sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

ANDO SEMPRE ASSIM

Ando sempre assim
meio de bando,
falando o que não se houve,
fazendo planos inúteis.

Ando sempre mais à frente,
fora do tempo escasso,
além do seu alcance,
aos trancos.

Ando sob o céu sem nuvens,
de branco,
descalço,
em paz constante.

Ando meio assim,
lenta,
no ritmo dos dias sem fim,
sem som.

Ando sempre assim,
na eterna busca do sentido,
nas tardes quentes,
no meu lugar.

E andando meramente vã,
faço estrada de pardais,
vôo alto e me afasto,
do ninho que me oprime ao sul.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

ATÉ O AMANHECER

Até o amanhecer vou contar toda a verdade,
perder o medo da ocasião e do acaso,
varrer a poeira e o mofo da mesa,
guardar segredos aos ouvidos surdos.

Até o amanhecer vou permanecer do avesso,
sonhar outro sonho mais simples,
escrever frases mais curtas,
trabalhar a ilusão e a pureza.

Até o amanhecer vou forjar novo traço,
algo que se compreenda,
nada que aflija,
nada que adoeça.

Até o amanhecer não mais estarei só,
vou tolerar gente comum,
deixar pegadas na eterna praia,
que de sol em sol nunca se ausenta.

Até o amanhecer o poeta criará novas asas,
e flutuará sobre a ponte que divide as palavras,
a intenção,
e a calmaria da insensatez.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

EU PENSAVA QUE NÃO PODIA ESCREVER VERSOS

Eu pensava que não podia escrever versos fortes,
pois de mim muito se revelaria,
a quem não pudesse ouvir o som da fúria que consome o artista pronto:
a arte, companheira e mestre de corações exaustos,
consumido por infinitas impressões que se acumulam,
a tentativa de sobreviver como um comum.
Ignorar os altos ideais da juventude hoje próspera;
calar a confusão que se sente nas reuniões de família,
os segredos que aos poucos se revelam.
Ser normal é um desejo utópico.
Amadurecer é compreender a criança que em si mesmo habita;
trafegar em ruas diversas em busca de mais uma esquina cinza,
atravessar a sublime fronteira que separa os homens.
Não somos iguais, eu e você.
As tintas dos meus versos tingem minhas mãos,
o temor da escuridão que hoje é vencido;
o estar só de bom grado e plena satisfação.
Acumulei amantes insípidos,
poucos me deram inspiração e coragem;
músculos abrutalhados não me excitam
nem a ladainha do eu te amo sem som.
Casei com a obra de arte que estava exposta em um museu.
Não poderia imaginar que seria tão feliz,
eu pensava que não podia escrever versos.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Programa Nosso Estilo com Alfredo Gini - TV GUARAPARI




Ontem, quarta-feira de cinzas, Gustavo e eu fomos entrevistados no programa de TV Nosso Estilo com Alfredo Gini. O programa foi ao ar ao vivo às 14:00hs e o tema principal da entrevista foi o processo de criação do escritor, suas inspirações e sobre o espaço que há na mídia virtual para o desenvolvimento e publicação de novos autores.

Gustavo Maioli, produtor do blog, falou sobre as diferenças existentes entre a configuração dos blogs e sites, e afirmou que a produção de blogs atualmente é uma forte tendência no mundo virtual pela facilidade de acesso e rapidez nas atualizações.

O programa será reprisado no próximo sábado, dia 09/02 pela TV Guarapari, canal 08, às 14:00hs.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

VISITEI AQUELE MAR





Para Marcos H.

Visitei aquele mar por tantos dias
que ele ainda molhado sobrevive em mim.

Nadei pelo horizonte úmido
na companhia de outras aves;
acostumei-me à imensidão.
Naufraguei diversas vezes e me salvei.
Sobrevivi a tempestades mudas,
gritei mais alto que o trovão amargo
que por despeito a mim se impôs.
Será que o mar se lembra?
Sentirá ele o cheiro do meu corpo suado?

Quando estava distante
notei o farol,
soberbo a iluminar a escuridão infinita...
Alguém mais notou,
alguém além de mim.

Não pude alcançar a margem distante e,
mais uma vez naufraguei.
Havia uma mulher a mais ali,
ela não me viu.

Às vezes meu corpo ainda balança,
mesmo na cama.
Às vezes meus pés não alcançam o chão,
mesmo de pé.

Vou dançar com os pés afogados no oceano
para ver se ele se lembra.
Visitei tantas vezes sua extensão,
nadei sozinha com os olhos cheios d’água;
minhas lágrimas não comoveram sua ondulação,
minhas lágrimas nunca secaram.

Meu pensamento ainda vaga pelo cais,
minhas roupas ainda estão encharcadas,
as lembranças escorrem pelo corpo em caos,
minha vida naufraga.

Visitei aquele mar por tantos dias
que ele ainda molhado sobrevive em mim.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

CONSTANTE

Passos largos cruzando vidas,
nenhum oceano profundo demais,
nada que impeça o pensamento de vagar,
percorrendo estepes frias,
correndo atrás de crianças sem pais,
caminhando e hesitando no limiar da noite.
Ainda é sol.
Ainda meus ombros queimam.
Tantas cores a desenhar extensas impressões,
calculo mal,
me atraso,
nunca estou lá na hora precisa.
O trauma do sonhador é sonhar demais
perdendo a hora e o compromisso inadiável.
Não me calo.
Falo, e falo e falo
a quem quiser ouvir,
que escute os versos frios.
Sou acusada de inexatidão...
Pois não? O que lhe agradaria?
Algo plausível?
O exército em marcha composta?
Não, lamento;
não consigo manter-me em linha reta,
a precisão me abandonou no extremo espaço vazio,
nada preencheu meu peito corado.
Vago, e vago e vago,
Fui e ainda sou aquele que aqui mora;
nada demais a ver na estante repleta de livros distintos;
se não cuida do intelecto não encontrará distração nos meus aposentos.
A corrente de ar seco paralisou os pássaros,
agora eles descansam.
Vejo tudo da janela, mas não ouso a rua,
estou nua,
não posso expor-me.
Penso que um dia alguém lerá algo sobre mim
e não me orgulho.
Fui só um sonhador
entediado da vida
e cheio de expectativas de fuga.