amigos na minha cidade natal. Mas cheguei aqui com o coração aberto. Na verdade, esta decisão de estar aberta a todas as possibilidades é o que sempre me ajudou a prosseguir com alegria, mesmo quando há obstáculos em meu caminho.


Em Guarapari tive a honra de conhecer grandes pessoas, que me acolheram em suas casas e compartilharam comigo suas vidas. Em retribuição, procurei dividir com todos meu amor pela literatura e pela poesia.


Viviane Caetano é uma grande amiga que me fez transcender todos os preconceitos religiosos. Temos crenças diferentes, mas uma paixão em comum: os livros. Viviane é o monstro que eu criei! Quando nos conhecemos ela não dava a mínima para os livros, hoje ela é a minha biblioteca ambulante. Tenho que admitir que Viviane hoje adquire mais livros do que eu! Virou um vício!


Vivi, obrigada por compartilhar comigo esta paixão.


Ana Zuchi é minha companheira fiel. Se não fosse por ela, eu não teria concluído a Faculdade de Direito. Temos personalidade diferente. Mas nos adoramos e perdoamos nossas diferenças. Eu costumo brincar que a Ana é praticamente um "marido"!! Dou satisfação à ela de tudo, caso contrário, ela fica brava.

Ana, obrigada pela amizade sincera e pela fidelidade que dedicou a nossa parceria por cinco anos.


Sem a Ana, simplesmente não faço provas de Direito do Trabalho e contas jurídicas. Ana, também devo à você este diploma!

E aos outros companheiros, meus agredecimentos. Graças aos desafios constantes, pude me aprimorar e tornar-me melhor do que sou.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

O PODER DE DOMAR DO GRANDE


O PODER DE DOMAR DO GRANDE
By Tamara Ramos
O maior desafio que existe é o de manter a perseverança, a meta e a fé em si mesmo tanto nos momentos que precedem as vitórias quanto as derrotas. Às vezes acordo no meio da noite tomada por um pânico súbito. Será que vou vencer? Será que vou atingir todas as metas que tracei para mim? E se tudo der errado? O que fazer?

De modo geral sou uma pessoa bastante otimista. Raramente paro para pensar na possibilidade do fracasso. Eu acredito no meu trabalho. Acredito que todo mundo tem um talento e sou grata por ter descoberto cedo qual era o meu. Mesmo assim, os desafios são inevitáveis quando decidimos seguir nosso caminho. Eles aparecerão e nos desafiarão.

Esta semana uma amiga querida de Santos desabafou comigo. Ela está passando por um momento muito complicado, um verdadeiro beco sem saída. Conversamos por um breve momento e eu tentei acalmá-la. Para isso olhei para dentro. Refleti sobre a minha própria vida, pensei em meus fracassos e em minhas vitórias e garanti a ela que nenhuma tristeza dura para sempre.

Houve momentos em minha vida que tive de desistir de grandes sonhos. Na hora pareceu muito com a idéia que tenho do fim do mundo. Mas algum tempo depois me peguei entusiasmada outra vez, feliz com novos projetos. E situações que pareciam sem saída, ao final, mostraram-se repletas de possibilidades.

Sempre há momentos de solidão, de decepções e de abatimento. O que aprendi em meu caminho pela vida é que não podemos desistir do que somos. Toda vez que sou atropelada por alguma onda gigante que parece querer me afogar, eu tiro uns dias para ficar em silêncio e resgatar minhas metas. Exatamente onde eu estava quando esta onda me pegou? E agora que está tudo seco, como posso continuar?

A maioria das pessoas que conheço opta por bater de frente com as decepções. Elas preferem cair no mundo. Se estão tristes visitam todas as danceterias da cidade, bebem litros de álcool, e procuram esquecer os problemas.

Não os condeno, cada um sabe do que é melhor para si. Mas isto está longe de ser o meu caminho. Quando passo por maus momentos opto por um auto-exílio voluntário, um SPA caseiro que me permite pensar, me acalmar e desenvolver com maior lucidez meu trabalho de escritora.
Tenho uma vida interior rica. E tenho grandes amigos que me apóiam constantemente. O importante nas horas de descompasso é buscar o equilíbrio. Lembre-se de quem é, recupere seus projetos, dedique-se ao máximo aos sonhos que precisa realizar.

