domingo, 23 de março de 2008

MARINA DE LA HAVANA


Foi numa tarde vermelha de verão,
trazendo flores em mãos,
que Marina tocou a sombra da arte e,
em louvor ao sol de Havana,
espantou o sono do dia.

Trajando vestido rendado,
pisando a terra de origem,
cruzou a última fronteira,
unindo em canções duas nações.

Caminhando à pé pelas ruas do país,
viu crianças sorrindo,
e mulheres que amam homens que bailam
ao som de antigas rumbas.

Da liberdade plena fez-se hóspede,
dançando, cantando, sonhando,
e compondo ao farol distante,
mais uma nota pro mar.

Foi numa tarde ardente de verão,
trazendo flores em mãos,
que Marina tocou a sombra da arte e,
em louvor ao sol de Havana,
pôs a alma de Cuba no coração do Brasil.

sábado, 22 de março de 2008

O LAMENTO DO POETA



E ela percorria os quartos vermelhos atenta à cada impressão,
e visitava ambientes quentes,
colhendo nobres insultos,
cruzando o portal do amor e do medo.

Não era eu quem ali permanecia,
um vulto de mim mesmo,
agarrado à beleza da firme renúncia,
devorando a noite por trás do espelho.

A cada hora uma vigília muda,
uma autopreservação doente,
a fome do alimento comum,
o sagrado leite.

Ninguém ofereceu abrigo no feriado,
por isso declarei meu amor aos livros,
li para mim mesmo,
e relatei aos sonhos o desassossego.

Revirei-me na cama fria,
no quarto, o ruído dos turistas lá fora,
a felicidade imprudente,
e a passividade da fraqueza incoerente.

Queria ter alguém para conversar,
sobre a brevidade do tempo,
a fascinação dos mitos do Oriente,
o tão estimado Tao.

Mas a música alta lá fora,
determina o tamanho do meu sofrimento,
me obrigando a partilhar o tumulto do mundo,
com estranhos que jamais considerei como os meus.

sexta-feira, 21 de março de 2008

A VOZ DO POETA

E o poeta percorre ruas imaginárias e transforma em pedra o passado que o atormenta. Transita por vielas amarelas sob o toque de algum sol melancólico e traduz o som da vida aflita em canções de mar. Nada do que vê viveu intensamente, mas sentiu de perto tudo aquilo que contou. Atrás das cores esmaecidas do outro Oriente; aquele que de memórias e histórias tornou-se seu. À altura de novos heróis enfrentando demônios mitológicos, o poeta revela o que nunca lhe aconteceu. Conta sobre o tudo e o nada ao meio-dia, à luz da aurora, ao silencioso amanhecer . Visita a poesia estrangeira em busca de algo familiar... e subitamente, encontra parentes próximos nas folhas da sublime literatura humana. O poeta exigente não se cala nunca, ainda que mais nada tenha a dizer.

quinta-feira, 13 de março de 2008

AND I WHO WAS EVERYTHING OR NOTHING AT NOON



(Traduzido por MAIDA OLIVEIRA)


And i who was everything or nothing at noon
who sang the rain to the cold winter,
who dragged your name to the chaos feet,
who walked alone and naked,
beneath the sun of my street.

And i who loved everyone while I gazed upon life,
who hated the south wind of Saturday afternoons,
who grieved over death and celebrated life,
who changed so many dreams for precious books,
who hanged around for nothing,
beneath the moon of my useless time.

I, that cursed offenses on a Friday the thirteenth,
who loathed the lack of luck in the world,
and envied blond girls,
i sleep today at eternal rumba’s sound,
i wear red at six in the morning,
and black,
beneath the sun of my fate.

I, who never grieved over my nonsense,
who never granted back from my strict conceptions,
who from absolute certainties woke up in green valleys,
and listened to the solemn “ouch” from the virgin whores,
shedding blood when I was a child,
today I walk slowly,
beneath the moon of red stories.

And today everything here is memory and forgetfulness,
my house is too small
my friends no longer say the letters of my name,
And now i make the street below a broadway
and I still walk at no hurry,
beneath the sun and the moon of my shabby way.

BACK TO THE FLOWER GARDEN



(Traduzido por MAIDA OLIVEIRA)


It was on that wet summer night
that i return to the flower garden,
I walked through Frida’s home,
and drank tequila to accompany the oldest of men.

The colors were alive in that garden,
and the sun took some time to set,
covering my enchanted face golden,
while my hot red blood wandered inside me,
my burning womb desired ardently in all bedroom.

I cooked for them,
i sewed their stories ,
i calmed down their childish weeping.

The women dressed in yellow
made the sunflowers happy,
and the children wearing black braid,
sang songs of atheist mandolin players.

The strong smell of food incited my will.
Macondo’s people saddened happiness
inspired my poet keeness,
and nobody wanted to sleep,
and nobody wanted to wake up.

I painted my lips red and started to dance,
i married that night at the light of the incestuous moonlight,
and gave myself up to the wind,
and made love in the sea.

Something dawned on me
when I walked alone through La Mancha Village,
so I left the suitcases on the floor,
and alone knocked down every wall,
and made my pleasure
my official dewelling.

A BAD DAY




(Traduzido por MAIDA OLIVEIRA)

I hate all formalities,
shallow interpretations
the beauty of by chances,
that surround us in so many moments,
unexpected,
unready,
bandit.

I hate dark suits,
the lack of freedom,
the fear of words spoken or unspoken,
the fear of expressing,
upsetting,
overloading.

I hate tv on Sundays,
the neighbor’s ungraceful routine,
the war in the Middle East,
and every kind of Christian mass.

I love the lack of warning,
right timing for improving,
what's seen upside down
without end or beginning,
the monarchy of anarchy,
the verbal streams.

I love everything that allows,
that is inviting,
all that is tactless,
the hits and the miss.

I love open houses,
the cats on the neighbors’ roofs,
the floods that overflow
and all kind of high tide.

Damn all honour
and damn the world
of tedious people
of no contradiction.

quarta-feira, 12 de março de 2008

NÃO HÁ NINGUÉM QUE VOLTE

Não há ninguém que volte
ao que um dia abandonou,
o passo que cruza a última fronteira,
o pra trás que não se olha,
a dor que não se ouve...
o nada que restou.

O sonho que se transforma em obsessão,
a necessidade da partida,
o eterno ir,
a conquista da viagem.

Fui mais longe ainda,
nunca permaneci.
Recebo cartas de inúmeras fontes,
nunca respondi.

O que faço do que fui?
Desencanto e esqueço
E se não fui?
Melhor assim.

O tarde que já se afasta,
os dias que já não são meus;
perto da linha de chegada:
mais um adeus.

Me desmonto para redescobrir
o que ainda há em mim;
não me ajusto ao temporal,
nunca me aqueço.

O rosto que já não reconheço no primeiro espelho,
as margens de alguns rios,
o expulsar de antigas sombras,
a eterna busca do eu.

Onde mais posso encontrar,
motivos para voltar?
Eu que abandonei diversas casas,
eu que me abandonei?

Nas longas manhãs de janeiro,
meus dias passam iguais...
Meu corpo parece cansado,
a visão turva e a falta de espaço.

E de tantas lembranças,
meu mundo se fez menor,
não sei onde estou
mas já não reconheço o que atrás ficou.

Tenho medo de mim,
nada tanto assim,
falo mais do que hoje sinto...
falo muito mais.