sábado, 13 de dezembro de 2008

PROGRAMA "CAIA NA REDE" - TV GUARAPARI

HORÁRIO DAS APRESENTAÇÕES

O programa Caia na Rede apresentará neste sábado o "Projeto Formando Poetas" e será reprisado no domingo e na próxima quinta-feira.

CONFIRA OS HORÁRIOS:

Sábado (13/12/08) - ás 18:00hs, na Tv Guarapari - canal 08

Domingo (14/12/08) - às 18:00 hs. na Tv Guarapari - canal 08

Quinta ( 18/12/08) - às 20:00 hs. na Tv Guarapari - canal 08

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

PROJETO "FORMANDO POETAS" NA TV GUARAPARI




PROJETO "FORMANDO POETAS" NA TV GUARAPARI

PROGRAMA "CAIA NA REDE"


Nesta quarta-feira (12/11/08), o projeto "Formando Poetas" foi a estrela do programa Caia na Rede, da TV Guarapari.

O programa foi gravado pela manhã, no local de funcionamento do Salvamar, e deverá ir ao ar no próximo sábado às 18:00h.

Os jovens poetas comandaram o show! Deram entrevistas e declamaram poemas de própria autoria e de autoria de poetas famosos mundialmente, como o chileno Pablo Neruda.

O projeto agora conta com a presença dos alunos de judô. Aprender poesia tornou-se requisito fundamental para mudança de faixa destes jovens atletas.

O projeto "Formando Poetas" funciona todas as sexta-feiras, às 9:00 na casa do Projeto Salvamar no bairro de Perocão.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

A CABRA E A SERPENTE


No alto da montanha imponente,
o mais alto atalho conquistado sem pressa,
Cabra montanhesa observa com desdém,
a Serpente astuta que a observa abaixo.

Sou cabra e serpente nos dias normais,
subo devagar a escadaria da subversão,
não me atenho ao medo de outras alturas,
não me atenho ao som que provenha de outra fonte,
senão de minha alma voraz.

Sou serpente nas manhãs sem sol,
espreguiçando lenta, ausente, distante,
mas se minha mente ainda é presente ,
sei exatamente onde estou.

Sou cabra no pasto verde que afugenta o tempo,
sinto o alvoroço do vento em minha superfície lisa,
guiada pelo ar do pastor que, de tanto optar pela fé,
alcançou a pureza perdida pelo homem do centro.

Sou cabra e serpente no cair da noite sem pais,
não me movo à toa sem intentos concretos,
nem queixo ao norte,
minhas lamúrias tristes.

Nasci assim selvagem,
sob o signo da cabra montanhesa que nunca descansa,
e da serpente de fogo que jamais me queima.
Sou cabra e serpente no raiar e dormir do dia,
sou terra e fogo em perfeita harmonia.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

PROJETO "FORMANDO POETAS"



PROJETO "FORMANDO POETAS" em Guarapari/ES.


O projeto, idealizado por mim ,tem por finalidade estimular o interesse pela leitura, pela escrita, pela arte e pela produção literária nos jovens estudantes.


Nós, escritores, temos um papel decisivo na formação de um novo Brasil. Ansiamos por melhorias na Educação e esperamos contribuir para o desenvolvimento de novos métodos de ensino, promovendo efetiva mudança no pensamento juvenil.


A poesia é um recurso íncrivel para o ensino da língua portuguesa! Mais do que belas palavras, o poema nos estimula a sonhar, amplia nossa imaginação e nos emociona.


A Salvamar é mantida por diversas empresas e algumas pessoas físicas, oferecendo um ambiente propício para a formação de nossos jovens, foi por este motivo que escolhemos este local para o desenvolvimento deste trabalho.

Desejo cumprir a promessa do projeto formando jovens poetas apaixonados pela palavra, pela emoção e pela beleza da língua portuguesa!


Tamara Ramos

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O POETA QUE VEIO DO MAR


O POETA QUE VEIO DO MAR
(Tamara Ramos)
Homenagem a Vicente Bojovski

Sinto saudade da terra distante que abandonei ao mar,
na memória de outras vilas me perdi,
cantando canções de livramento à beira de outras águas,
enviando cartas de amor a Zeus.

Pois da alma nobre surgiu a história mais bela,
de um povo acordado por versos azuis,
trazendo mais à minha alma que espaçosa morada.

E cada vez mais a história de minha vida se acende,
percorrendo areias de ilhas longínquas,
permanecendo alheio a tristeza e a dor.

Aprendi a ser feliz nadando na mesma fonte dos corais adornos,
que de tanto namorar o sol,
resplandeceu na órbita de meus encantamentos.

Porém longe de minha aldeia apenas meu corpo está,
pois como uma casa de rodas forasteiras,
nas costas de trabalho árduo a trago sem alças.

Fui mais longe ainda que o corsário audaz,
voei mais alto do que o corvo amigo que em certas horas confusas,
não me reconheceu como a um seu,
pois sendo ainda filho da Macedônia imaginária,
sou digno do chão que pisou meus ancestrais.

Mas o Brasil apareceu não sei de onde,
e de praia em praia seqüestrou meus sonhos rígidos,
como a mulher ciumenta que amarra seu homem,
prendeu meu corpo na razão do vento.

Sou poeta e minhas palavras encantam o som desta vila nova,
caminho apátrida na imensidão deste solo hoje íntimo,
sei mais do amor deste céu de estrelas do que canta a voz do sabiá,
e por ser inteiro na arte de viver sem medo,
casei-me com duas moças distintas no rito e na cor:
uma mensageira amiga de Alexandre, desconhecedor de limites;
outra festeira e linda sob os braços abertos do viril Redentor.

Sou habitante de todos os lares,
carrego comigo os assombros do mundo,
da pobreza ganhei o ouro de sonhar nas alturas,
da riqueza ganhei prestígio, merecimento e ardor.

Faz tempo que não ouço o canto de minha gente,
mas no recanto oculto escuto a cantiga que a vida traz,
e sendo assim marinheiro do azul estrangeiro,
faço deste horizonte esplêndido
o refúgio da minha paz.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

GAROTA DA CAPA


No dia 29/08 o Diário do Litoral de Santos/SP me deu a honra de ser a garota da capa!
A matéria falou sobre as dificuldades do trabalho do poeta, sobre a minha vida escolar , minha relação de amor e saudade com a cidade de Santos, com a poesia e com a arte da escrita.
Obrigada Santos!
Obrigada à jornalista Paula De Donato pela linda matéria!
Tamara Ramos

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

A CARAVANA




Atravessei o deserto seco que mora em mim,
milhas e milhas de abandono íntimo,
nevascas de paradoxos,
contradições de ilusões.

Caminhei dias sem água,
o rebanho agarrado aos sonhos da minha alma,
quieto permaneceu.

Meu suor desfeito irrigou o deserto antigo,
e de gota em gota,
a esperança arrefeceu.

Atravessei o deserto longe que mora em mim,
sem noção do tempo,
sem perder as horas,
numa prece prossegui.

Apenas no último dia a caravana deu por mim,
e mesmo entendendo que eu estava perdido,
me abençoou e partiu.







quinta-feira, 4 de setembro de 2008

QUERO MAIS DE MIM MESMO

Quero mais de mim mesmo no acordar do dia,
quero ver o que o herói esconde,
as frases que dissimulam,
os olhares que atordoam,
a voz que mente.

Quero entender a melancolia de alguns dias,
as palavras frias que ferem,
o chão que ninguém pisa,
a nevasca interior,
o auto-exílio.

Quero mais do que meu corpo aguenta,
uma escalada em fúria,
mergulho fundo no oceano índico,
seduzir tempestades e,
deitar o corpo nu,
na lava que a ninguém queima.

Quero mais de mim mesmo no descer da noite,
ofuscar estrelas que brilham,
cantar poesia ao forasteiro aflito,
embalar crianças que nunca dormem,
experimentar a vida que já não é minha.

PERMITA-ME

Permita-me adentrar muralhas sagradas,
perambular por ruas soturnas de guetos,
fazer fantasias matinais sob o sol lento,
roubar tesouros terrenos em outras arenas,
cavar poço fundo de flores, amor e silêncio.


Quero nascer na fonte de rubis cristalinos,
comemorar o destino que me detém em segredo,
escrever belos poemas com tinta e seiva,
celebrar noventa anos de erotismo e lendas.


Hoje sou gueixa na memória do tempo,
escondi meu talento sob fogos de artifícios,
explodi corações famintos de cores e beijos,
e namorei sozinha meus ancestrais.


Permita-me compartilhar o embuste da jovem,
porque enquanto há eterna vida,
ninguém se lamenta,
posto que a pele é seda
e o sabor é mel.