E em pouco tempo vai flagrar-se sorrindo outra vez. Porque a vida é maior. E ela é dinâmica, divertida e cheia de gente interessante esperando para cruzar seu caminho.
E o mais importante de tudo, mantenha-se aberto a soluções alternativas. Não duvide, não tenha medo, não desista.

O mundo dá voltas incríveis e nestas reviravoltas da vida, ele trará algo inesperado para você.

Dedico este texto à Thais Bortolato.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

SEM PRECONCEITO



SEM PRECONCEITO
By Tamara Ramos


Tenho que confessar que os autores que mais me atraem são os que devaneiam. A primeira vez que li “Cem Anos de Solidão” de Gabriel García Marquez fiquei tão impressionada que simplesmente não conseguia pensar em outra coisa. Fiquei consumida pelo sofrimento de Aureliano e Úrsula como se fossem parentes próximos.

Cem Anos de Solidão é mais do que uma leitura obrigatória. Este livro trouxe cores à minha vida, expandiu minha consciência e deixou imagens reais, profundas, marcadas na minha alma. A forma como Gabriel descreve o desenvolvimento de Macondo (cidade fictícia onde se passa a história), é de uma realidade tão fantástica que assombra.

Este livro fez muito mais por mim em três dias do que a escola fez em vinte anos. Na verdade, não me lembro de nada importante que a escola tenha feito por mim. Afinal, o que pode uma instituição retrógrada e convencional fazer por uma criatura rebelde como eu? Nada, claro. Bom, de qualquer forma a arte não se aprende na escola.

A esta altura, você leitor, deve estar tentando entender exatamente o que eu aprendi com este bendito livro. Bem, aprendi a me libertar dos últimos preconceitos que eu ainda poderia ter escondido em algum canto obscuro da minha mente. Imagine algo absurdamente anti-convencional. Agora exagere mais um pouco. Pense em algo pior. Pronto, está perto de adivinhar o que se passa em Macondo.

Macondo é meu paraíso perdido. Imagino esta cidade cheia de cores fortes, castigada por um sol inclemente e vencida por uma população alienada. Cada personagem conta sua história com a mesma intensidade de drama e humor, o que me fez chorar e rir durante todo o tempo que me dediquei à leitura.

É tudo tão surreal que faz sua vida parecer pequena e sem graça. Eu amo o realismo fantástico. Isabel Allende também trabalha muito bem estes elementos em sua literatura, o que me cativou como leitora.

Para mim, nada mais aborrecido do que literatura americana de auto-ajuda. Aliás, nada contra os americanos, mas vamos combinar que a arte americana é de uma chatice de dar dó. Acho que os americanos deveriam passar mais tempo na America Latina para se inspirarem.

Vejam os filmes, por exemplo. Por que diabos os americanos são tão obcecados pelos finais felizes? Que coisa mais chata, meu deus! A vida está longe de ser um mar de rosas. A minha, pelo menos, vira e mexe dá errado. E quem se importa? O importante é levantar a poeira e seguir novos caminhos.

Aí você pega um filme espanhol, um livro colombiano, um tango argentino e fica deslumbrado! Claro! O artista latino sabe o que é paixão.

Estes dias eu estava pensando (sim, continuo pensando muito), sobre a razão de minha paixão por Almodóvar. Pensei em “Ata-me” e ri sozinha. A primeira vez que vi “Ata-me” eu tinha uns quatorze anos. Lembro de ter ficado passada quando percebi que a Vitória Abril havia se apaixonado pelo Antonio Bandeiras, seu algoz. Naquela época ainda não se falava da Síndrome de Estocolmo, mas Almodóvar já sabia do que se tratava.

Este tipo de paixão sem limites que beira a loucura me interessa muito. Ninguém agüenta mais este negócio de boas maneiras nos relacionamentos. Mas por que raios devemos esconder sentimentos, medir palavras, se acovardar? Claro que não sou maluca, não vou matar ninguém, muito menos a mim mesma... Só estou pedindo por um pouco mais de coragem, de extravagância. É por isso que AMO Almodóvar. Pela sua absoluta falta de preconceitos e limites. Se você assistir a um dos seus filmes, vai acabar torcendo em silêncio pelo personagem que acabou de cometer o pior crime. Aliás, não deixe de ver “Matador” por nada neste mundo.

É disso que estou falando afinal. Tem que ter paixão para a vida valer a pena. E não estou aqui falando só do amor entre pessoas. Falo de grandes paixões. Aquela paixão que a gente sente quando tira uma foto incrível, quando pinta um quadro único, quando vence uma discussão apaixonada. Tem que por emoção na vida.

