quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

O QUE SEI EU DO OCEANO E DAS LONGAS NOITES DE VERÃO?



O que sei eu do oceano e das longas noites de verão?
O que sei eu do coração do poeta aflito,
eu que também poeta sou
e que interpreto mal a aflição do meu próprio coração ?

O que sei eu das longas noites de inverno
na superfície branca de alguns desertos longes?
Eu que também habito a noite sem lua
da cidade onde não nasci
e mal sei do céu extravagante que se revela em minha aldeia.

O que sei eu do cavalgar de cavalheiros que habitam
planícies distantes,
que montam cavalos de gelo no litoral glacial de outros montes?
Eu que dia após dia caminho à margem da vida
e mal sei do que há para lá da estrada velha.

O que sei eu da artilharia das guerrilhas de outros continentes,
o atalho inimigo que sufoca a fé?
Eu que de versos ocupo meus dias frívolos
e que batalha alguma jamais venci,
quando o mais distante que fui foi logo ali.

O que sei eu do que você sente por mim?
Eu que mal me agüento,
que nunca me ocupo do espelho que há em casa
e que me levanto sempre só
sem nada novo a dizer.

O que sei eu de estranhos poetas que se manifestam com tintas frescas
e nunca se molham?
Nada sei do que há morto em mim
o que descama,
nem da pele que troca quando adormeço.

O que posso saber daquilo que nunca vi?
O que posso mais além de fazer com que brotem palavras ocas
no papel virtual que manipula a loucura
que há muito tempo mora em mim?

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

VERSOS FRIOS



Meus dedos rígidos hão de prosseguir,
formando palavras de gelo,
preenchendo lacunas do que não foi dito,
manuscrito inédito cristalizado ao vento.

Ainda faço versos após o meio-dia,
hora em que o abade já deixou a capela
e tenta fingir que ainda crê em Deus;
como se o divino fosse algo além do anonimato poético.

A censura não me viu,
afinal sou nada mais do que alguém que se encanta com palavras de neve.
Faço versos frios longe ainda do inverno,
abdiquei das luvas e dos conselhos de aquecimento íntimos.

Não peço mais do que poucas palavras,
algo que me livre do senso comum.
Caminhei muitas tardes atrás do tempo perfeito,
das ruínas, das vírgulas e das abstrações.

Ouvi de alguém que assim era o artista;
profissão imaginária e imensa na solidão.
Tremi de frio junto aos livros gelados,
compreendi melhor os poetas e a revolução.

Não sou de partido algum,
a política limita-se a uma página no noticiário exausto,
perdi a fé nos ideais sublimes,
recolhi papéis, lápis e me retirei.

Mas meus dedos rígidos hão de prosseguir,
em busca da palavra heróica.
Talvez faça amigos nas salas proibidas,
talvez meu dedo queime desenhando palavras gélidas
estranhas a mim e a mais ninguém.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

OÁSIS


Não havia lugar algum
Capaz de esconder a volúpia
O céu tingido de azul sem forma
Recolhia os resquícios do vento voraz
E mergulhando os pés em areias profundas
De fugazes hóspedes o deserto tornou-se abrigo

Coberta de seda e ouro
A sultana se pôs a dançar
O lenço verde ocultando segredos
O contorno marcado na terra
Finais de tarde sob o trêmulo sol
Música de transe num conjunto obsceno

Após a meia-noite o som se torna grave
Os portões fecham-se ao forasteiro
O cheiro do tempero africano inunda a varanda
Os tambores rugem para o silêncio em paz

Oásis em festa
Lençóis de organza e jasmim sobre camas prontas
Elas entram em bandos sob o véu negro
Deusas sagradas da planície inóspita
Mães da vida que há na terra
Senhoras de todas as casas

Não se houve uma palavra dos lábios cobertos
Apenas o corpo fala
De véu em véu o deserto se abre
Sob a multidão de estrelas sublimes
O ar rarefeito adoça-se e desce

Sempre caberá mais uma alma feminina
Toda curva de Eva regozija-se e brilha
O luar cúmplice calado se impõe
E o harém do marajá
Seduz a cores
Palavras que jamais serão ditas.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

OS EXILADOS DE MOSCOU


A perseguição aos poetas russos no alvorecer do comunismo.