Foi de iludir aos poucos que me fiz rainha,
cantando hinos doces em homenagem ao céu,
triunfei sem saber sobre a aurora bendita,
amanheci plena da sorte,
revigorada e viva,
da arte de ser mulher.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

EVENTO ANTOLOGIA DELICATTA - SP








O evento de lançamento do livro de poesias e contos "Antologia Delicatta III", do qual participei como autora de dois poemas, contou com a presença do poeta português Manoel Paulo (foto) , que veio à SP pela primeira vez para prestigiar a obra!
Sinto-me muito honrada por participar desta coletânea que tem por finalidade revelar os novos talentos literários brasileiros. A poesia é a forma mais bela que o homem encontrou de expressar-se desde a antiguidade.
Toda a história da evolução humana é permeada pela coletânea de obras poéticas que mantiveram vivas a cultura, o pensamento e a arte de várias civilizações. Poetas ilustres como HOMERO (na Grécia) e RUMI (na antiga Pérsia), elevaram o poema à categoria de verdadeiras obras de arte!
Obrigada à todos os colaboradores da Antologia Delicatta III e, especialmente, à Luiza Moreira, organizadora do evento, pela fantástica oportunidade de ver meus escritos publicados!
Tamara Ramos



ANTOLOGIA DELICATTA III


No dia 16/08/2008 a Editora Scortecci, em parceria com a Associação Cecina Moreira, lançou nova antologia de poesias Delicatta III.

Dois poemas de minha autoria foram selecionados para integrarem o belíssimo livro: "E eu que era tudo ou nada ao meio-dia" e o poema em homenagem a um dos meus ídolos literários Gabriel García Marquez: "De volta ao jardim das flores".

O evento contou com a participação de 200 autores representando o Brasil todo. A festa de lançamento se deu no hotel Brasilia Small Town, em São Paulo. Houve declamações de poesias e premiações.

O dia da festa foi muito especial, pois até o céu nos presenteou com um eclipse lunar!

O livro Antologia Delicatta III está à venda no site da Scortecci: http://www.scortecci.com.br/ ,
no valor de R$ 30,00.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

JORNAL "A TRIBUNA" DE SANTOS/SP - 21/08

POESIA

Santista está
em antologia


DA REDAÇÃO

A santistaTamaraRamos mora
há cinco anos no Espírito
Santo, mas é a representante
da Cidade na coletânea Delicatta3,
com “E eu que EraTudo
ou Nada ao Meio-Dia” e “De
Volta ao Jardim das Flores”.O
livro, que reúne poesias de
todo o País, foi lançado na
20ªBienaldo Livro de SP.
Desde dezembro Tamara
reúne seus textos no blog
www.tamara-ramos.blogspot.
com. Foi a partir do blog
que a organização da coletânea se
interessou por seus trabalhos.
As duas poesias dela
que integram Delicatta 3 estão
lá, além de muitas outras
e links para diversos sites de poesias.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

DOIS AMANTES NO JARDIM DO IMPERADOR


Dois amantes no jardim do imperador,
ocultando a luxúria e os maus pensamentos,
cobertos de seda vermelha impregnado de ardor,
febre e fragância expostas ao precipício terreno.
Éramos senhores do sol,
a cada dor uma alegoria prece,
e a cura que jamais tarda,
o sentido e o calor.
A concubina vestida de ouro indigno,
sucumbiu ao desejo real,
coberta de jasmim e lótus,
permitiu escravizar-se ao final do ano nu.
Dois amantes no jardim secreto da antiga era,
a multidão fingiu não ver,
a tolerância e o esquecimento previsto,
o eterno não ser.

domingo, 27 de julho de 2008

AUTOENTREVISTA


AUTOENTREVISTA

P. Como escolhe os temas de suas poesias?
R: Creio que nunca escolhemos os temas com muita liberdade. É claro que podemos estar envolvido com algum projeto ou idéia e isso acaba por nos inspirar um trabalho. Mesmo assim, penso que a poesia – e deve ocorrer com outras obras de ficção literária – se apresenta a nós. Geralmente começo por uma frase que mal sei de onde vem, mas que me persegue até o momento em que eu decida parar e lhe dar a devida atenção.

P. Há algo de autobiográfico no seu trabalho ou é pura ficção? Anne Sexton costumava dizer que escrever poesias revelava o self. Concorda com esta afirmação?
R: Sim. Meu trabalho é extremamente autobiográfico, mas isso não está reduzido às possibilidades da realidade. Creio ser real todo pensamento e forma de percepção do mundo. Algumas vezes relato coisas que nunca vivi no mundo real, mas que de alguma forma, me são íntimas pelos sentidos. A ficção ocorre no momento da formatação do texto. Usamos alguns subterfúgios que nos ajudam a encaixar certos conceitos o que, se colocado de outra forma, tornar-se-ia absolutamente inverossímil. Referente ao desbravamento do self no momento em que se escreve, penso que Anne Sexton tinha razão. O poeta explora a própria alma, busca razões que justifiquem seu ponto de vista e lida bem com as emoções. O ato de escrever pode substituir a terapia convencional.
.
P. Quem são os autores que te inspiram?
R: Meu primeiro amor foi Fernando Pessoa. Aquele pessimismo crônico permitiu que ele se desnudasse de uma forma cruel e bela. Gosto do seu texto pela simplicidade e pela forma com que organiza suas idéias. Pessoa me motiva a escrever desde os 17 anos de idade. E ainda hoje mantenho seus poemas na minha mesa de cabeceira. Outro poeta que eu adoro é Pablo Neruda. Neruda extraiu um pouco do romantismo que estava meio escondido em meu subconsciente. Penso que sua obra é de uma beleza poética inigualável. É possível sentir aromas quando se lê seus versos! Também aprecio a poesia de Apollinaire, Maiakovski, Hilda Hilst, Vinícius de Morais e Rilke, mas com certeza não citei todos. E com o mesmo prazer leio obras de autores desconhecidos, pois penso que a poesia é uma das mais belas formas de expressão da humanidade.

P. Há algum ritual no momento de preparar um verso?
R: No começo eu gostava de escrever a mão e colecionar os manuscritos. Hoje faço tudo no computador. Não há um ritual específico, mas dependo do momento da chegada da inspiração. Posso passar meses sofrendo com a “crise do branco”.

P. Por que decidiu lançar o livro na internet ao invés de seguir o padrão convencional de enviar às editoras?
R: Vejo a internet hoje como o meio mais eficaz de divulgação midiático. O que está na rede, está no mundo. Atualmente, vários grupos musicais, autores, fotógrafos e também poetas, estão aproveitando a internet como um instrumento de publicidade. Achei que seria interessante lançar meu trabalho primeiro virtualmente. Afinal, os internautas formaram uma nova sociedade muito antenada às transformações que estão ocorrendo em todos os segmentos artísticos. O livro original é composto de 75 poemas, aqui no site só há 20. A idéia era criar uma pequena mostra do trabalho. A internet é uma seara aberta a todo tipo de inovação e é de graça!


P. Conte-nos um pouco da sua trajetória literária.
R: Eu sou uma eterna buscadora. Apaixonei-me pelos livros ainda menina, e esta chama nunca se apagou. Acho que o melhor caminho para se tornar um escritor, é ser um bom leitor. Quando você ama a literatura e a respeita, esta passa a ser parte de você. Iniciei meu trajeto como uma leitora voraz. Com o tempo fui sentindo necessidade de relatar minhas impressões. Eu nunca me senti à vontade copiando a idéia dos outros. Por mais fantásticas que fossem não eram minhas. Sempre busquei a originalidade, a legitimidade das opiniões. A autenticidade me interessa muito.

P. Crê que a poesia também é uma forma de manifestação artística?
R: Sim. É diferente de uma pintura, escritura ou uma produção musical. Mas afinal, o que é a arte? Não é a manifestação dos sentidos? Desta forma, creio que a poesia se encaixe neste perfil. O autor também se utiliza de cores e sons para formular suas histórias. Também partimos da tela em branco.

P. É verdade que é formada em fotografia? De que modo a fotografia interfere no seu trabalho escrito?
R: Comecei a fotografar aos 11 anos de idade, quando ganhei uma máquina fotográfica de uma parenta. Fiquei deslumbrada! Tornei-me obcecada, não queria fazer outra coisa. Aos 14 anos expus meu primeiro trabalho fotográfico na cidade de Santos, onde nasci. Herdei do meu pai meu primeiro equipamento profissional, pois ele também era fotógrafo e pintor. Acredito que a fotografia molda o trabalho poético. A opção de colorir o site com fotos foi planejada. Acho que a foto colabora com a produção do conceito, da idéia que ser quer passar com os textos escritos. São formas que se complementam.


P. Por que decidiu autoentrevistar-se?
R: A idéia da autoentrevista é de Pedro Almodóvar. No seu site oficial ele mesmo elabora as perguntas que vai responder. Almodóvar é o meu cineasta preferido. Sou obcecada pelo seu trabalho. Quando assisto a um dos seus filmes, perco o sono por alguns dias. A trama fica impregnada em mim, bem como as cores e a trilha sonora. Creio que minha poesia tem esta carga de sentimento e de cores dramática que ele pinta em seus filmes. Meio trágico, muito intenso. Com a autoentrevista posso revelar um pouco das minhas idéias de uma forma mais didática e personificada.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

TODA A IMENSIDÃO QUE NUNCA SE CANSA


Toda a imensidão que nunca se cansa,
somos nós,
viajantes humanos a invejar a liberdade das aves,
sonhamos voar.
Além-mar,
sobre todas as coisas vagar,
permitir molhar-se às vezes,
inundar.