Pense na Europa, por exemplo, faz anos, anos e anos que Londres não lança um gênio como a Amy Winehouse. E sabem por que ela é fantástica e todo mundo adora? Porque ela ama sem limites e sem preconceitos. Amy Winehouse é inglesa, mas sua alma é latina. E alguém já ouviu suas letras? É uma poesia almodovariana!

É por isso que meu blog é vermelho, minhas fotos são carregadas de cores e minha vida é cheia de paradoxos. Porque pode faltar dinheiro, sorte, tempo, amor; mas nunca vai faltar paixão. Jamais.

sábado, 25 de abril de 2009

BORBOLETAS BRANCAS


BORBOLETAS BRANCAS
By Tamara Ramos
Talvez seja coincidência, mas toda vez que algo bom está para acontecer em minha vida, sou interpelada por borboletas brancas. Não sei de onde elas vem, e não me lembro quando foi que comecei a prestar atenção nelas, só sei que é fatal. Quando elas passam por mim, eu entendo a mensagem.

Ando refletindo muito sobre os limites da vida. Será que há mesmo um destino imutável? Será que temos autonomia para mudarmos tudo ou isso é só uma fantasia do ego humano? Minha bisavó, índia cabocla, costumava aconselhar que “colocássemos a gaiola no chão”. Se o passarinho voltar, é porque ele lhe pertence e nada mudará isso.

Na minha vida, várias coisas ocorrem a despeito da minha vontade. Às vezes faço planos a longo prazo, apenas para perceber que não tenho poder nenhum para fazer com que eles se realizem. É frustrante.

Sou uma estudante apaixonada pela filosofia oriental. Os conceitos chineses da vida são extraordinariamente profundos e sábios. Procuro manter o equilíbrio nos momentos de crise meditando sobre o Tao e os caminhos secretos da vida.

Para Lao-Tzu (filósofo chinês), “o Tao é um eterno não fazer, e mesmo assim nada fica sem ser feito”. Ouvi pela primeira vez este conceito sobre a “não ação” através do “I Ching”. Estudo o “I Ching” há 18 anos e hoje estou muito familiarizada com sua filosofia. Recorro a ele sempre que me encontro numa situação difícil sem saber como devo agir. Porém, não raro, o I Ching simplesmente me aconselha a “não agir”.

Reconhecer o momento da retirada é uma grande virtude. Quando tudo foi feito é melhor retirar-se e esperar. O “I Ching” é grandioso e crê no destino. Seu ensinamento garante que “o que pertence ao homem ele não perderá, ainda que o jogue fora”.

Devo admitir que algo em mim se acalma quando cruzo as borboletas brancas. Invariavelmente elas me trazem boas novas.

Ontem à tarde, momentos antes de uma reunião de negócios, elas passaram por mim. Este encontro mudou a direção de um projeto inteiro que eu estava desenvolvendo há tempos. As pessoas que me aguardavam no local atuaram como mensageiros, e me deram orientações valiosíssimas capaz de reorientar meu rumo que parecia perdido.

Recebo isso como sinais. Mas se há sinais, é porque deve haver algo além do que vemos. Por isso devemos estar atentos. Quando as borboletas brancas se aproximam, tenho a impressão de estar sendo parabenizada por algo que ainda não ocorreu em minha vida. Mas que já está a caminho. Então me sinto grata e abençoada.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

EGOTRIP


EGOTRIP
By Tamara Ramos
Fui convidada a participar de um grupo seleto de escritores. Pessoas que dedicam suas vidas ao exercício da escrita. Passamos um dia delicioso e produtivo. Reúna meia dúzia de intelectuais apaixonados e se sentirá automaticamente inspirado. Comigo sempre foi assim. Me sinto atraída pelo mundo dos adultos como abelha ao mel. Artistas obstinados, viajantes apaixonados, escritores, livreiros e leitores.

Às vezes me questiono se o exercício da escrita é feito por necessidade ou vaidade. Por que raios o escritor precisa tanto mostrar pro mundo inteiro o que passa pela sua cabeça? E afinal, o que de tão importante passa pela sua cabeça que deve ser assim compartilhado?

