quinta-feira, 19 de março de 2009


LEMBRANÇAS QUE SEMPRE ME ALCANÇAM

LEMBRANÇAS QUE SEMPRE ME ALCANÇAM
By Tamara Ramos

“Minha imaginação exige que eu permaneça na mesma cidade, na mesma rua, na mesma casa, contemplando o mesmo panorama. O destino de Istambul é o meu destino. Estou ligado a esta cidade porque foi ela quem fez de mim quem eu sou.”

Orhan Pamuk
(Autor turco vencedor do Prêmio Nobel da Literatura em 2006)


Tenho pensado muito na cidade de Santos neste mês quente de março. Há exatamente cinco anos deixei Santos em busca da realização de outros sonhos. Nasci em Santos há trinta e um anos e minhas memórias mais longínquas pertencem a este lugar. Quando eu era criança minha mãe costumava me mostrar a iluminação de natal da cidade feita sem modéstia por quase todos os prédios. Havia uma competição silenciosa entre os bairros para ver qual era o mais original. Santos para mim é uma cidade iluminada.

Santos cheira a maresia. Mas é uma maresia diferente que você só consegue identificar lá. Os turistas por vezes ficam incomodados com o cheiro forte que vem do mar, mas todo santista ama porque este é, simplesmente, o cheiro que emoldura suas mais remotas lembranças. O cheiro de maresia de Santos é o cheiro da nossa casa.

Tenho orgulho da cidade em que nasci. Sinto amor por cada rua, cada beco, cada lugar. Quando estou lá meu coração pulsa no mesmo ritmo que pulsa o coração do Gonzaga. Os livreiros são meus amigos, as livrarias de Santos são quase um lar.

Esta semana decidi reler o livro de memórias de Orhan Pamuk sobre a cidade de Istambul. Pamuk me fez chorar. Istambul é um dos livros que mais me marcou. Cada palavra perfurou minha alma como se me torturasse de propósito.

Istambul me lembra Santos. O porto de Santos me faz pensar no canal do Bósforo. Istambul também deve ter cheiro de maresia.

Mas Pamuk deixa claro que está irremediavelmente preso à cidade. É como se ele só pudesse sentir-se vivo estando ali. Aqui, estabeleço limites entre nossas semelhanças. Carrego comigo uma alma peregrina. E mesmo sabendo das dificuldades das partidas, ainda encontro razões para permitir mudanças em minha vida.

Ainda me lembro da noite que deixei Santos decidida a não retornar. Meu coração não estava em paz. Passei a noite acordada observando a estrada que me levava para tão longe dali. Lembro da despedida de meu pai. Eu sabia que a nossa convivência seria interrompida, mas eu não tinha outra escolha.

Partir é sempre um desafio, mesmo quando se quer muito ir.

E é estranho este sentimento bairrista que nos acompanha quando estamos fora da nossa terra. Se Santos joga eu quero ver ganhar, se descubro que algum ator que se destaca é santista, morro de orgulho; se escuto qualquer notícia que venha de lá, paro tudo e presto a máxima atenção.

Santos está em mim, e eu pertenço a Santos.

Há cinco anos vivo feliz em uma cidade linda à beira mar chamada Guarapari, localizada no Estado do Espírito Santo. Quando decidi partir de Santos, Guarapari era a única opção palpável que se mostrou para mim.

Amo este lugar como quem ama sua casa de veraneio. Para mim é como se eu houvesse tido a chance de permanecer em férias por um período indeterminado. É claro que trabalho por aqui. É claro que cumpro dezenas de obrigações todos os dias. Mas Guarapari para mim é como um resort magnífico onde toda a natureza o abençoa pela manhã.

Moro em uma praia onde o mar reflete um azul turquesa tão profundo que angustia. Há muitos estrangeiros por aqui e cada um deles compara a cidade ao que conhece. Uns dizem que parece a Grécia, outros Maiorca na Espanha. O que todos tem em comum é que se encantam pela beleza da cidade.

O ritmo passa lento aqui. O sol se levanta todos os dias sorrindo com o mesmo entusiasmo do dia anterior. É como se eu morasse num vilarejo distante, uma Shangrilá do ocidente.

E a poesia aqui, virou um ritual sagrado. Escrevo religiosamente toda a semana. Não escrevo todos os dias porque meu senso de disciplina ainda não alcançou tal perfeição. Mas foi morando aqui que me tornei uma escritora profissional.