ONTEM


Ontem o sol saiu mais cedo,
acima do arco-íris azul,
incendiando a manhã de prata,
antes que parta o calor que seu corpo deixou.

Ontem a noite tardou a nascer,
entre brumas passageiras que desconfiam de ti,
andavam sozinhas distantes do céu,
como se caíssem do firmamento a cada negro minuto.

Ontem a luz da lua ofuscou o pássaro audaz,
e imune à dor, renunciou e voou,
sobrevoou as casas que desafiam o horizonte,
e longe daqui pereceu e chorou.

Ontem a praça estava repleta de amor,
entre crianças e jovens senhoras o luau começou,
abrindo no espaço a vastidão do destino,
como sempre foi,
como sempre mostrou.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

NÃO DURMAS

Para Mônica Ramos, que sua alma descanse em paz.

Não durmas na escuridão deste quarto novo,
abra a janela para a brisa abençoar seu céu,
que de estrelas coloridas transformou a vida de quem te amou,
e para sempre,
nesta estrada falsa de asfalto fresco,
jamais pisar em vão para que não se queime.


Não durmas na virada do ano,
os amigos a esperam em constante vigília,
para que sua alma transborde a vida que conhecemos,
que aprendemos com você,
para seguirmos cantando.


Não durmas profundamente pois te chamarei em breve,
venha comigo ver o dia lindo que faz hoje,
e as crianças que deixastes sem rumo,
precisarão de novo de ti,
para que virem grandes homens,
e grandes mulheres.


Não durmas pela eternidade, Mônica,
não durmas longe de nós.

terça-feira, 10 de junho de 2008

SOB O VÉU NEGRO



Sob o véu negro a vida passa em cores,
as alegrias da areia,
as negras vestes,
o limbo entre o ontem e o amanhecer.

Nada mais a esconder daquele homem estranho,
noturna sou plena de estrelas,
alcanço altas constelações
de esmeraldas e encantos.

Envolta em mortalha negra,
dissimulo a imaginação de muitas horas,
trabalho em sonhos ocultos,
e nada mais revelo.

O portal do paraíso se abrirá um dia,
para que todos entrem nus.

Sob o véu negro safiras se escondem,
a pele adocicada e o ouro,
o imenso calor,
os devaneios de mulheres comuns.

Filha de muitas mães,
oprimidas pelo sexo oposto,
o sexo insolente e fraco,
os homens de branco.

Moro em dunas de areia e névoa,
escrevo histórias de mundos distantes,
leio poesias e grandes poetas,
sob o véu negro,
sou odalisca imortal.



quinta-feira, 29 de maio de 2008

AO QUE NÃO FUI

Tamara Ramos

Para C.


"É tarde, tarde. E sigo. Sigo com um exemplo
atrás do outro sem saber qual é a moral,
porque de tantas vidas que tive estou ausente
e sou, agora sou aquele homem que fui."
Pablo Neruda
(Memorial de Isla Negra)


Sinto saudade de tudo o que não vivi
entre montes e ruas dispersas
sempre ao longe aquele som
desconhecido de minha alma.

Permaneci repleto de luas,
sob a noite escura que jamais se espanta,
o fundo aterro que já não me esconde,
os anos idos.

E eu, à margem de outro rio,
passei.

Nada havia de molhado em mim,
mas submerso em lembranças do que não fui,
entornei e chorei.

Soube mais da maré do que o mar,
me fiz homem sozinho,
sem mães, sem amarras;
me fiz só.

Nada em mim se lança além do que canto e ouço,
vivo ao vivo,
vivo só,
sorrateiro arrasto as asas da ave que não fui,
porém noturno,
acendo o candeeiro ao futuro,
aquele futuro que aguarda a minha coragem.

Mas cadê? Cadê?
Hoje à sós não sei quem sou,
temendo o amanhã de ferro que me endurece a fronte.

E há os abraços que não ganhei,
e há as noites que não dormi,
e há o porvir de outros encontros.

Tenho saudade do que não vivi,
e ainda encantado pelo brilho do último lamento,
sinto a falta do talvez,
e do primeiro adeus.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

NÃO POSSO MAIS ESCREVER VERSOS TARDIOS


Não posso mais escrever versos tardios
que iluminam o céu amarelo,
nas noites sem escuridão.

Não posso mais ceder à falsa memória,
que de outros tempos nada me lembro,
e castigo o tempo que cala o som,
e absorve a esmo a última fala.

Não posso mais animar a festa de junho
a cantar músicas de passadeiras,
que de tanto queimarem as mãos,
já a ninguém cumprimentam.

Não posso adentrar secretos refúgios
outrora nosso,
se no final de cada esquina
esbarro em algo que não me pertence.

Não posso mais escrever versos tardios,
se minha poesia não muda meu mundo.

Não posso mais esperar as horas perdidas
quando tudo a mim passa,
passo eu à margem ,
e o sonho me escapa entre os dedos.

Não posso mais ver flores sem primavera,
em cada jardim interno que me rouba o sono.

Não posso mais viver contando os passos,
os limites, e os abismos,
buscando ruas escuras
onde ninguém me pode ver.

Não posso mais escrever versos tardios,
se minha poesia não pode mudar o meu mundo.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

AO MEDO QUE ME AQUECE


Sinto o calor de suas mãos a minha volta,
Olho em volta,
O continente paralisa,
A vida pára.

Falo alto na espera de ouvir,
O eco da mesma resposta clara,
Meu próprio som,
Só.

Quero ir além da montanha escura,
Cruzar a fronteira ao norte,
Iniciar nova jornada,
Ir.

Sinto frio na derradeira escalada,
Minhas pernas tremem,
Convido o fogo a queimar-me,
A eterna chama.

E celebrando o medo que me aquece,
Permaneço em pé,
Parado,
Imune.

Lá dentro a voz que não se cala,
Agora grita,
Alto,
alto.

Sou forasteiro ferido pela onda azul,
Náufrago a pedir consolo em terra estranha,
E seguindo a corrente que me carrega ao sul,
Retorno.

Perdi o mapa da viagem,
Ando a esmo.
Perdi o sentido da caminhada,
Volto.

Mas quando volto já não reconheço,
Outrora lugar da partida,
Meus companheiros reclamam uma ausência frívola.

Ao medo que me aquece,
Meus cumprimentos!
A voz que não se cala,
Minha gratidão.

sábado, 26 de abril de 2008

PROFISSÃO: POETA

PROFISSÃO: POETA

A manifestação artística acompanha a trajetória evolutiva do pensamento humano desde tempos imemoriais. O traço mais marcante do homem é sua capacidade de traduzir esteticamente suas impressões do cotidiano social e da própria criação que conhecemos como vida.

A arte sempre foi um instrumento utilizado pelos homens mais sensíveis ao sentimento oculto de libertação da alma. O homem que cria, é o homem que crê que há algo mais ao redor além do que ele pode sentir ou ver. A criação artística é uma forma belíssima de transcendência revolucionária.

A poesia, como expressão artística e instrumento de contestação, foi desenvolvida ao longo da história e acabou por gerar uma produção riquíssima do pensamento e das paixões humanas. O poeta é o ator verbal. É aquele que vive outras vidas e contesta o caos de seu tempo. O poeta é o homem que não se corrompe, que não se submete às atrocidades ditatoriais e infames de seu governo, que mantém a crença desmedida no amor e que duvida da constância estática dos desejos humanos. O poeta não se surpreende com os paradoxos inerentes à existência do ser, nem julga com mãos de ferro os erros humanos . O poeta ri da tolice configurada nas sociedades inventadas e retira-se ante ao desprezo da massa incauta. Ele sabe que é alvo da fúria dos tolos e à ela não se curvará.

O pintor que exagera nas cores e deforma a realidade aparente, é um homem que voa. O escultor que contorce o bronze até que ele vire algo que lhe agrade, é um homem de fé. O cantor que solta sua voz sem medo transcende o limite da razão humana. E o poeta que se utiliza da linguagem para expressar em verso as controvérsias e as belezas da vida que vê, é um herói.

Sei de poetas que ganhavam a vida com um ofício estranho à poesia. Não me canso de pensar sobre a sua sobrevivência. Será que viviam entediados ao executarem tarefas comuns ou lhes agradava viver como um homem manso? Será que Pessoa distraía-se em seus devaneios durante alguma reunião obrigatória ; capaz de prestar o mínimo de atenção ao discurso inútil?