Nestes tempos de internet e youtube qualquer um fica famoso. A exposição pessoal virou um hábito rotineiro e inconsequente. Este blog está aí aberto a todos, convidativo e irresponsável. Qualquer um que entrar vai conhecer meus pensamentos mais secretos. Mas isso não me incomoda.

Tá certo que às vezes temo pelos meus leitores. Sei que as minhas idéias podem chocar. Meu pai às vezes me liga querendo saber se estou deprimida por causa de algo que publiquei aqui. (Besteira, pai. Você já deveria estar mais acostumado com isso.) O problema do escritor é que ele pensa demais. Aí quando começa a escrever vai se atropelando como um tsunami de idéias.

Se bem que o Gustavo (Maioli) diz que a gente trabalha melhor quando está deprimido. Devo admitir que um pouco de tristeza e insatisfação me deixa mais reflexiva e, portanto, mais poética. Quando estou feliz demais passo o dia na praia sem ver razão para escrever. Aí quando estou triste lembro os dias felizes e fico ainda mais emotiva e inspirada. Sim, é contraditório mesmo.

Não faço a menor idéia sobre quem lê meus textos. Sei que tenho uma média incrível de visitas diárias, mas não identifico meu leitor.

Escritor e leitor. Esta relação é próxima e distante ao mesmo tempo. Sou uma leitora fiel. Minha mesa de cabeceira está repleta de livros que me fazem companhia todas as noites. Alguns autores já estão tão íntimos que até troco de roupa na sua frente.

A noite passada fui dormir tarde lendo “Os escritos da maturidade” de Albert Einstein. Ele mesmo, Einstein, o gênio. Quem nunca leu, por favor, leia! Fantástico. Einstein era um escritor incrível de uma sensibilidade marcante. Para ele o princípio da liberdade humana é nosso bem mais valioso. Einstein amava a arte da mesma forma que amava a relatividade.

Não entendo muito de física, mas entendo de pessoas. Para Einstein a física só tinha validade se ajudasse pessoas. Einstein era um sonhador. A arte traduz sonhos. Eu sou uma sonhadora. E você, leitor, deve ter sonhos também.

É por isso que eu me exponho. Porque não há nada de errado em compartilhar sonhos. Ainda que virtuais, ainda que distantes.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

SOMENTE A VERDADE


SOMENTE A VERDADE
By Tamara Ramos
Fui ensinada a nunca mentir. Não importa a situação, a circunstância, a condição, diga a verdade. Sempre. É claro que há segredos na minha família, claro que a mentira às vezes nos pega de surpresa. Mas quando isso ocorre, causando devastação, serve de exemplo para confirmar a primeira premissa: não minta.

Não minta porque a verdade sempre aparece, não minta porque mentir é feio, é desvio de caráter, mau hábito.

Mas a verdade é que andam mentindo para mim. As pessoas mentem, o governo mente, o amor mente. Esta questão da verdade tem monopolizado minha atenção há alguns meses. Mentir é mesmo assim tão mau?

Alguém me disse estes dias que não suporta as consequências da verdade. A mentira, em algumas situações, facilita a vida. Esta pessoa me disse que mente porque a verdade dói, é dura e estraga tudo.

Em 2002, quando ainda morava em Santos, me converti ao budismo. Passei a praticar com disciplina monástica e me aprofundei no estudo da sua filosofia. Uma das práticas mais radicais do budismo é o compromisso com a verdade. Diga a verdade, sempre. Buda jamais mentia ou enganava. O que mais aprecio no budismo é que ele é totalmente baseado na vida de um homem comum, que se iluminou e passou a viver de acordo com princípios espirituais elevados.

Os milagres budistas são realizados por meio da observação e compreensão da própria mente. Mas para a mente se iluminar, ela tem que conhecer a verdade sobre sua própria natureza. E a verdade é que somos falhos, todos nós. Mas ainda assim, todos podem se aprimorar e alcançar um estado mais alto de consciência.

O fato é que seguir o princípio de não mentir não foi difícil para mim. Este já era um hábito meu. Nunca vi sentido algum em ocultar a verdade. Sempre me mostrei como sou. Nunca senti necessidade de ocultar nada sobre mim. Sei que a unanimidade é uma utopia boba e, por isso mesmo, vale a pena aceitar nossos limites e seguir nosso próprio caminho. Às vezes vão gostar de você, em outras você irá desagradá-los. Mas o que isso de fato importa?