Santos me deu cultura, criatividade, amigos, família, berço, lembranças. Guarapari me deu equilíbrio, humildade, profissionalismo, compaixão, novos amigos e um ideal.

Esta semana faz cinco anos que deixei Santos, mas Santos ainda me visita, Santos ainda está comigo.

Esta semana faz cinco anos que me mudei para Guarapari, mas parece que foi ontem, parece que o tempo passa longe daqui.

Esta semana faz cinco anos que decidi dar uma guinada na minha vida. E ao fazer um balanço deste período, conclui que fui bem sucedida, que cumpri todas as promessas que fiz a mim mesma quando optei pela mudança.

Esta semana faz cinco anos que fiz uma mudança, e agora estou pronta para mudar mais, para prosseguir ousando e correndo riscos cada vez maiores.

Porque correr riscos para um escritor é viver, e viver é abrir caminhos e sentir a satisfação de pertencer a todos os lugares.

segunda-feira, 9 de março de 2009

UM DIA PERFEITO COM O POETA VICENTE BOJOVSKI









UM DIA PERFEITO COM O POETA VICENTE BOJOVSKI


by Tamara Ramos


Todo poeta pensa um pouco nesta coisa da perfeição. Eu sei que isso é um pouco maluco, mas a gente busca a frase perfeita, a palavra perfeita, a rima perfeita, as cores perfeitas, o livro perfeito, a música perfeita, o amor perfeito. Isso faz parte da alma do artista. Esta busca pela perfeição estética é quase uma obsessão.



Mas e o dia perfeito? O que seria um dia perfeito? Convido o leitor a refletir por um momento sobre isso. Como seria o dia perfeito para você?



Confesso que o dia absolutamente perfeito, - e qualquer coisa que inclua esta idéia insana da perfeição tem um quê de loucura -, é raro de encontrar. Mas ontem eu tive um dia perfeito. E é sobre isso que vou falar aqui.



Não conheço muitos poetas que tenham sobrevivido apenas de sua poesia. Talvez Pablo Neruda tenha alcançado isso, mas penso que ele deve ter sido o único. De modo geral, o poeta leva uma vida dupla. Mantém um trabalho bem chato durante o dia e sonha todas as noites com uma vida melhor. Afinal, que tipo de trabalho bem remunerado pode ter um poeta apenas com sua poesia? Ninguém vai pagar rios de dinheiro para você passar o dia sonhando e escrevendo, certo?



Ontem passei o dia com um poeta que deu certo. Não, ele não vive de poesia, mas de alguma forma incrível ele conseguiu viver de sua arte. Vicente Bojovski é poeta, pintor, colunista e chef de cozinha. E, sobretudo, um amigo querido e fonte ilimitada de inspiração para mim.



Vicente nasceu na Macedônia, mas vive no Brasil há 26 anos. A pedido de sua editora na Macedônia, ele agora está escrevendo suas memórias. E foi sobre isso que conversamos bastante ontem. Vicente nasceu num vilarejo pobre da Macedônia onde viveu até sua juventude. De origem muito humilde, não havia meios de transformar sua vida a menos que ele fosse um louco e caísse no mundo com uma mochila e nem um tostão. Bem, os poetas são meio malucos, você sabe...



E seguindo este ímpeto de ver o mundo ele arriscou tudo e foi. Você, leitor, já pode imaginar as milhares de histórias que ele tem para contar sobre a sua aventura de percorrer o mundo. Ele diz que dinheiro sempre foi um problema em sua vida. Começou a escrever desde muito jovem e hoje é uma celebridade em seu país natal. Mas ele ainda se emociona ao falar sobre a frustração de ter sido famoso e duro ao mesmo tempo.



Depois de muitas aventuras e derrotas – diz ele que quebrou várias vezes na vida por conta da irresponsabilidade juvenil -, ele é hoje o chef e dono do restaurante Guaramare aqui em Guarapari/ES, considerado o melhor restaurante de pescados do Brasil pelo Guia 4 Rodas desde 1999. O próprio restaurante já é um sonho. Você é convidado a entrar em outro universo quando decide passar alguns momentos ali. Todo construído pelo próprio Vicente, o restaurante lembra um castelo medieval, abrigando jardins e obras de arte por toda a parte.



