sábado, 26 de abril de 2008

PROFISSÃO: POETA

PROFISSÃO: POETA

A manifestação artística acompanha a trajetória evolutiva do pensamento humano desde tempos imemoriais. O traço mais marcante do homem é sua capacidade de traduzir esteticamente suas impressões do cotidiano social e da própria criação que conhecemos como vida.

A arte sempre foi um instrumento utilizado pelos homens mais sensíveis ao sentimento oculto de libertação da alma. O homem que cria, é o homem que crê que há algo mais ao redor além do que ele pode sentir ou ver. A criação artística é uma forma belíssima de transcendência revolucionária.

A poesia, como expressão artística e instrumento de contestação, foi desenvolvida ao longo da história e acabou por gerar uma produção riquíssima do pensamento e das paixões humanas. O poeta é o ator verbal. É aquele que vive outras vidas e contesta o caos de seu tempo. O poeta é o homem que não se corrompe, que não se submete às atrocidades ditatoriais e infames de seu governo, que mantém a crença desmedida no amor e que duvida da constância estática dos desejos humanos. O poeta não se surpreende com os paradoxos inerentes à existência do ser, nem julga com mãos de ferro os erros humanos . O poeta ri da tolice configurada nas sociedades inventadas e retira-se ante ao desprezo da massa incauta. Ele sabe que é alvo da fúria dos tolos e à ela não se curvará.

O pintor que exagera nas cores e deforma a realidade aparente, é um homem que voa. O escultor que contorce o bronze até que ele vire algo que lhe agrade, é um homem de fé. O cantor que solta sua voz sem medo transcende o limite da razão humana. E o poeta que se utiliza da linguagem para expressar em verso as controvérsias e as belezas da vida que vê, é um herói.

Sei de poetas que ganhavam a vida com um ofício estranho à poesia. Não me canso de pensar sobre a sua sobrevivência. Será que viviam entediados ao executarem tarefas comuns ou lhes agradava viver como um homem manso? Será que Pessoa distraía-se em seus devaneios durante alguma reunião obrigatória ; capaz de prestar o mínimo de atenção ao discurso inútil?

O poeta é um profissional idealista. O artista que se submete à censura sentirá vergonha do próprio pincel. O poeta que clama por liberdade não poderá manter-se preso.
A escolha da profissão deverá estar ligada às convicções pessoais do aspirante. O escritor nem sempre agradará aos membros da sociedade a qual também está inserido. Em não raros casos, ele causará sentimentos de repulsão e ódio, porque não lhe cabe enquadrar-se. De igual forma não poderá poupar seus afetos da crítica audaz de sua pena. Um amor que acaba ver-se-á exposto e, talvez, transfigurado num poema. Uma sociedade que se finaliza poderá ser referência numa próxima obra do sócio/autor. O artista sempre revelará suas impressões sobre suas experiências pessoais com certo distanciamento.

Quer saber dos amores de Picasso? Veja de que forma retratou suas musas e compreenderá seus sentimentos. Quer saber da impressão que causavam à Pessoa seus amigos? Leia seus poemas. Quer entender o que pensava Maiakovski de seu país? Procure seus escritos. Não há como fugir. Estará tudo ali exposto como as entranhas de um animal que terá seus órgãos consumidos após o abate.

Portanto, pense muito bem até que ponto está pronto a revelar-se. Ou desista deste árduo e solitário caminho. Há uma única maneira de vivenciar esta profissão: entregando-se por inteiro ou à ela renunciando.

sábado, 19 de abril de 2008

MATA-ME


Quero morrer de um amor sem consolo,
olhar para trás e ver tudo perdido,
toda esperança,
a elegância,
a minha insatisfação.

Quero ouvir palavras duras de arena,
sentir nas costas o penetrar do abate,
ter as mãos cerradas,
e o coração em aflição.

Quero amar como um touro em combate,
que se entrega ao show infame,
feito um palhaço aos pedaços,
que ri por dinheiro.

Quero ter a atenção da imprensa maldita,
ver a derrota exposta ,
ter o vestido manchado de sangue,
e a dignidade rompida.

Quero ver o outro lado da vida,
conhecer o que se esconde,
pisar hotéis proibidos,
saber do pavor e do medo.

Quero ver algo que não se mostra,
que não seja singelo,
o que ninguém conta,
o que não se vê.

Quero saber dos contos de finais infelizes,
do que não era mesmo para ser,
do que o bandido traz por dentro,
a selva do precipício e o poder.

Quero ver gente de aço,
homens que dormem em camas imundas,
a expressão dos desavisados,
a alma que jamais se encanta.

Quero saber dos horrores de algum beco,
da vida na esquina,
do comércio ilícito,
dos que pagam e a quem possuem.

Mata-me com algum tempero,
forre o chão com meus escritos inúteis,
e enterre o poeta para sempre,
no rancor do anonimato.

domingo, 6 de abril de 2008

MINHA VIDA SEM MIM.



MINHA VIDA SEM MIM

Por Tamara Ramos


“Prudência?
Abandonar sua mulher, seus filhos, residência,
Poder. Deixar tudo e partir deste modo?
O medo é tudo e nada o amor.
Quão ínfima é a prudência, em verdade, senhor,
Quando a fuga se faz a despeito de toda a razão.”
Shakespeare, MACBETH.



Passado alguns anos viu-se só, na ampla sala de visitas de sua propriedade e, por um décimo de segundo, sentiu-se visita também.