Quando algo me perturba eu busco ajuda nos livros, sempre. E gosto de pesquisar com as pessoas, saber todo tipo de opinião humana. Acho que o tema da mentira ainda é um tabu. Todos concordam que a mentira é ruim, mas todos confessam que mentem.

Isso é triste. Por experiência sei que a verdade é como a água, transborda, escorre, escapa e acaba por encharcar tudo. A verdade aparece sempre porque não é possível se negar aquilo que se é. Seja como for, fraco, desumano, imoral, amoral ou apenas um pouco ingênuo, não sinta vergonha do que é e não omita o que deve dizer.

O trabalho do escritor não é necessariamente autobiográfico, mas todos sabem que o artista se expõe quando manipula sua arte. Eu vos digo: é impossível defender algo em que não se acredita. Impossível. Você pode até se arriscar um pouco e explorar um terreno desconhecido, mas quando estamos a sós, em frente a uma folha em branco, acompanhados apenas pelas nossas histórias e memórias, a nossa verdade sempre nos escapa e invade tudo. Quando você percebe, está derramando suas crenças sobre o papel.

Qualquer artista sabe disso. Um artista clássico pode flertar com a arte moderna, mas vai acabar sentindo saudade de casa. Um músico de jazz pode flertar com o funk, mas acaba sentindo falta do que conhece. Mas isso não se resume aos artistas. Todo mundo acaba por se entregar uma hora. Sim, a verdade sempre aparece porque ela diz muito mais de nós mesmos do que podemos julgar.

Somos todos falhos. Eu, como artista, procuro evoluir através do meu trabalho, mas para cada pessoa há um caminho. E ele deve ser iluminado e guiado.

Ao final da minha pesquisa descobri que a verdade também é um tabu. Tem que ser corajoso para se dedicar a ela com o coração, disciplina e abnegação. Se a verdade tem que aparecer, é melhor lidar com ela desde o princípio. Ou não?

segunda-feira, 20 de abril de 2009

AMORES TORTOS (Crooked Love)



AMORES TORTOS (Crooked Love)
By Tamara Ramos

“Talvez ainda tenhamos tempo para ser e para ser justos.”
Pablo Neruda

Esta semana alguém disse que me amava. Ouvi atentamente, desconfiada, mas disfarcei sorrindo. Eu te amo. Tenho refletido sobre esta frase com estranha obsessão. Exatamente o quê isso significa, meu deus?

Procurei pelas músicas de Chavela Vargas em busca de ajuda. Afinal, se alguém neste mundo deve saber o que o amor significa este alguém é Chavela! Caso contrário ela não cantaria em todos os filmes de Almodóvar.


A esta altura quem me acompanha sabe da minha paixão incondicional por Almodóvar. Nada mais natural que vasculhe sua filmografia em busca de uma solução.


Eu te amo. A frase continua me tirando o sono. Uma mulher de trinta anos já ouviu esta frase diversas vezes. Em diversas situações. Já ouvi dos amigos, da família, e o mais suspeito de todos, dos amores.


Chavela está dizendo ao meu ouvido que “quem não sabe o que é o amor, não sabe o que é o martírio” (La Chorona). Confesso que não me sinto muito reconfortada com a dica.


Eu te amo. Eu também te amo. Talvez este seja o diálogo mais comum entre os casais apaixonados. Ok, eu te amo, você me ama, e isso significa o quê?


Quando eu era mais jovem costumava acreditar que o amor era capaz de tudo. Se alguém dissesse que me amava eu estava salva! Porque quem ama cuida, protege e nunca abandona.


Acreditei nisso com tanta força que me tornei poeta.


Mas o que isso significa afinal? O problema do amor é que você apenas conhece a extensão do seu próprio. Não dá pra saber o que o amor do outro pode fazer por você.


Como só sei do amor que sinto, é só sobre ele que posso falar. O amor para mim tem que ser inteiro, passional, verdadeiro, sem fronteiras, incondicional, avassalador, infinito, perturbador, acolhedor, terreno e divino.


Quando eu amo sou capaz de entender até mesmo aquilo que não dá para entender. Abro concessões, encontro justificativa, dou suporte, escuto com certa paciência e mando pro espaço a tal dignidade.


Nada sei dos amores tortos, cheios de dúvidas, vacilos, confusos, contraditórios, pequenos e breves. Nada sei do amor que não se expande, que esbarra em barreiras medíocres, que fere e desmancha.