A ideologia comunista como meio de igualar direitos e deveres sociais, mergulhou num abismo profundo oculta sob a proteção rígida da Cortina de Ferro. O objetivo máximo da revolução era criar uma sociedade alheia às diferenças inerentes à alma humana. Na aldeia comunista, ninguém podia pensar. O pensamento humano deveria estar plenamente de acordo com os interesses governamentais do partido ou o pensador autônomo se veria envolvido em graves problemas.

O conceito de partilha territorial e racionamento de bens de consumo passou da teoria à prática de forma radical e impensada. Não se cogitou a possibilidade de uma rebelião originária da alma dos soviéticos; uma revolução dos desejos e dos sonhos pessoais amordaçados e submetidos ao falso esquecimento.

A depressão aumentou, o nível de suicídio subiu, o consumo de vodka ultrapassou todas as fronteiras do aceitável; mas a hierarquia governamental soviética fingiu que não viu.

Em meio ao caos da opressão, a arte manteve-se fiel ao seu princípio sublime: revelar o que se vê.

O calcanhar de Aquiles russo estava escondido justamente aí, na cabeça dos homens que pensam. E em meio ao caos de uma revolução, a alma grita com ainda mais força.

O que se viu na antiga URSS comunista foi uma barbárie. A intenção de calar o sentimento e a sofreguidão humana foi de uma ambição dantesca. A idéia de fazer dos soviéticos homens inteiramente iguais nas necessidades e no pensamento só poderia naufragar em meio a um oceano escuro e sem rota de direção.

E como o espírito da arte é incorruptível, ele manteve-se íntegro e, nos momentos mais cruciais, manifestou-se com altivez nas vozes de seus poetas russos. Porém, cuidado! Os homens que pensam não podem ser bem vindos. Se alguém escuta, todos poderão acordar e perceber que o pesadelo é real.

E aí vem eles: Feodor Dostoyesvsky (exilado na Sibéria como prisioneiro após escapar da pena de morte.); Ivan Turguenev (exilado na França após ser expulso da pátria soviética); Alexander Pushkin (morto em duelo por armação do czar); Anton Chekhov (perseguido pelo governo por denunciar as condições vexatórias impostas aos prisioneiros); Máximo Gorky (expulso da Academia de Ciências do Czar); Boris Pasternak (viu reduzida sua tarefa a de tradutor, para que fosse impedido de pensar por si mesmo); Ossip Mandelstam (exilado para a Sibéria até seus últimos dias); Anna Akhmatova (proibida de publicar seus escritos sob a censura do regime de Stalin); Maiakovski (perseguido pelas autoridades stalinistas, suicidou-se em 1930).

A lista de poetas e escritores russos vítimas da intolerância governamental é inacreditavelmente extensa. No auge do regime comunista ortodoxo, era vetado ao artista qualquer forma de manifestação contrária às intenções do partido. Mas a colônia dos poetas manteve-se ativa. Os poetas produziam seus poemas e o faziam transitar entre as rodas intelectuais anárquicas. Logo, todos estavam cientes da circulação do novo poema e o poeta tornava-se consagrado no âmbito obscuro dos revolucionários mudos. A poesia driblava a censura e permitia que a chama da liberdade de expressão se mantivesse acesa no interior de cada indivíduo russo.

A poesia e a literatura são armas tão poderosas quanto o armamento pesado voltado para a Praça Vermelha. É por isso que o artista não pode esquivar-se da verdade. O covarde retira-se na hora da guerra. O bravo manifesta-se.