Há algum tempo venho procurando um artista que desenvolva um trabalho original para ilustrar meus livros de poesia. Conheci alguns pintores, mas nada havia mexido com minha imaginação até eu conhecer o Vicente. Fiquei absolutamente apaixonada pela obra dele! As telas são coloridas, feitas de paixão e luz. É um trabalho quente, passional, repleto de flores e oceanos de um azul profundo, assim como meus poemas. Cada traço do Vicente é carregado de boemia, paixão e bom gosto. Você acaba sendo transportado para outros lugares sem perceber.



Com toda a humildade do mundo (e muita esperança), entrei em contato com o Vicente no ano passado para conversarmos sobre a possibilidade de eu utilizar o trabalho dele para ilustrar meus poemas. A resposta do Vicente: - Mas é claro! Pode fazer o que quiser com meus quadros. Fique à vontade!



Não preciso nem dizer que meu ar sumiu. Ter o aval do Vicente para ilustrar meu livro foi um sonho daqueles de Sherazade para mim. Liguei para o meu querido amigo e excelente profissional Gustavo Maioli, e começamos a trabalhar. A produção é lenta, cara e ainda não há previsão para o lançamento do livro. Mas ele vai sair!



E parada ali, ao lado do Vicente, bebendo o melhor dos vinhos e comendo o maior dos camarões, em companhia de um poeta de verdade, percebi que aquele era um dia perfeito.



Saí de lá renovada e com inspiração para escrever mais uns dois livros inteiros. Sabe, a maior lição que aprendi com o Vicente foi a seguinte: precisamos ousar muito, porque a vida é curta e tudo é possível!




AS FLORES DO AMOR PRÓPRIO



AS FLORES DO AMOR PRÓRPIO

by Tamara Ramos

“O amor não termina com um soco”. Foi com esta frase estranha que o Globo Repórter desta última sexta-feira iniciou o programa sobre a questão da violência contra as mulheres. Estou cursando o último semestre da faculdade de Direito e desenvolvendo minha monografia sobre a nova Lei Maria da Penha que defende as mulheres dos horrores da violência doméstica praticada por seus parceiros.

No entanto, com o avançar da minha pesquisa, tive a surpresa de descobrir que estas mulheres agredidas não deixam de amar seus parceiros após serem vítimas dos mais violentos atentados. Como profissional da área do Direito, tenho percepções claras sobre a ineficácia social desta lei e projetos para serem implantados para amenizar estas agressões. Porém, como poeta, esta questão me aflige muito, pois revela um lado bastante obscuro do amor e que não pode ser negligenciado.

A mulher com o olho roxo na TV dizia: - “O amor não termina com um soco”. E eu como escritora me perguntava como isso poderia ser possível.

Para mim, qualquer forma de agressão é simplesmente inaceitável. E tenho também algumas idéias claras e convenientes de como deve ser o relacionamento afetivo. Descobrir que mulheres vítimas de violência não desistem do amor pelo parceiro agressor me tira o sono.

Quando o programa terminou passei a buscar na memória todos os romances que eu havia lido em busca de uma resposta. Pensei na Carmem Bin Ladin, que casou com um príncipe árabe e acabou descobrindo que seu marido não passava de um louco insensível, pensei nas mulheres da Índia vítimas de mutilações sexuais e tratadas como objetos pelos maridos, nas mulheres que estão morrendo de AIDS na África por consequência da promiscuidade, nas mulheres brasileiras pobres que carregam uma prole enorme oriundas de pais diferentes, nas mulheres que prostituem seus corpos em beiras de estradas e esquinas sombrias, nas gueixas japonesas proibidas de sentirem o verdadeiro amor, nas concubinas dos imperadores chineses prisioneiras de uma cultura intransigente e nas mulheres egípcias que eram enterradas vivas junto com seus maridos faraós.

Após refletir sobre tudo isso é impossível não parar para pensar sobre os fundamentos do amor. Os poetas gastam tintas e mais tintas narrando amores sublimes, caóticos, passionais, ciumentos, platônicos, suaves e imorais. Mas será que todas estas variações da paixão originam-se de sentimentos sinceros ou serão apenas criações alucinadas para justificar o gasto de tanta tinta e papel?

Qualquer livro de auto-ajuda garante que o sentimento da mulher difere do sentimento masculino. Parece que a mulher tem mesmo mais capacidade para amar, perdoar e erguer-se do que os homens. Mas será que isso é uma qualidade ou um grande risco à sua dignidade? Não consigo acreditar que o amor possa sobreviver após levar um soco. Este sentimento que resta depois da agressão pode ser qualquer coisa, menos amor. Talvez estas mulheres que apanham sintam medo do abandono, medo da fome, vergonha, incapacidade de conquistar alguém melhor, baixa autoestima.