O poeta é um profissional idealista. O artista que se submete à censura sentirá vergonha do próprio pincel. O poeta que clama por liberdade não poderá manter-se preso.
A escolha da profissão deverá estar ligada às convicções pessoais do aspirante. O escritor nem sempre agradará aos membros da sociedade a qual também está inserido. Em não raros casos, ele causará sentimentos de repulsão e ódio, porque não lhe cabe enquadrar-se. De igual forma não poderá poupar seus afetos da crítica audaz de sua pena. Um amor que acaba ver-se-á exposto e, talvez, transfigurado num poema. Uma sociedade que se finaliza poderá ser referência numa próxima obra do sócio/autor. O artista sempre revelará suas impressões sobre suas experiências pessoais com certo distanciamento.

Quer saber dos amores de Picasso? Veja de que forma retratou suas musas e compreenderá seus sentimentos. Quer saber da impressão que causavam à Pessoa seus amigos? Leia seus poemas. Quer entender o que pensava Maiakovski de seu país? Procure seus escritos. Não há como fugir. Estará tudo ali exposto como as entranhas de um animal que terá seus órgãos consumidos após o abate.

Portanto, pense muito bem até que ponto está pronto a revelar-se. Ou desista deste árduo e solitário caminho. Há uma única maneira de vivenciar esta profissão: entregando-se por inteiro ou à ela renunciando.

sábado, 19 de abril de 2008

MATA-ME


Quero morrer de um amor sem consolo,
olhar para trás e ver tudo perdido,
toda esperança,
a elegância,
a minha insatisfação.

Quero ouvir palavras duras de arena,
sentir nas costas o penetrar do abate,
ter as mãos cerradas,
e o coração em aflição.

Quero amar como um touro em combate,
que se entrega ao show infame,
feito um palhaço aos pedaços,
que ri por dinheiro.

Quero ter a atenção da imprensa maldita,
ver a derrota exposta ,
ter o vestido manchado de sangue,
e a dignidade rompida.

Quero ver o outro lado da vida,
conhecer o que se esconde,
pisar hotéis proibidos,
saber do pavor e do medo.

Quero ver algo que não se mostra,
que não seja singelo,
o que ninguém conta,
o que não se vê.

Quero saber dos contos de finais infelizes,
do que não era mesmo para ser,
do que o bandido traz por dentro,
a selva do precipício e o poder.

Quero ver gente de aço,
homens que dormem em camas imundas,
a expressão dos desavisados,
a alma que jamais se encanta.

Quero saber dos horrores de algum beco,
da vida na esquina,
do comércio ilícito,
dos que pagam e a quem possuem.

Mata-me com algum tempero,
forre o chão com meus escritos inúteis,
e enterre o poeta para sempre,
no rancor do anonimato.

domingo, 6 de abril de 2008

MINHA VIDA SEM MIM.



MINHA VIDA SEM MIM

Por Tamara Ramos


“Prudência?
Abandonar sua mulher, seus filhos, residência,
Poder. Deixar tudo e partir deste modo?
O medo é tudo e nada o amor.
Quão ínfima é a prudência, em verdade, senhor,
Quando a fuga se faz a despeito de toda a razão.”
Shakespeare, MACBETH.



Passado alguns anos viu-se só, na ampla sala de visitas de sua propriedade e, por um décimo de segundo, sentiu-se visita também.

Sim, somos amigos. Mas a história dele confunde-se à dos últimos heróis. Não o conheci antes da calcificação do mito. Já no primeiro contato, a hierarquia fez-se clara: eu, ninguém importante; ele, senhor de um império exigente.

O silêncio presente no funeral de sonhos antigos nos aproximou. A inquietação das pernas que nunca se cansam, o prazer de contar histórias pessoais em voz alta, a luta por um ideal. Não o censuro.

Estivemos juntos há alguns anos neste mesmo lugar cercado por vigias à paisana. Pela primeira vez vi a imobilidade das convenções, as reuniões que nunca terminam, a solidão de alguns jantares, as extensas agonias, algumas alegrias antes que o dia se encerre.

Pensei que teríamos um pouco mais de tempo esta noite. O avesso da discórdia no cair do dia, o aconchego breve, o esperado encontro, o “finalmente à sós”. Pena que nada mais é verdade, nenhuma expectativa, nenhum rancor.

Os outros vivem a vida que foi dele um dia, querem sempre mais, e nesta confusão de identidade e espaço, os outros ao redor dele, sempre me arranham.

Ele diz que está em débito com o outro que, por um descaso negligente, traiu. O outro que era ele mesmo, e já não se sabe onde mora.

Sim, somos amigos. Mas é com o outro que me permito sonhar às vezes, é com os olhos do outro que os meus querem cruzar; talvez seja mais fácil amar este outro que não é exatamente ele.
Ele diz que ainda é possível mudar o mundo ou torná-lo melhor, não sei. Na verdade não sei bem no que ele acredita. Não sei o que pensa do amor. Ele diz muitas coisas. Fala, e fala, e fala... mas a vida dele sem ele é uma possibilidade inerte que não me alcança.

Pena que agora as grades são de ferro. Mas foi ele mesmo quem mandou comprar o aço. Agora não pode mais escapar. Nos curtos momentos em que vê a luz do dia, ainda escuta o sermão austero do seu pai. A mulher que não se ama, a prole exigente demais, a vida pessoal que virou Instituição pública, a culpa pelos erros do passado, a autocomiseração. A vida não é mais dele, mas dela ainda não pode se ausentar.

Minha vida sem mim é uma casa de luz apagada; a vida dele sem ele é algo normal; minha vida sem ele perde a cor; a vida dele sem mim é fato real.
Procuro encontrar palavra que o defina.

Ele dividiu sua vida em três partes distintas: a sobrevivência na favela, Marx e o projeto Educação. Experiências dele que não são bem ele, mas contidas nele estão.

E tem os filhos também, algo além da revolução. E tem o discurso e o partido, e as muitas contas, os projetos sempre em expansão, e tem o cafezal, e tem um violão no meio disso tudo que, felizmente, ainda toca. Ah sim, há uma mulher. Na verdade, duas ou três mulheres. E há um casamento de aparência, e uma mulher que se foi, e uma poetisa que ainda espera. E há a ilusão constante de que sua vida se resume a isso. E há o medo do novo. E há a habitualidade da escravidão.

Esta não é uma história de amor ou desamor, mas um breve relato de vida. Uma vida que não é minha e nem exclusivamente dele. Mas a vida é mesmo assim, feita de paradoxos que não tem fim. Não creio que ele seja infeliz, mas sei que algo lhe falta. Todos dependem dele, mas a integridade de sua alma depende do encontro com o outro. O outro que ele esqueceu; o outro que mora sozinho em algum lugar; o outro que é mais leve e, talvez por isso, mais feliz; o outro que ele insiste em rejeitar.

Sim, somos amigos. Mas nossa amizade às vezes, sustenta-se por um frágil fio. Às vezes preciso desesperadamente dele, e é aí que lamento por não ter acesso ao outro. Às vezes a amizade precisa de um cuidado maior, de atenção e amor. Talvez um dia ele cruze o outro em alguma esquina do tempo, e então consiga aprender algo novo.

Sim, somos amigos. É por isso que me exponho tanto. Porque minha vida sem mim é casa de luz apagada, mas minha vida sem ele é um black-out total.

sábado, 5 de abril de 2008

ESTOU NO LIMITE


Estou no limite do desassossego,
cara a cara com a angústia infinita,
enfrentando o mau tempo e o medo,
desafiando os contrários e os erros.
Estou no limite desta terra estranha,
em busca de algo mais nítido,
capaz de assombrar o bom senso
e os seus extravagantes e ordinários adereços.
Estou no limite da fadiga,
no fim do engodo e do jeito,
à contragosto,
e insatisfeito.
Estou no limite da paciência,
há um triz de puxar o gatilho,
no último momento do encantamento,
no funeral dos antigos sonhos
e da maldita prudência.

EU ACREDITO!

Eu acredito na palavra inesperada,
no amor do bandido,
na cama meio pronta,
no alçar de certos võos,
nos antigos sacrifícios.

Eu acredito em milagres fascinantes,
em jogos de amor platônico,
em desejos ultra-secretos,
em coletâneas de contos proibidos,
em crimes e castigos amorais.

Eu acredito que posso ter mais da vida,
que minhas asas me farão voar um dia,
minhas palavras levitarão,
meu quarto se encherá de vida,
e que meu corpo e coração pulsarão.

Eu acredito nas tramas do destino,
que tudo tem uma certa sina,
nas ilusões que excitam,
na vontade própria,
e no poder divino.

Eu acredito em tudo isso...e você?
No que acredita?

domingo, 23 de março de 2008

MARINA DE LA HAVANA


Foi numa tarde vermelha de verão,
trazendo flores em mãos,
que Marina tocou a sombra da arte e,
em louvor ao sol de Havana,
espantou o sono do dia.

Trajando vestido rendado,
pisando a terra de origem,
cruzou a última fronteira,
unindo em canções duas nações.

Caminhando à pé pelas ruas do país,
viu crianças sorrindo,
e mulheres que amam homens que bailam
ao som de antigas rumbas.