Os exilados de Moscou falaram tão alto que suas vozes ainda ecoam em nossas vidas. A realidade do poeta contemporâneo não está distante do momento soviético dos séculos passados. Ainda estamos lutando contra as forças de opressão da massa ignorante. Ainda incomodamos. Ainda nos é necessária a coragem extrema.

Portanto, mais uma vez, fica aqui a mensagem, ser poeta é assinar um pacto eterno com a verdade e com a revolução intelectual para que seja fonte de inspiração e consolo para as futuras gerações.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

A FARSA DA IGUALDADE

Nada mais insensato do que a crença na igualdade. Nada é igual. Pessoas guardam sonhos diversos em gavetas secretas. Crianças buscam divertimentos opostos. Homens e mulheres, crentes e ateus. Quando penso nas tentativas de generalizações impostas por alguns governos, sorrio com desprezo. Quando penso na escravidão imposta aos estudantes medianos, perco a esperança. A beleza de ser humano é poder expressar-se livremente. Os infinitos potenciais, as necessidades distintas, a ousadia. Nunca suportei regras ditadas. Fujo da mesmice, da hipocrisia, da massa idealizada e do processo nacional de inclusão. Penso que o espaço não deve ser cedido, mas conquistado. Os rituais não podem ser impostos, mas sentidos. Não compreendo pessoas que não buscam mais. Não entendo a paralisia que congela sonhos. Não vejo senso no cotidiano insosso. O maior temor do ditador é ver exposta sua fraqueza. O maior temor do sonhador é ser por ela dominado. Vamos viver uma história heróica e permitir que nossos nomes sejam lembrados. Viver é muito mais do que sobreviver. O chão da minha casa às vezes está sujo. O meu corpo, cansado. Minha fé, abalada. Mas se os dias não são iguais, nada disso importa. Amanhã retorno ao caminho da revolução que, sem pressa, me aguarda sempre.

sábado, 19 de janeiro de 2008

ENCENAÇÃO




A cada espera uma renúncia aflita,
A certeza oculta sob vaga inspiração,
O temor da abstração,
O caos poético.
Liberava palavras em promoção,
O máximo desconto por sermão,
Frases de graça,
Tudo à venda.
O revolucionário guardou o livro vermelho,
E nunca mais se pôs em marcha;
Agora lia tramas inventadas,
Fora do alcance da razão.
A rainha ergueu o cetro imponente,
E proibiu todo tipo de aberração.
A celebridade que ontem era alguém,
Viu-se só ao meio-dia,
Mas ninguém ousou comentar...
O dançarino que se despia à meia-noite,
Dormiu só,
Mas ninguém se aproximou.
O tempo que parecia passar
De repente parou,
Mas ninguém sequer notou.
A dança das horas,
O horror dos heróis,
O que há depois?
Distribuem-se autógrafos!
A vida é o que fazemos dela,
Somos atores do dia comum,
O grande fingidor.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

A ARTE DA ESCRITA



Reflexões sobre o ofício do escritor nos tempos da internet

Li muitas teses sobre o futuro da literatura impressa nos tempos virtuais. O prognóstico apontava para uma revolução mundial, onde os textos rápidos utilizados na rede acabariam por liquidar os antigos volumes convencionais. Felizmente, o que descobri navegando pela rede me motivou a continuar com meu sonho de ver meus livros impressos em livrarias! Sinto que o interesse pela literatura está em processo de expansão.

Estou cada vez mais impressionada com a quantidade de novos títulos que vejo expostos nas vitrines toda vez que vou a uma livraria. E estou entusiasmada com a quantidade de sites e blogs dedicados ao ofício da escrita.

É claro que haverá sempre exceções às regras, mas de modo geral, tenho encontrado textos interessantíssimos de novos autores que estão expondo seu trabalho na rede. Está se formando uma nova comunidade intelectual de jovens talentos que tem algo em comum: a conexão virtual.

