quinta-feira, 29 de maio de 2008

AO QUE NÃO FUI

Tamara Ramos

Para C.


"É tarde, tarde. E sigo. Sigo com um exemplo
atrás do outro sem saber qual é a moral,
porque de tantas vidas que tive estou ausente
e sou, agora sou aquele homem que fui."
Pablo Neruda
(Memorial de Isla Negra)


Sinto saudade de tudo o que não vivi
entre montes e ruas dispersas
sempre ao longe aquele som
desconhecido de minha alma.

Permaneci repleto de luas,
sob a noite escura que jamais se espanta,
o fundo aterro que já não me esconde,
os anos idos.

E eu, à margem de outro rio,
passei.

Nada havia de molhado em mim,
mas submerso em lembranças do que não fui,
entornei e chorei.

Soube mais da maré do que o mar,
me fiz homem sozinho,
sem mães, sem amarras;
me fiz só.

Nada em mim se lança além do que canto e ouço,
vivo ao vivo,
vivo só,
sorrateiro arrasto as asas da ave que não fui,
porém noturno,
acendo o candeeiro ao futuro,
aquele futuro que aguarda a minha coragem.

Mas cadê? Cadê?
Hoje à sós não sei quem sou,
temendo o amanhã de ferro que me endurece a fronte.

E há os abraços que não ganhei,
e há as noites que não dormi,
e há o porvir de outros encontros.

Tenho saudade do que não vivi,
e ainda encantado pelo brilho do último lamento,
sinto a falta do talvez,
e do primeiro adeus.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

NÃO POSSO MAIS ESCREVER VERSOS TARDIOS


Não posso mais escrever versos tardios
que iluminam o céu amarelo,
nas noites sem escuridão.

Não posso mais ceder à falsa memória,
que de outros tempos nada me lembro,
e castigo o tempo que cala o som,
e absorve a esmo a última fala.

Não posso mais animar a festa de junho
a cantar músicas de passadeiras,
que de tanto queimarem as mãos,
já a ninguém cumprimentam.

Não posso adentrar secretos refúgios
outrora nosso,
se no final de cada esquina
esbarro em algo que não me pertence.

Não posso mais escrever versos tardios,
se minha poesia não muda meu mundo.

Não posso mais esperar as horas perdidas
quando tudo a mim passa,
passo eu à margem ,
e o sonho me escapa entre os dedos.

Não posso mais ver flores sem primavera,
em cada jardim interno que me rouba o sono.

Não posso mais viver contando os passos,
os limites, e os abismos,
buscando ruas escuras
onde ninguém me pode ver.

Não posso mais escrever versos tardios,
se minha poesia não pode mudar o meu mundo.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

AO MEDO QUE ME AQUECE


Sinto o calor de suas mãos a minha volta,
Olho em volta,
O continente paralisa,
A vida pára.

Falo alto na espera de ouvir,
O eco da mesma resposta clara,
Meu próprio som,
Só.

Quero ir além da montanha escura,
Cruzar a fronteira ao norte,
Iniciar nova jornada,
Ir.

Sinto frio na derradeira escalada,
Minhas pernas tremem,
Convido o fogo a queimar-me,
A eterna chama.

E celebrando o medo que me aquece,
Permaneço em pé,
Parado,
Imune.

Lá dentro a voz que não se cala,
Agora grita,
Alto,
alto.

Sou forasteiro ferido pela onda azul,
Náufrago a pedir consolo em terra estranha,
E seguindo a corrente que me carrega ao sul,
Retorno.

Perdi o mapa da viagem,
Ando a esmo.
Perdi o sentido da caminhada,
Volto.

Mas quando volto já não reconheço,
Outrora lugar da partida,
Meus companheiros reclamam uma ausência frívola.

Ao medo que me aquece,
Meus cumprimentos!
A voz que não se cala,
Minha gratidão.