Da liberdade plena fez-se hóspede,
dançando, cantando, sonhando,
e compondo ao farol distante,
mais uma nota pro mar.

Foi numa tarde ardente de verão,
trazendo flores em mãos,
que Marina tocou a sombra da arte e,
em louvor ao sol de Havana,
pôs a alma de Cuba no coração do Brasil.

sábado, 22 de março de 2008

O LAMENTO DO POETA



E ela percorria os quartos vermelhos atenta à cada impressão,
e visitava ambientes quentes,
colhendo nobres insultos,
cruzando o portal do amor e do medo.

Não era eu quem ali permanecia,
um vulto de mim mesmo,
agarrado à beleza da firme renúncia,
devorando a noite por trás do espelho.

A cada hora uma vigília muda,
uma autopreservação doente,
a fome do alimento comum,
o sagrado leite.

Ninguém ofereceu abrigo no feriado,
por isso declarei meu amor aos livros,
li para mim mesmo,
e relatei aos sonhos o desassossego.

Revirei-me na cama fria,
no quarto, o ruído dos turistas lá fora,
a felicidade imprudente,
e a passividade da fraqueza incoerente.

Queria ter alguém para conversar,
sobre a brevidade do tempo,
a fascinação dos mitos do Oriente,
o tão estimado Tao.

Mas a música alta lá fora,
determina o tamanho do meu sofrimento,
me obrigando a partilhar o tumulto do mundo,
com estranhos que jamais considerei como os meus.

sexta-feira, 21 de março de 2008

A VOZ DO POETA

E o poeta percorre ruas imaginárias e transforma em pedra o passado que o atormenta. Transita por vielas amarelas sob o toque de algum sol melancólico e traduz o som da vida aflita em canções de mar. Nada do que vê viveu intensamente, mas sentiu de perto tudo aquilo que contou. Atrás das cores esmaecidas do outro Oriente; aquele que de memórias e histórias tornou-se seu. À altura de novos heróis enfrentando demônios mitológicos, o poeta revela o que nunca lhe aconteceu. Conta sobre o tudo e o nada ao meio-dia, à luz da aurora, ao silencioso amanhecer . Visita a poesia estrangeira em busca de algo familiar... e subitamente, encontra parentes próximos nas folhas da sublime literatura humana. O poeta exigente não se cala nunca, ainda que mais nada tenha a dizer.

quinta-feira, 13 de março de 2008

AND I WHO WAS EVERYTHING OR NOTHING AT NOON



(Traduzido por MAIDA OLIVEIRA)


And i who was everything or nothing at noon
who sang the rain to the cold winter,
who dragged your name to the chaos feet,
who walked alone and naked,
beneath the sun of my street.

And i who loved everyone while I gazed upon life,
who hated the south wind of Saturday afternoons,
who grieved over death and celebrated life,
who changed so many dreams for precious books,
who hanged around for nothing,
beneath the moon of my useless time.

I, that cursed offenses on a Friday the thirteenth,
who loathed the lack of luck in the world,
and envied blond girls,
i sleep today at eternal rumba’s sound,
i wear red at six in the morning,
and black,
beneath the sun of my fate.

I, who never grieved over my nonsense,
who never granted back from my strict conceptions,
who from absolute certainties woke up in green valleys,
and listened to the solemn “ouch” from the virgin whores,
shedding blood when I was a child,
today I walk slowly,
beneath the moon of red stories.

And today everything here is memory and forgetfulness,
my house is too small
my friends no longer say the letters of my name,
And now i make the street below a broadway
and I still walk at no hurry,
beneath the sun and the moon of my shabby way.

BACK TO THE FLOWER GARDEN



(Traduzido por MAIDA OLIVEIRA)


It was on that wet summer night
that i return to the flower garden,
I walked through Frida’s home,
and drank tequila to accompany the oldest of men.

The colors were alive in that garden,
and the sun took some time to set,
covering my enchanted face golden,
while my hot red blood wandered inside me,
my burning womb desired ardently in all bedroom.

I cooked for them,
i sewed their stories ,
i calmed down their childish weeping.

The women dressed in yellow
made the sunflowers happy,
and the children wearing black braid,
sang songs of atheist mandolin players.

The strong smell of food incited my will.
Macondo’s people saddened happiness
inspired my poet keeness,
and nobody wanted to sleep,
and nobody wanted to wake up.

I painted my lips red and started to dance,
i married that night at the light of the incestuous moonlight,
and gave myself up to the wind,
and made love in the sea.

Something dawned on me
when I walked alone through La Mancha Village,
so I left the suitcases on the floor,
and alone knocked down every wall,
and made my pleasure
my official dewelling.

A BAD DAY




(Traduzido por MAIDA OLIVEIRA)

I hate all formalities,
shallow interpretations
the beauty of by chances,
that surround us in so many moments,
unexpected,
unready,
bandit.

I hate dark suits,
the lack of freedom,
the fear of words spoken or unspoken,
the fear of expressing,
upsetting,
overloading.

I hate tv on Sundays,
the neighbor’s ungraceful routine,
the war in the Middle East,
and every kind of Christian mass.

I love the lack of warning,
right timing for improving,
what's seen upside down
without end or beginning,
the monarchy of anarchy,
the verbal streams.

I love everything that allows,
that is inviting,
all that is tactless,
the hits and the miss.

I love open houses,
the cats on the neighbors’ roofs,
the floods that overflow
and all kind of high tide.

Damn all honour
and damn the world
of tedious people
of no contradiction.

quarta-feira, 12 de março de 2008

NÃO HÁ NINGUÉM QUE VOLTE

Não há ninguém que volte
ao que um dia abandonou,
o passo que cruza a última fronteira,
o pra trás que não se olha,
a dor que não se ouve...
o nada que restou.

O sonho que se transforma em obsessão,
a necessidade da partida,
o eterno ir,
a conquista da viagem.

Fui mais longe ainda,
nunca permaneci.
Recebo cartas de inúmeras fontes,
nunca respondi.

O que faço do que fui?
Desencanto e esqueço
E se não fui?
Melhor assim.

O tarde que já se afasta,
os dias que já não são meus;
perto da linha de chegada:
mais um adeus.

Me desmonto para redescobrir
o que ainda há em mim;
não me ajusto ao temporal,
nunca me aqueço.

O rosto que já não reconheço no primeiro espelho,
as margens de alguns rios,
o expulsar de antigas sombras,
a eterna busca do eu.

Onde mais posso encontrar,
motivos para voltar?
Eu que abandonei diversas casas,
eu que me abandonei?

Nas longas manhãs de janeiro,
meus dias passam iguais...
Meu corpo parece cansado,
a visão turva e a falta de espaço.

E de tantas lembranças,
meu mundo se fez menor,
não sei onde estou
mas já não reconheço o que atrás ficou.

Tenho medo de mim,
nada tanto assim,
falo mais do que hoje sinto...
falo muito mais.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

ANDO SEMPRE ASSIM

Ando sempre assim
meio de bando,
falando o que não se houve,
fazendo planos inúteis.

Ando sempre mais à frente,
fora do tempo escasso,
além do seu alcance,
aos trancos.

Ando sob o céu sem nuvens,
de branco,
descalço,
em paz constante.

Ando meio assim,
lenta,
no ritmo dos dias sem fim,
sem som.

Ando sempre assim,
na eterna busca do sentido,
nas tardes quentes,
no meu lugar.

E andando meramente vã,
faço estrada de pardais,
vôo alto e me afasto,
do ninho que me oprime ao sul.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

ATÉ O AMANHECER

Até o amanhecer vou contar toda a verdade,
perder o medo da ocasião e do acaso,
varrer a poeira e o mofo da mesa,
guardar segredos aos ouvidos surdos.

Até o amanhecer vou permanecer do avesso,
sonhar outro sonho mais simples,
escrever frases mais curtas,
trabalhar a ilusão e a pureza.

Até o amanhecer vou forjar novo traço,
algo que se compreenda,
nada que aflija,
nada que adoeça.

Até o amanhecer não mais estarei só,
vou tolerar gente comum,
deixar pegadas na eterna praia,
que de sol em sol nunca se ausenta.

Até o amanhecer o poeta criará novas asas,
e flutuará sobre a ponte que divide as palavras,
a intenção,
e a calmaria da insensatez.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

EU PENSAVA QUE NÃO PODIA ESCREVER VERSOS

Eu pensava que não podia escrever versos fortes,
pois de mim muito se revelaria,
a quem não pudesse ouvir o som da fúria que consome o artista pronto:
a arte, companheira e mestre de corações exaustos,
consumido por infinitas impressões que se acumulam,
a tentativa de sobreviver como um comum.
Ignorar os altos ideais da juventude hoje próspera;
calar a confusão que se sente nas reuniões de família,
os segredos que aos poucos se revelam.
Ser normal é um desejo utópico.
Amadurecer é compreender a criança que em si mesmo habita;
trafegar em ruas diversas em busca de mais uma esquina cinza,
atravessar a sublime fronteira que separa os homens.
Não somos iguais, eu e você.
As tintas dos meus versos tingem minhas mãos,
o temor da escuridão que hoje é vencido;
o estar só de bom grado e plena satisfação.
Acumulei amantes insípidos,
poucos me deram inspiração e coragem;
músculos abrutalhados não me excitam
nem a ladainha do eu te amo sem som.
Casei com a obra de arte que estava exposta em um museu.
Não poderia imaginar que seria tão feliz,
eu pensava que não podia escrever versos.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Programa Nosso Estilo com Alfredo Gini - TV GUARAPARI




Ontem, quarta-feira de cinzas, Gustavo e eu fomos entrevistados no programa de TV Nosso Estilo com Alfredo Gini. O programa foi ao ar ao vivo às 14:00hs e o tema principal da entrevista foi o processo de criação do escritor, suas inspirações e sobre o espaço que há na mídia virtual para o desenvolvimento e publicação de novos autores.