Acredito que o ofício de escritor é um trabalho árduo e apaixonante. Engana-se quem pensa que a dedicação à escrita possa limitar-se aos finais de semana, como ocorre em alguns esportes. O verdadeiro escritor, aquele que escreve por paixão, sabe que grande parte do seu tempo é manipulado pelas idéias contínuas que lhe invadem o pensamento. Para colocar isso tudo em ordem, precisamos de tempo e um pouco de solidão.

Antes de ser um verdadeiro escritor, é necessário que sejamos excelentes leitores. E em uma época de extrema liberdade de expressão, nada mais normal do que a vontade de contar sua própria história. O escritor fala, põe para fora tudo o que lhe alcança o sentido. E, da mesma forma, o escritor lê e se interessa por todas as idéias que estão fervilhando ao seu redor. Antes de mais nada, o escritor procura um mundo novo. É por isso que ele escreve. E é também por esta razão que ele está sempre aberto a conhecer pessoas que compartilhem deste mesmo ideal. O escritor inspira o leitor e vice-versa.

Portanto, se você acredita num mundo com novas regras, com imensas possibilidades, onde não haja erros e acertos, mas buscas e encontros; você traz em si o potencial para desenvolver teorias e compartilhá-las com a nova nação de jovens intelectos.

O escritor não pode carregar preconceitos, não pode ter medo de expor idéias extravagantes (e até mesmo mórbidas) e, principalmente, não pode ser vulnerável à crítica de sua obra. A crítica é inevitável, mas o prazer de trazer à tona toda a impressão que em você se acumula é maior do que o ranço insensível dos julgadores de plantão.

O escritor verdadeiro crê no que conta; pois suas histórias revelam sua percepção secreta da vida.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

BOÊMIOS


A preguiça e a falta de senso
A vida em vermelho
A garrafa ainda cheia
Muitas horas a mais
O preço pago pelo sorriso
A exclusividade suposta
A falta de freio
A casa cheia
O perfume doce suspenso
A aristocracia nos guetos
Nada mais importa
O som das palavras cansadas
A desforra
Toda forma de amor se revela
Tudo é possível
A cama pronta
A noite azul
O calor
A casa em festa
Tudo à mão
A vida exposta
O excesso de brilho
A música vibrante
O imenso salão.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

A CEREJEIRA


Volto sempre ao mesmo lugar. As cerejeiras permanecem na expectativa do florescimento sublime. Seu perfume faz-me pensar sobre o sentido da obra humana. Para quê? Quando ouço as crianças sorrirem sem motivo, renovo a esperança. Mas então elas calam, e já não sei onde estou. O espetáculo da vida repleto de cores. E é assim que me assisto. Parte do elenco principal, vestindo o figurino dourado. Felicidade suprema é ver o canteiro em êxtase. As cores dos rios que transportam o espírito peregrino, a navegação absoluta, o atalho. O sol que bate em algumas janelas vivas, comove os visitantes do vilarejo. Mas nada se compara a imponência da cerejeira que em meu pensamento cresce. Apenas uma vez ao ano ela mostra sua grandeza. Apenas uma vez ao ano ela seduz. Mas apenas uma vez é o suficiente para penetrar nossas vidas e nos encher de paz. A cerejeira que desabrochou, tornou-se a razão da minha vida. O ponto alto da beleza; o ideal máximo de renovação.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

A ÓPERA DO VENTO


A migração de certas aves
O alvoroço aéreo
A aproximação constante
O território alheio e distante

O fantasma do pólo passa veloz
Permanece oculto na imensidão branca
Ouvinte atento da música natural
Cantor amador de coral e ópera

Palco de vendavais e guerras
Muito além do longínquo
Placas de neve deslocam-se
Num festival antigo e lento

Sinto saudade do que não vi
Mantenho a esperança
Sinto frio
E partilho alvas lembranças.