Eu te amo. Mesmo? Então mostra para mim. Seu amor é capaz do que? Você me ama. E isso significa exatamente o quê, meu deus?

Dedico este texto ao homem que disse que me amava esta semana.


terça-feira, 14 de abril de 2009

O RESGATE DE AFRODITE

O RESGATE DE AFRODITE
By Tamara Ramos


Nas épocas mais remotas, encontramos vestígios do poder feminino manifestado plenamente nas sociedades matriarcais(1). Cabia à mulher gerar, alimentar, oferecer abrigo e tomar as decisões mais importantes no seu grupo social. As mulheres da era matriarcal nos dão a impressão de terem sido grandes mulheres, dignas do respeito, admiração e amor masculino.

Historiadores da religião nos trazem à tona um panorama completamente distinto do que conhecemos hoje. Houve uma época em que a Grande Mãe era adorada e deusificada sendo reconhecida como a própria fonte da vida.

Na Mesopotâmia era conhecida como Inana e na Assíria como Ishtar, ambas representavam a força da vida sendo responsáveis pelas mudanças das estações e detentoras do poder sobre o nascimento, a morte e a ressurreição.

A religião cristã transformou a antiga deusa em pérfida, pecadora e diabólica. Desde o primeiro capítulo da Genesis bíblica, a mulher aparece como a ambiciosa criatura que tenta Adão e rebela-se contra Deus por intermédio de uma serpente astuta. Todo o episódio é uma alegoria para subestimar a mulher e colocá-la sob a influência do homem.

A mulher, definida como pecadora, não é digna do amor masculino, bem como do seu respeito. Do ponto de vista religioso, que acabou por fundar a sociedade atual, a mulher passa a ser objeto do homem. Por ser inferior, passa a não mais merecer o afeto do pai ou do marido. Portanto, a violência, como forma de punição, é um ato admitido tacitamente dentro de uma sociedade patriarcal arbitrária.

As deusas da Idade Média, ou seja, as mulheres que viviam seguindo as regras da natureza, também foram denominadas de bruxas e queimadas em infames fogueiras. O silêncio de uma comunidade patriarcal diante de tamanha brutalidade ainda ecoa em nossos tribunais.

Após o advento do Cristianismo no séc. I d.C houve um banimento geral da mulher da sociedade. Esta nova religião causou um divórcio na civilização separando o Deus-pai da Deusa-mãe, e introduzindo uma série de novos dogmas que inferiorizaram a mulher diante dos olhos de um Deus-homem, inflexível e rigoroso em suas punições.

Sabemos que antes do cristianismo, também havia uma tendência de maximizar o poder masculino, porém, nenhuma religião foi tão cruel com as mulheres como a cristã que as dividiu em dois grupos distintos de Marias: a santa e a pecadora.

Pois se há necessidade de optar por um dos lados destes grupos, então me posiciono em cima do muro desavergonhadamente, uma vez que habita em mim em plena harmonia, tanto uma como a outra.

A antiga sociedade grega deu a luz ao maior símbolo feminino que conhecemos: a deusa Afrodite. Afrodite, por sua natureza livre e sensual, é vítima das maiores injustiças no mundo moderno. Como pode uma mulher que convive bem com sua sexualidade, que aprecia perfumes e flores, que não se enquadra aos modelos de comportamento feminino esperados pelo homem, pode ser respeitada numa sociedade endurecida pela moral religiosa masculina?

Afrodite só entende de arte, poesia, beleza e amor. Afrodite não vê graça em ternos escuros, em regras ortodoxas ou em discursos políticos. Afrodite não levanta bandeiras ecológicas, não se interessa por política, não brinca com armas de fogo.

E por que então, estou investindo meu precioso tempo em seu resgate? A resposta é simples: porque o mundo precisa de beleza para nos ajudar a suportar o caos de nossas próprias vidas. Aquele caos difuso que nós mesmos nos causamos. Aquele caos masculino que nos enrijeceu. Aquele caos faminto de nossa própria criação.

A mulher que senta-se à mesa com Afrodite convida as cores do mundo a habitar sua casa. Esta mulher-afrodite contribui para o desenvolvimento da anima mundi, e apazigua os ânimos, e desperta os sonhos.

Pois parte do trabalho do poeta é flertar com Afrodite, para que ela o inspire, para que ela o devore.

[1] Por matriarcal nos referimos uma sociedade que reverenciava a Deusa-mãe.