Gustavo Maioli, produtor do blog, falou sobre as diferenças existentes entre a configuração dos blogs e sites, e afirmou que a produção de blogs atualmente é uma forte tendência no mundo virtual pela facilidade de acesso e rapidez nas atualizações.

O programa será reprisado no próximo sábado, dia 09/02 pela TV Guarapari, canal 08, às 14:00hs.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

VISITEI AQUELE MAR





Para Marcos H.

Visitei aquele mar por tantos dias
que ele ainda molhado sobrevive em mim.

Nadei pelo horizonte úmido
na companhia de outras aves;
acostumei-me à imensidão.
Naufraguei diversas vezes e me salvei.
Sobrevivi a tempestades mudas,
gritei mais alto que o trovão amargo
que por despeito a mim se impôs.
Será que o mar se lembra?
Sentirá ele o cheiro do meu corpo suado?

Quando estava distante
notei o farol,
soberbo a iluminar a escuridão infinita...
Alguém mais notou,
alguém além de mim.

Não pude alcançar a margem distante e,
mais uma vez naufraguei.
Havia uma mulher a mais ali,
ela não me viu.

Às vezes meu corpo ainda balança,
mesmo na cama.
Às vezes meus pés não alcançam o chão,
mesmo de pé.

Vou dançar com os pés afogados no oceano
para ver se ele se lembra.
Visitei tantas vezes sua extensão,
nadei sozinha com os olhos cheios d’água;
minhas lágrimas não comoveram sua ondulação,
minhas lágrimas nunca secaram.

Meu pensamento ainda vaga pelo cais,
minhas roupas ainda estão encharcadas,
as lembranças escorrem pelo corpo em caos,
minha vida naufraga.

Visitei aquele mar por tantos dias
que ele ainda molhado sobrevive em mim.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

CONSTANTE

Passos largos cruzando vidas,
nenhum oceano profundo demais,
nada que impeça o pensamento de vagar,
percorrendo estepes frias,
correndo atrás de crianças sem pais,
caminhando e hesitando no limiar da noite.
Ainda é sol.
Ainda meus ombros queimam.
Tantas cores a desenhar extensas impressões,
calculo mal,
me atraso,
nunca estou lá na hora precisa.
O trauma do sonhador é sonhar demais
perdendo a hora e o compromisso inadiável.
Não me calo.
Falo, e falo e falo
a quem quiser ouvir,
que escute os versos frios.
Sou acusada de inexatidão...
Pois não? O que lhe agradaria?
Algo plausível?
O exército em marcha composta?
Não, lamento;
não consigo manter-me em linha reta,
a precisão me abandonou no extremo espaço vazio,
nada preencheu meu peito corado.
Vago, e vago e vago,
Fui e ainda sou aquele que aqui mora;
nada demais a ver na estante repleta de livros distintos;
se não cuida do intelecto não encontrará distração nos meus aposentos.
A corrente de ar seco paralisou os pássaros,
agora eles descansam.
Vejo tudo da janela, mas não ouso a rua,
estou nua,
não posso expor-me.
Penso que um dia alguém lerá algo sobre mim
e não me orgulho.
Fui só um sonhador
entediado da vida
e cheio de expectativas de fuga.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

O QUE SEI EU DO OCEANO E DAS LONGAS NOITES DE VERÃO?



O que sei eu do oceano e das longas noites de verão?
O que sei eu do coração do poeta aflito,
eu que também poeta sou
e que interpreto mal a aflição do meu próprio coração ?

O que sei eu das longas noites de inverno
na superfície branca de alguns desertos longes?
Eu que também habito a noite sem lua
da cidade onde não nasci
e mal sei do céu extravagante que se revela em minha aldeia.

O que sei eu do cavalgar de cavalheiros que habitam
planícies distantes,
que montam cavalos de gelo no litoral glacial de outros montes?
Eu que dia após dia caminho à margem da vida
e mal sei do que há para lá da estrada velha.

O que sei eu da artilharia das guerrilhas de outros continentes,
o atalho inimigo que sufoca a fé?
Eu que de versos ocupo meus dias frívolos
e que batalha alguma jamais venci,
quando o mais distante que fui foi logo ali.

O que sei eu do que você sente por mim?
Eu que mal me agüento,
que nunca me ocupo do espelho que há em casa
e que me levanto sempre só
sem nada novo a dizer.

O que sei eu de estranhos poetas que se manifestam com tintas frescas
e nunca se molham?
Nada sei do que há morto em mim
o que descama,
nem da pele que troca quando adormeço.

O que posso saber daquilo que nunca vi?
O que posso mais além de fazer com que brotem palavras ocas
no papel virtual que manipula a loucura
que há muito tempo mora em mim?

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

VERSOS FRIOS



Meus dedos rígidos hão de prosseguir,
formando palavras de gelo,
preenchendo lacunas do que não foi dito,
manuscrito inédito cristalizado ao vento.

Ainda faço versos após o meio-dia,
hora em que o abade já deixou a capela
e tenta fingir que ainda crê em Deus;
como se o divino fosse algo além do anonimato poético.

A censura não me viu,
afinal sou nada mais do que alguém que se encanta com palavras de neve.
Faço versos frios longe ainda do inverno,
abdiquei das luvas e dos conselhos de aquecimento íntimos.

Não peço mais do que poucas palavras,
algo que me livre do senso comum.
Caminhei muitas tardes atrás do tempo perfeito,
das ruínas, das vírgulas e das abstrações.

Ouvi de alguém que assim era o artista;
profissão imaginária e imensa na solidão.
Tremi de frio junto aos livros gelados,
compreendi melhor os poetas e a revolução.

Não sou de partido algum,
a política limita-se a uma página no noticiário exausto,
perdi a fé nos ideais sublimes,
recolhi papéis, lápis e me retirei.

Mas meus dedos rígidos hão de prosseguir,
em busca da palavra heróica.
Talvez faça amigos nas salas proibidas,
talvez meu dedo queime desenhando palavras gélidas
estranhas a mim e a mais ninguém.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

OÁSIS


Não havia lugar algum
Capaz de esconder a volúpia
O céu tingido de azul sem forma
Recolhia os resquícios do vento voraz
E mergulhando os pés em areias profundas
De fugazes hóspedes o deserto tornou-se abrigo

Coberta de seda e ouro
A sultana se pôs a dançar
O lenço verde ocultando segredos
O contorno marcado na terra
Finais de tarde sob o trêmulo sol
Música de transe num conjunto obsceno

Após a meia-noite o som se torna grave
Os portões fecham-se ao forasteiro
O cheiro do tempero africano inunda a varanda
Os tambores rugem para o silêncio em paz

Oásis em festa
Lençóis de organza e jasmim sobre camas prontas
Elas entram em bandos sob o véu negro
Deusas sagradas da planície inóspita
Mães da vida que há na terra
Senhoras de todas as casas

Não se houve uma palavra dos lábios cobertos
Apenas o corpo fala
De véu em véu o deserto se abre
Sob a multidão de estrelas sublimes
O ar rarefeito adoça-se e desce

Sempre caberá mais uma alma feminina
Toda curva de Eva regozija-se e brilha
O luar cúmplice calado se impõe
E o harém do marajá
Seduz a cores
Palavras que jamais serão ditas.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

OS EXILADOS DE MOSCOU


A perseguição aos poetas russos no alvorecer do comunismo.

A ideologia comunista como meio de igualar direitos e deveres sociais, mergulhou num abismo profundo oculta sob a proteção rígida da Cortina de Ferro. O objetivo máximo da revolução era criar uma sociedade alheia às diferenças inerentes à alma humana. Na aldeia comunista, ninguém podia pensar. O pensamento humano deveria estar plenamente de acordo com os interesses governamentais do partido ou o pensador autônomo se veria envolvido em graves problemas.

O conceito de partilha territorial e racionamento de bens de consumo passou da teoria à prática de forma radical e impensada. Não se cogitou a possibilidade de uma rebelião originária da alma dos soviéticos; uma revolução dos desejos e dos sonhos pessoais amordaçados e submetidos ao falso esquecimento.