Na região do extremo norte
No limite do mau tempo
A ópera do vento faz-se ouvir
A seresta glacial
O fim dos tempos.

domingo, 13 de janeiro de 2008

NORTE




Não havia ninguém observando
além do horizonte congelado e distante
o vento forte cantava opera no fim do mundo
e a paisagem branca inspirava calma e silêncio

Estranha habitação de nômades carnívoros
sobrevivendo em ocas de gelo
os esquecidos do tempo moderno cultivam frias lendas
e mantém intacta a sublime corrente altiva

Eu estava só no último eixo
não havia terra seca no chão
não havia som humano
apenas o chamar contínuo do eterno vento

E o oceano radiante era o senhor da casa
mimando a vontade de alguns mamíferos
guardando tesouros complexos no seu regaço
e inundando a vida de brilho e profundo reflexo

marquei o solo com pegadas potentes
o frio extremo penetrou em mim
e tremendo por dentro fiz outro pacto divino

não plantei nenhuma semente,
mas trouxe para casa uma nova esperança;
contentamento de um hábito longínquo.

sábado, 12 de janeiro de 2008

CAMPO DE ENSAIO

A todo instante uma revolução ocorre em meio a tantos turbilhões. A couraça que nos reveste intimida o erro, que se afasta e some. Penso que a vida anda com hora marcada. Tudo a seu tempo, sempre. Percorremos fronteiras de terra sob o sol eterno e sagrado. Cremos em rituais e ritos. A cada momento o sonho se transforma. Sempre queremos mais. O espectro do que fomos ontem se dissipa e morre. Novo ser a cada dia, seguindo em frente no despertar de nova aurora. A química e o experimento juntos em fusão sublime. Tentamos tudo. Os erros e os acertos como partes intrínsecas ao caminho. Ampla exposição atrai opostos. O eterno paradoxo. Somos isto e aquilo, mas não somos rígidos. O elemento catalisador, o campo de ensaio.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

BUGANVÍLIA



Nada mais atraente do que o cheiro de fumo e o odor das flores frescas. O aroma suave que consome vidas e praças a tudo enaltece. Sento em jardins. Escrevo versos. Inspiro o ar pesado da tabacaria próxima ao porto. Sonho com o cais e velo partidas. Sempre adeus. A maioridade, os trinta anos, a descoberta do próximo estágio. A vida das florestas ofusca o mundo do crime. Sempre inocente. Que mal há em perder-se em subúrbios quentes? Passeio sem livros à mão, mas a ávida imaginação sempre me apanha. As casas coloridas e os tecidos vermelhos. Os vasos artesanais. O folclore e a fascinação. Colhi buganvílias no quintal vizinho. O sol queimou meu rosto claro e mais um dia nasceu.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

ESPERA-ME




Espera-me no último instante
Prometo que estarei contigo a tempo
Tentada estive sempre a deixá-lo
E por isto a cada passo, uma ausência

Espera-me na fronteira da ilusão
Onde os pés já não seguem atentos
Devemos mais à amargura de erros atrás
A colheita infame dos perdões e do senso

Espera-me no céu meu grande amor
Porque o paraíso acolhe o demônio ateu
Guarda em teu peito a virtude da razão
Para que sirvas de consolo no momento derradeiro

Espera-me à sombra do amanhã
Que o tempo dissimule a intenção
Para que não haja desafio nem sermão
E que tudo valha a pena.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

DIÁRIO DE UMA JORNADA INTERIOR





Sempre atenta às cores das manhãs,
minha alma exulta.
Por que não posso mais?
Por que o limite?
Quero estar viva quando a hora chegar.

Todos os dias lamento ao sol...
seu amor resplandece.
Guardo o horizonte atrás da retina ,
queimo pontes
e atravesso meu destino a pé.

Hoje à noite vou olhar o céu desnudo
e ouvir o cantar do último pássaro
capaz de habitar minha janela.
Estarei atenta à expressão do lume,
pois a falta de pressa produz o divino

Nada mais além do meu alcance,
quero estar só.
Reflito sobre o passar dos dias...
Que passa eu?
Quem passa lá fora não me vê,
nada sou.