Sim, somos amigos. Mas a história dele confunde-se à dos últimos heróis. Não o conheci antes da calcificação do mito. Já no primeiro contato, a hierarquia fez-se clara: eu, ninguém importante; ele, senhor de um império exigente.

O silêncio presente no funeral de sonhos antigos nos aproximou. A inquietação das pernas que nunca se cansam, o prazer de contar histórias pessoais em voz alta, a luta por um ideal. Não o censuro.

Estivemos juntos há alguns anos neste mesmo lugar cercado por vigias à paisana. Pela primeira vez vi a imobilidade das convenções, as reuniões que nunca terminam, a solidão de alguns jantares, as extensas agonias, algumas alegrias antes que o dia se encerre.

Pensei que teríamos um pouco mais de tempo esta noite. O avesso da discórdia no cair do dia, o aconchego breve, o esperado encontro, o “finalmente à sós”. Pena que nada mais é verdade, nenhuma expectativa, nenhum rancor.

Os outros vivem a vida que foi dele um dia, querem sempre mais, e nesta confusão de identidade e espaço, os outros ao redor dele, sempre me arranham.

Ele diz que está em débito com o outro que, por um descaso negligente, traiu. O outro que era ele mesmo, e já não se sabe onde mora.

Sim, somos amigos. Mas é com o outro que me permito sonhar às vezes, é com os olhos do outro que os meus querem cruzar; talvez seja mais fácil amar este outro que não é exatamente ele.
Ele diz que ainda é possível mudar o mundo ou torná-lo melhor, não sei. Na verdade não sei bem no que ele acredita. Não sei o que pensa do amor. Ele diz muitas coisas. Fala, e fala, e fala... mas a vida dele sem ele é uma possibilidade inerte que não me alcança.

Pena que agora as grades são de ferro. Mas foi ele mesmo quem mandou comprar o aço. Agora não pode mais escapar. Nos curtos momentos em que vê a luz do dia, ainda escuta o sermão austero do seu pai. A mulher que não se ama, a prole exigente demais, a vida pessoal que virou Instituição pública, a culpa pelos erros do passado, a autocomiseração. A vida não é mais dele, mas dela ainda não pode se ausentar.

Minha vida sem mim é uma casa de luz apagada; a vida dele sem ele é algo normal; minha vida sem ele perde a cor; a vida dele sem mim é fato real.
Procuro encontrar palavra que o defina.

Ele dividiu sua vida em três partes distintas: a sobrevivência na favela, Marx e o projeto Educação. Experiências dele que não são bem ele, mas contidas nele estão.

E tem os filhos também, algo além da revolução. E tem o discurso e o partido, e as muitas contas, os projetos sempre em expansão, e tem o cafezal, e tem um violão no meio disso tudo que, felizmente, ainda toca. Ah sim, há uma mulher. Na verdade, duas ou três mulheres. E há um casamento de aparência, e uma mulher que se foi, e uma poetisa que ainda espera. E há a ilusão constante de que sua vida se resume a isso. E há o medo do novo. E há a habitualidade da escravidão.

Esta não é uma história de amor ou desamor, mas um breve relato de vida. Uma vida que não é minha e nem exclusivamente dele. Mas a vida é mesmo assim, feita de paradoxos que não tem fim. Não creio que ele seja infeliz, mas sei que algo lhe falta. Todos dependem dele, mas a integridade de sua alma depende do encontro com o outro. O outro que ele esqueceu; o outro que mora sozinho em algum lugar; o outro que é mais leve e, talvez por isso, mais feliz; o outro que ele insiste em rejeitar.

Sim, somos amigos. Mas nossa amizade às vezes, sustenta-se por um frágil fio. Às vezes preciso desesperadamente dele, e é aí que lamento por não ter acesso ao outro. Às vezes a amizade precisa de um cuidado maior, de atenção e amor. Talvez um dia ele cruze o outro em alguma esquina do tempo, e então consiga aprender algo novo.

Sim, somos amigos. É por isso que me exponho tanto. Porque minha vida sem mim é casa de luz apagada, mas minha vida sem ele é um black-out total.

sábado, 5 de abril de 2008

ESTOU NO LIMITE


Estou no limite do desassossego,
cara a cara com a angústia infinita,
enfrentando o mau tempo e o medo,
desafiando os contrários e os erros.
Estou no limite desta terra estranha,
em busca de algo mais nítido,
capaz de assombrar o bom senso
e os seus extravagantes e ordinários adereços.
Estou no limite da fadiga,
no fim do engodo e do jeito,
à contragosto,
e insatisfeito.
Estou no limite da paciência,
há um triz de puxar o gatilho,
no último momento do encantamento,
no funeral dos antigos sonhos
e da maldita prudência.

EU ACREDITO!

Eu acredito na palavra inesperada,
no amor do bandido,
na cama meio pronta,
no alçar de certos võos,
nos antigos sacrifícios.

Eu acredito em milagres fascinantes,
em jogos de amor platônico,
em desejos ultra-secretos,
em coletâneas de contos proibidos,
em crimes e castigos amorais.

Eu acredito que posso ter mais da vida,
que minhas asas me farão voar um dia,
minhas palavras levitarão,
meu quarto se encherá de vida,
e que meu corpo e coração pulsarão.

Eu acredito nas tramas do destino,
que tudo tem uma certa sina,
nas ilusões que excitam,
na vontade própria,
e no poder divino.

Eu acredito em tudo isso...e você?
No que acredita?