A depressão aumentou, o nível de suicídio subiu, o consumo de vodka ultrapassou todas as fronteiras do aceitável; mas a hierarquia governamental soviética fingiu que não viu.

Em meio ao caos da opressão, a arte manteve-se fiel ao seu princípio sublime: revelar o que se vê.

O calcanhar de Aquiles russo estava escondido justamente aí, na cabeça dos homens que pensam. E em meio ao caos de uma revolução, a alma grita com ainda mais força.

O que se viu na antiga URSS comunista foi uma barbárie. A intenção de calar o sentimento e a sofreguidão humana foi de uma ambição dantesca. A idéia de fazer dos soviéticos homens inteiramente iguais nas necessidades e no pensamento só poderia naufragar em meio a um oceano escuro e sem rota de direção.

E como o espírito da arte é incorruptível, ele manteve-se íntegro e, nos momentos mais cruciais, manifestou-se com altivez nas vozes de seus poetas russos. Porém, cuidado! Os homens que pensam não podem ser bem vindos. Se alguém escuta, todos poderão acordar e perceber que o pesadelo é real.

E aí vem eles: Feodor Dostoyesvsky (exilado na Sibéria como prisioneiro após escapar da pena de morte.); Ivan Turguenev (exilado na França após ser expulso da pátria soviética); Alexander Pushkin (morto em duelo por armação do czar); Anton Chekhov (perseguido pelo governo por denunciar as condições vexatórias impostas aos prisioneiros); Máximo Gorky (expulso da Academia de Ciências do Czar); Boris Pasternak (viu reduzida sua tarefa a de tradutor, para que fosse impedido de pensar por si mesmo); Ossip Mandelstam (exilado para a Sibéria até seus últimos dias); Anna Akhmatova (proibida de publicar seus escritos sob a censura do regime de Stalin); Maiakovski (perseguido pelas autoridades stalinistas, suicidou-se em 1930).

A lista de poetas e escritores russos vítimas da intolerância governamental é inacreditavelmente extensa. No auge do regime comunista ortodoxo, era vetado ao artista qualquer forma de manifestação contrária às intenções do partido. Mas a colônia dos poetas manteve-se ativa. Os poetas produziam seus poemas e o faziam transitar entre as rodas intelectuais anárquicas. Logo, todos estavam cientes da circulação do novo poema e o poeta tornava-se consagrado no âmbito obscuro dos revolucionários mudos. A poesia driblava a censura e permitia que a chama da liberdade de expressão se mantivesse acesa no interior de cada indivíduo russo.

A poesia e a literatura são armas tão poderosas quanto o armamento pesado voltado para a Praça Vermelha. É por isso que o artista não pode esquivar-se da verdade. O covarde retira-se na hora da guerra. O bravo manifesta-se.

Os exilados de Moscou falaram tão alto que suas vozes ainda ecoam em nossas vidas. A realidade do poeta contemporâneo não está distante do momento soviético dos séculos passados. Ainda estamos lutando contra as forças de opressão da massa ignorante. Ainda incomodamos. Ainda nos é necessária a coragem extrema.

Portanto, mais uma vez, fica aqui a mensagem, ser poeta é assinar um pacto eterno com a verdade e com a revolução intelectual para que seja fonte de inspiração e consolo para as futuras gerações.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

A FARSA DA IGUALDADE

Nada mais insensato do que a crença na igualdade. Nada é igual. Pessoas guardam sonhos diversos em gavetas secretas. Crianças buscam divertimentos opostos. Homens e mulheres, crentes e ateus. Quando penso nas tentativas de generalizações impostas por alguns governos, sorrio com desprezo. Quando penso na escravidão imposta aos estudantes medianos, perco a esperança. A beleza de ser humano é poder expressar-se livremente. Os infinitos potenciais, as necessidades distintas, a ousadia. Nunca suportei regras ditadas. Fujo da mesmice, da hipocrisia, da massa idealizada e do processo nacional de inclusão. Penso que o espaço não deve ser cedido, mas conquistado. Os rituais não podem ser impostos, mas sentidos. Não compreendo pessoas que não buscam mais. Não entendo a paralisia que congela sonhos. Não vejo senso no cotidiano insosso. O maior temor do ditador é ver exposta sua fraqueza. O maior temor do sonhador é ser por ela dominado. Vamos viver uma história heróica e permitir que nossos nomes sejam lembrados. Viver é muito mais do que sobreviver. O chão da minha casa às vezes está sujo. O meu corpo, cansado. Minha fé, abalada. Mas se os dias não são iguais, nada disso importa. Amanhã retorno ao caminho da revolução que, sem pressa, me aguarda sempre.

sábado, 19 de janeiro de 2008

ENCENAÇÃO




A cada espera uma renúncia aflita,
A certeza oculta sob vaga inspiração,
O temor da abstração,
O caos poético.
Liberava palavras em promoção,
O máximo desconto por sermão,
Frases de graça,
Tudo à venda.
O revolucionário guardou o livro vermelho,
E nunca mais se pôs em marcha;
Agora lia tramas inventadas,
Fora do alcance da razão.
A rainha ergueu o cetro imponente,
E proibiu todo tipo de aberração.
A celebridade que ontem era alguém,
Viu-se só ao meio-dia,
Mas ninguém ousou comentar...
O dançarino que se despia à meia-noite,
Dormiu só,
Mas ninguém se aproximou.
O tempo que parecia passar
De repente parou,
Mas ninguém sequer notou.
A dança das horas,
O horror dos heróis,
O que há depois?
Distribuem-se autógrafos!
A vida é o que fazemos dela,
Somos atores do dia comum,
O grande fingidor.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

A ARTE DA ESCRITA



Reflexões sobre o ofício do escritor nos tempos da internet

Li muitas teses sobre o futuro da literatura impressa nos tempos virtuais. O prognóstico apontava para uma revolução mundial, onde os textos rápidos utilizados na rede acabariam por liquidar os antigos volumes convencionais. Felizmente, o que descobri navegando pela rede me motivou a continuar com meu sonho de ver meus livros impressos em livrarias! Sinto que o interesse pela literatura está em processo de expansão.

Estou cada vez mais impressionada com a quantidade de novos títulos que vejo expostos nas vitrines toda vez que vou a uma livraria. E estou entusiasmada com a quantidade de sites e blogs dedicados ao ofício da escrita.

É claro que haverá sempre exceções às regras, mas de modo geral, tenho encontrado textos interessantíssimos de novos autores que estão expondo seu trabalho na rede. Está se formando uma nova comunidade intelectual de jovens talentos que tem algo em comum: a conexão virtual.

Acredito que o ofício de escritor é um trabalho árduo e apaixonante. Engana-se quem pensa que a dedicação à escrita possa limitar-se aos finais de semana, como ocorre em alguns esportes. O verdadeiro escritor, aquele que escreve por paixão, sabe que grande parte do seu tempo é manipulado pelas idéias contínuas que lhe invadem o pensamento. Para colocar isso tudo em ordem, precisamos de tempo e um pouco de solidão.

Antes de ser um verdadeiro escritor, é necessário que sejamos excelentes leitores. E em uma época de extrema liberdade de expressão, nada mais normal do que a vontade de contar sua própria história. O escritor fala, põe para fora tudo o que lhe alcança o sentido. E, da mesma forma, o escritor lê e se interessa por todas as idéias que estão fervilhando ao seu redor. Antes de mais nada, o escritor procura um mundo novo. É por isso que ele escreve. E é também por esta razão que ele está sempre aberto a conhecer pessoas que compartilhem deste mesmo ideal. O escritor inspira o leitor e vice-versa.

Portanto, se você acredita num mundo com novas regras, com imensas possibilidades, onde não haja erros e acertos, mas buscas e encontros; você traz em si o potencial para desenvolver teorias e compartilhá-las com a nova nação de jovens intelectos.

O escritor não pode carregar preconceitos, não pode ter medo de expor idéias extravagantes (e até mesmo mórbidas) e, principalmente, não pode ser vulnerável à crítica de sua obra. A crítica é inevitável, mas o prazer de trazer à tona toda a impressão que em você se acumula é maior do que o ranço insensível dos julgadores de plantão.