Perto do primeiro refúgio
molho minhas mãos no sereno;
passa tudo e eu ainda só.
Camuflando o corpo e o sentido,
submetida à disciplina e ao rigor,
passa a dor.

Por trás do infinito ainda há mais?
Cega estou.
Caminho em chão de plumas que levitam,
enxergo longe.

O prisioneiro disse que a prisão o salvou...
Antes ele não era ninguém,
agora tem mais tempo e uma missão:
libertação.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Herói

Estava avesso à tudo ao transferir atitudes de medo
E sentir ecoar o som da última batalha do norte
Carregando no peito angústias tímidas
Sem assumir a própria deficiência
O limite

Fazia tempos que operava a busca insana
Se perdia e se encontrava nos fundos da velha casa
Nada a tinha a perder que à alguém já não tivesse sido entregue
Sem olhar no alto espelho
O pavor

Vivia de elaborar novas rotas
Queria chegar primeiro
Da estrada vil trouxe aos bolsos areia
Da terra plana nada de novo
O silêncio

Perto de agosto já não havia mais história de histeria
A calma perecia nos armários sagrados
A fronte sempre séria contava os dias insones
A pressa sempre aflita a escavar trevas e luz
O medo

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sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

FORA DE COMPASSO



É certo que o tempo veloz se olvida de medidas importantes. A espera crítica, a angústia, o desespero. A má educação das tribos conduzem à guerra. A fome de emoção contorna becos sem saída. Sempre à espreita. Um paradoxo contínuo. A miragem. Perco o freio e estou sempre atrasada. Pelas páginas do meu diário vermelho expresso os terrores de cada país tropical, e de cada fronteira. Posso ser mais de mim mesma, posso muito mais. A vida caminha fora de compasso. A última viagem. O adeus.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

E EU QUE ERA TUDO OU NADA...

Reconheço que muitas horas do meu dia escapam ao presente. Sou capaz de me perder em devaneios frívolos buscando a estética de alguma palavra ou caindo de amores aos pés de uma frase inédita que a mim se apresenta. É cada vez mais difícil manter a concentração em algo que se supõe sério.

Não creio ser senhora dos meus textos. Na maioria das vezes busco a folha em branco com o intuito de extravasar em verso alguma forma de alegria interna, mas isso nunca se manifesta em poesia. Quando dei por mim, já revelei entranhas.

Penso que o poeta vive duas vidas simultâneas que jamais se cruzam. Talvez a poesia tenha o dom de revelar formas, trazer algo à tona, à superfície.

O pensamento e as cores são guias condutores que se alimentam do eterno espaço vazio, constante potencial de supremo assombro.

Não sobrevivo da minha arte, mas o sonho ainda não acabou.

Quando penso em minha vida percebo que sempre fui tudo ou nada. Jamais me ofereça menos do que pode, pois a mim não interessa. Guarde as migalhas.
É triunfo ou tragédia.

O importante é ter livros à mão e histórias que deixem meus olhos rasos d’água.

Gosto de tudo que me remeta aos ideais do universo literário. Caneta, papel, estante cheia e cheiro de fumo cubano.
Edifico casas aos meus ídolos, mas não raro me sento ao jardim, por motivo de estranha humildade.

Antes era eu quem buscava a poesia, hoje sou dela refém. Pobre daquele que repete versos sem nunca arriscar algo seu. Quem clona não se traduz. A mim, nada mais aborrecido do que gente sem luz própria.

Tenho medo de perder-me na estrada dos excetos.
Desconfio do excesso de virtude e do vício.

E eu que era tudo ou nada ao meio-dia continuo seguindo meu rumo eterno de amor e de sombras. Acredito que o Universo sempre conspira a nosso favor. Acredito em anjos. Acredito que tudo acontece na hora certa. Acredito no poder absoluto de uma sincera oração. Acredito em milagres...

Falo demais, eu sei. Penso demais. Mostro demais.

Mas é sempre tudo ou nada, do contrário, não valeria à pena. Não me interessaria.