O programa terminou mostrando uma cooperativa de flores criada e desenvolvida por mulheres vítimas de agressão. Após sofrerem durante anos nas mãos de homens violentos, estas mulheres encontraram no cultivo da flor, a sua liberdade. A cena que mostra a plantação enorme de crisântemos, rosas, lírios, e outros, ficou congelada na minha mente. É impressionante como a mulher combina com este ambiente leve entre flores e jardins. Parece que este é o ambiente natural dela.

E aí sim, olhando esta cena de vitória, pude entender o amor que os poetas descrevem. As mulheres devem ser amadas porque são feitas de uma estrutura diferente. São belas em suas formas externas, mas fortes demais no seu caráter e grandes nos seus ideais.

Uma mulher que toma um soco está sendo vítima de uma barbárie sem chance de perdão.

A mulher que se descobre como um ser sublime como as flores não mais permitirá que nada de mal lhe aconteça sem a sua autorização. Assim como os girassóis que erguem seu olhar para o sol no decorrer do dia, a mulher também deve erguer seu olhar, sua cabeça e seus sonhos para que possa reconstruir sua vida à salvo da violência e da exaustão.

domingo, 1 de março de 2009

TEORIA DA INSPIRAÇÃO



TEORIA DA INSPIRAÇÃO
by Tamara Ramos


Toda vez que me determino a escrever com disciplina me bate um cansaço intransigente que me obriga a adiar. Fico pensando em todos os escritores capazes de escrever textos completos, bem amarrados e inteligentes que parecem estar prontos em pouco tempo.

Nada disso acontece comigo. Escrever é a única coisa que me traz prazer e senso de realização, mas admito que todo meu ser boicota minha decisão de autocontrole e urgência. Fico pensando em tudo o que me inspirou em algum ponto da vida e que, de alguma forma sombria, ainda não foi esgotado em verso. Aí é terrível porque quero falar tudo, criar histórias incríveis, inventar palavras e poemas, mas a TV ligada acaba por me vencer.

É sempre assim. Fico de pé diante da minha modesta biblioteca adaptada no quarto de dormir tentando relembrar o conteúdo dos livros. Existe um que me deprime e excita porque é simplesmente genial. Me deprime porque penso que meu texto é medíocre quando comparado ao dele e me excita por conta da genialidade incontestável da obra. Estou falando de Dom Quixote de La Mancha e de Cervantes.

Sou uma brasileira completamente apaixonada por minha herança latina. As cores intensas exageradas pelo excesso de sol quente me fascinam. Dom Quixote e Sancho despertam em mim uma vontade agoniante de sair de férias pelo deserto. Eu e minha imaginação insana montada em algum pobre cavalo a explorar um terreno árido qualquer. É contagiante.

Já no limite da angústia levanto e vou passear na locadora de DVD atrás da minha casa. Acabo assistindo aos mesmos filmes de sempre como a vida da pintora Frida Kahlo contada pela belíssima Salma Hayek. Não preciso nem dizer que isso me inspira imensamente. E lá está ela, Frida, mal amada, traída, cheia de dores pelo corpo, com os movimentos limitados e criando belamente. E cá estou eu, com o corpo inteiro, saúde perfeita, amores complicados (mas quem não os tem?), e uma preguiça vergonhosa de fazer mais por mim mesma.

É enervante. Mas como estou motivada a voltar a escrever, revejo todos os filmes de Pedro Almodovar, a divindade suprema do universo artístico. Ai meu deus, será que algum dia seremos amigos? Já imaginou? Almodovar e eu passeando juntos por La Mancha e falando bem da vida? Isso é sinal que minha capacidade de devaneios está retornando, o que é essencial para o exercício da escrita.

Depois de assistir a todos os filmes que amo, compreendo que está na hora de colocar mãos à obra literária. Não à de Cervantes, mas à minha mesma. Uma pessoa torna-se escritor porque assim o determina. Escreve, escreve, escreve e diz: Pois bem, sou escritor. Mas até este ato Napoleônico de auto coroação exige esforços. E alguém diz: -Então é escritor? E escreve o quê?.

E é só para responder a esta singela pergunta que nos empenhamos novamente e colocamos para fora todas as contradições que carregamos por dentro de forma ilimitada e cambaleante.