domingo, 27 de julho de 2008

AUTOENTREVISTA


AUTOENTREVISTA

P. Como escolhe os temas de suas poesias?
R: Creio que nunca escolhemos os temas com muita liberdade. É claro que podemos estar envolvido com algum projeto ou idéia e isso acaba por nos inspirar um trabalho. Mesmo assim, penso que a poesia – e deve ocorrer com outras obras de ficção literária – se apresenta a nós. Geralmente começo por uma frase que mal sei de onde vem, mas que me persegue até o momento em que eu decida parar e lhe dar a devida atenção.

P. Há algo de autobiográfico no seu trabalho ou é pura ficção? Anne Sexton costumava dizer que escrever poesias revelava o self. Concorda com esta afirmação?
R: Sim. Meu trabalho é extremamente autobiográfico, mas isso não está reduzido às possibilidades da realidade. Creio ser real todo pensamento e forma de percepção do mundo. Algumas vezes relato coisas que nunca vivi no mundo real, mas que de alguma forma, me são íntimas pelos sentidos. A ficção ocorre no momento da formatação do texto. Usamos alguns subterfúgios que nos ajudam a encaixar certos conceitos o que, se colocado de outra forma, tornar-se-ia absolutamente inverossímil. Referente ao desbravamento do self no momento em que se escreve, penso que Anne Sexton tinha razão. O poeta explora a própria alma, busca razões que justifiquem seu ponto de vista e lida bem com as emoções. O ato de escrever pode substituir a terapia convencional.
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P. Quem são os autores que te inspiram?
R: Meu primeiro amor foi Fernando Pessoa. Aquele pessimismo crônico permitiu que ele se desnudasse de uma forma cruel e bela. Gosto do seu texto pela simplicidade e pela forma com que organiza suas idéias. Pessoa me motiva a escrever desde os 17 anos de idade. E ainda hoje mantenho seus poemas na minha mesa de cabeceira. Outro poeta que eu adoro é Pablo Neruda. Neruda extraiu um pouco do romantismo que estava meio escondido em meu subconsciente. Penso que sua obra é de uma beleza poética inigualável. É possível sentir aromas quando se lê seus versos! Também aprecio a poesia de Apollinaire, Maiakovski, Hilda Hilst, Vinícius de Morais e Rilke, mas com certeza não citei todos. E com o mesmo prazer leio obras de autores desconhecidos, pois penso que a poesia é uma das mais belas formas de expressão da humanidade.

P. Há algum ritual no momento de preparar um verso?
R: No começo eu gostava de escrever a mão e colecionar os manuscritos. Hoje faço tudo no computador. Não há um ritual específico, mas dependo do momento da chegada da inspiração. Posso passar meses sofrendo com a “crise do branco”.

P. Por que decidiu lançar o livro na internet ao invés de seguir o padrão convencional de enviar às editoras?
R: Vejo a internet hoje como o meio mais eficaz de divulgação midiático. O que está na rede, está no mundo. Atualmente, vários grupos musicais, autores, fotógrafos e também poetas, estão aproveitando a internet como um instrumento de publicidade. Achei que seria interessante lançar meu trabalho primeiro virtualmente. Afinal, os internautas formaram uma nova sociedade muito antenada às transformações que estão ocorrendo em todos os segmentos artísticos. O livro original é composto de 75 poemas, aqui no site só há 20. A idéia era criar uma pequena mostra do trabalho. A internet é uma seara aberta a todo tipo de inovação e é de graça!


P. Conte-nos um pouco da sua trajetória literária.
R: Eu sou uma eterna buscadora. Apaixonei-me pelos livros ainda menina, e esta chama nunca se apagou. Acho que o melhor caminho para se tornar um escritor, é ser um bom leitor. Quando você ama a literatura e a respeita, esta passa a ser parte de você. Iniciei meu trajeto como uma leitora voraz. Com o tempo fui sentindo necessidade de relatar minhas impressões. Eu nunca me senti à vontade copiando a idéia dos outros. Por mais fantásticas que fossem não eram minhas. Sempre busquei a originalidade, a legitimidade das opiniões. A autenticidade me interessa muito.

P. Crê que a poesia também é uma forma de manifestação artística?
R: Sim. É diferente de uma pintura, escritura ou uma produção musical. Mas afinal, o que é a arte? Não é a manifestação dos sentidos? Desta forma, creio que a poesia se encaixe neste perfil. O autor também se utiliza de cores e sons para formular suas histórias. Também partimos da tela em branco.

P. É verdade que é formada em fotografia? De que modo a fotografia interfere no seu trabalho escrito?
R: Comecei a fotografar aos 11 anos de idade, quando ganhei uma máquina fotográfica de uma parenta. Fiquei deslumbrada! Tornei-me obcecada, não queria fazer outra coisa. Aos 14 anos expus meu primeiro trabalho fotográfico na cidade de Santos, onde nasci. Herdei do meu pai meu primeiro equipamento profissional, pois ele também era fotógrafo e pintor. Acredito que a fotografia molda o trabalho poético. A opção de colorir o site com fotos foi planejada. Acho que a foto colabora com a produção do conceito, da idéia que ser quer passar com os textos escritos. São formas que se complementam.


P. Por que decidiu autoentrevistar-se?
R: A idéia da autoentrevista é de Pedro Almodóvar. No seu site oficial ele mesmo elabora as perguntas que vai responder. Almodóvar é o meu cineasta preferido. Sou obcecada pelo seu trabalho. Quando assisto a um dos seus filmes, perco o sono por alguns dias. A trama fica impregnada em mim, bem como as cores e a trilha sonora. Creio que minha poesia tem esta carga de sentimento e de cores dramática que ele pinta em seus filmes. Meio trágico, muito intenso. Com a autoentrevista posso revelar um pouco das minhas idéias de uma forma mais didática e personificada.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

TODA A IMENSIDÃO QUE NUNCA SE CANSA


Toda a imensidão que nunca se cansa,
somos nós,
viajantes humanos a invejar a liberdade das aves,
sonhamos voar.
Além-mar,
sobre todas as coisas vagar,
permitir molhar-se às vezes,
inundar.

ONTEM


Ontem o sol saiu mais cedo,
acima do arco-íris azul,
incendiando a manhã de prata,
antes que parta o calor que seu corpo deixou.

Ontem a noite tardou a nascer,
entre brumas passageiras que desconfiam de ti,
andavam sozinhas distantes do céu,
como se caíssem do firmamento a cada negro minuto.

Ontem a luz da lua ofuscou o pássaro audaz,
e imune à dor, renunciou e voou,
sobrevoou as casas que desafiam o horizonte,
e longe daqui pereceu e chorou.

Ontem a praça estava repleta de amor,
entre crianças e jovens senhoras o luau começou,
abrindo no espaço a vastidão do destino,
como sempre foi,
como sempre mostrou.