O escritor verdadeiro crê no que conta; pois suas histórias revelam sua percepção secreta da vida.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

BOÊMIOS


A preguiça e a falta de senso
A vida em vermelho
A garrafa ainda cheia
Muitas horas a mais
O preço pago pelo sorriso
A exclusividade suposta
A falta de freio
A casa cheia
O perfume doce suspenso
A aristocracia nos guetos
Nada mais importa
O som das palavras cansadas
A desforra
Toda forma de amor se revela
Tudo é possível
A cama pronta
A noite azul
O calor
A casa em festa
Tudo à mão
A vida exposta
O excesso de brilho
A música vibrante
O imenso salão.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

A CEREJEIRA


Volto sempre ao mesmo lugar. As cerejeiras permanecem na expectativa do florescimento sublime. Seu perfume faz-me pensar sobre o sentido da obra humana. Para quê? Quando ouço as crianças sorrirem sem motivo, renovo a esperança. Mas então elas calam, e já não sei onde estou. O espetáculo da vida repleto de cores. E é assim que me assisto. Parte do elenco principal, vestindo o figurino dourado. Felicidade suprema é ver o canteiro em êxtase. As cores dos rios que transportam o espírito peregrino, a navegação absoluta, o atalho. O sol que bate em algumas janelas vivas, comove os visitantes do vilarejo. Mas nada se compara a imponência da cerejeira que em meu pensamento cresce. Apenas uma vez ao ano ela mostra sua grandeza. Apenas uma vez ao ano ela seduz. Mas apenas uma vez é o suficiente para penetrar nossas vidas e nos encher de paz. A cerejeira que desabrochou, tornou-se a razão da minha vida. O ponto alto da beleza; o ideal máximo de renovação.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

A ÓPERA DO VENTO


A migração de certas aves
O alvoroço aéreo
A aproximação constante
O território alheio e distante

O fantasma do pólo passa veloz
Permanece oculto na imensidão branca
Ouvinte atento da música natural
Cantor amador de coral e ópera

Palco de vendavais e guerras
Muito além do longínquo
Placas de neve deslocam-se
Num festival antigo e lento

Sinto saudade do que não vi
Mantenho a esperança
Sinto frio
E partilho alvas lembranças.

Na região do extremo norte
No limite do mau tempo
A ópera do vento faz-se ouvir
A seresta glacial
O fim dos tempos.

domingo, 13 de janeiro de 2008

NORTE




Não havia ninguém observando
além do horizonte congelado e distante
o vento forte cantava opera no fim do mundo
e a paisagem branca inspirava calma e silêncio

Estranha habitação de nômades carnívoros
sobrevivendo em ocas de gelo
os esquecidos do tempo moderno cultivam frias lendas
e mantém intacta a sublime corrente altiva

Eu estava só no último eixo
não havia terra seca no chão
não havia som humano
apenas o chamar contínuo do eterno vento

E o oceano radiante era o senhor da casa
mimando a vontade de alguns mamíferos
guardando tesouros complexos no seu regaço
e inundando a vida de brilho e profundo reflexo

marquei o solo com pegadas potentes
o frio extremo penetrou em mim
e tremendo por dentro fiz outro pacto divino

não plantei nenhuma semente,
mas trouxe para casa uma nova esperança;
contentamento de um hábito longínquo.

sábado, 12 de janeiro de 2008

CAMPO DE ENSAIO

A todo instante uma revolução ocorre em meio a tantos turbilhões. A couraça que nos reveste intimida o erro, que se afasta e some. Penso que a vida anda com hora marcada. Tudo a seu tempo, sempre. Percorremos fronteiras de terra sob o sol eterno e sagrado. Cremos em rituais e ritos. A cada momento o sonho se transforma. Sempre queremos mais. O espectro do que fomos ontem se dissipa e morre. Novo ser a cada dia, seguindo em frente no despertar de nova aurora. A química e o experimento juntos em fusão sublime. Tentamos tudo. Os erros e os acertos como partes intrínsecas ao caminho. Ampla exposição atrai opostos. O eterno paradoxo. Somos isto e aquilo, mas não somos rígidos. O elemento catalisador, o campo de ensaio.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

BUGANVÍLIA



Nada mais atraente do que o cheiro de fumo e o odor das flores frescas. O aroma suave que consome vidas e praças a tudo enaltece. Sento em jardins. Escrevo versos. Inspiro o ar pesado da tabacaria próxima ao porto. Sonho com o cais e velo partidas. Sempre adeus. A maioridade, os trinta anos, a descoberta do próximo estágio. A vida das florestas ofusca o mundo do crime. Sempre inocente. Que mal há em perder-se em subúrbios quentes? Passeio sem livros à mão, mas a ávida imaginação sempre me apanha. As casas coloridas e os tecidos vermelhos. Os vasos artesanais. O folclore e a fascinação. Colhi buganvílias no quintal vizinho. O sol queimou meu rosto claro e mais um dia nasceu.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

ESPERA-ME




Espera-me no último instante
Prometo que estarei contigo a tempo
Tentada estive sempre a deixá-lo
E por isto a cada passo, uma ausência

Espera-me na fronteira da ilusão
Onde os pés já não seguem atentos
Devemos mais à amargura de erros atrás
A colheita infame dos perdões e do senso

Espera-me no céu meu grande amor
Porque o paraíso acolhe o demônio ateu
Guarda em teu peito a virtude da razão
Para que sirvas de consolo no momento derradeiro

Espera-me à sombra do amanhã
Que o tempo dissimule a intenção
Para que não haja desafio nem sermão
E que tudo valha a pena.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

DIÁRIO DE UMA JORNADA INTERIOR





Sempre atenta às cores das manhãs,
minha alma exulta.
Por que não posso mais?
Por que o limite?
Quero estar viva quando a hora chegar.

Todos os dias lamento ao sol...
seu amor resplandece.
Guardo o horizonte atrás da retina ,
queimo pontes
e atravesso meu destino a pé.

Hoje à noite vou olhar o céu desnudo
e ouvir o cantar do último pássaro
capaz de habitar minha janela.
Estarei atenta à expressão do lume,
pois a falta de pressa produz o divino

Nada mais além do meu alcance,
quero estar só.
Reflito sobre o passar dos dias...
Que passa eu?
Quem passa lá fora não me vê,
nada sou.

Perto do primeiro refúgio
molho minhas mãos no sereno;
passa tudo e eu ainda só.
Camuflando o corpo e o sentido,
submetida à disciplina e ao rigor,
passa a dor.

Por trás do infinito ainda há mais?
Cega estou.
Caminho em chão de plumas que levitam,
enxergo longe.

O prisioneiro disse que a prisão o salvou...
Antes ele não era ninguém,
agora tem mais tempo e uma missão:
libertação.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Herói

Estava avesso à tudo ao transferir atitudes de medo
E sentir ecoar o som da última batalha do norte
Carregando no peito angústias tímidas
Sem assumir a própria deficiência
O limite

Fazia tempos que operava a busca insana
Se perdia e se encontrava nos fundos da velha casa
Nada a tinha a perder que à alguém já não tivesse sido entregue
Sem olhar no alto espelho
O pavor

Vivia de elaborar novas rotas
Queria chegar primeiro
Da estrada vil trouxe aos bolsos areia
Da terra plana nada de novo
O silêncio

Perto de agosto já não havia mais história de histeria
A calma perecia nos armários sagrados
A fronte sempre séria contava os dias insones
A pressa sempre aflita a escavar trevas e luz
O medo

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sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

FORA DE COMPASSO



É certo que o tempo veloz se olvida de medidas importantes. A espera crítica, a angústia, o desespero. A má educação das tribos conduzem à guerra. A fome de emoção contorna becos sem saída. Sempre à espreita. Um paradoxo contínuo. A miragem. Perco o freio e estou sempre atrasada. Pelas páginas do meu diário vermelho expresso os terrores de cada país tropical, e de cada fronteira. Posso ser mais de mim mesma, posso muito mais. A vida caminha fora de compasso. A última viagem. O adeus.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

E EU QUE ERA TUDO OU NADA...

Reconheço que muitas horas do meu dia escapam ao presente. Sou capaz de me perder em devaneios frívolos buscando a estética de alguma palavra ou caindo de amores aos pés de uma frase inédita que a mim se apresenta. É cada vez mais difícil manter a concentração em algo que se supõe sério.

Não creio ser senhora dos meus textos. Na maioria das vezes busco a folha em branco com o intuito de extravasar em verso alguma forma de alegria interna, mas isso nunca se manifesta em poesia. Quando dei por mim, já revelei entranhas.

Penso que o poeta vive duas vidas simultâneas que jamais se cruzam. Talvez a poesia tenha o dom de revelar formas, trazer algo à tona, à superfície.

O pensamento e as cores são guias condutores que se alimentam do eterno espaço vazio, constante potencial de supremo assombro.

Não sobrevivo da minha arte, mas o sonho ainda não acabou.

Quando penso em minha vida percebo que sempre fui tudo ou nada. Jamais me ofereça menos do que pode, pois a mim não interessa. Guarde as migalhas.
É triunfo ou tragédia.

O importante é ter livros à mão e histórias que deixem meus olhos rasos d’água.

Gosto de tudo que me remeta aos ideais do universo literário. Caneta, papel, estante cheia e cheiro de fumo cubano.
Edifico casas aos meus ídolos, mas não raro me sento ao jardim, por motivo de estranha humildade.

Antes era eu quem buscava a poesia, hoje sou dela refém. Pobre daquele que repete versos sem nunca arriscar algo seu. Quem clona não se traduz. A mim, nada mais aborrecido do que gente sem luz própria.

Tenho medo de perder-me na estrada dos excetos.
Desconfio do excesso de virtude e do vício.

E eu que era tudo ou nada ao meio-dia continuo seguindo meu rumo eterno de amor e de sombras. Acredito que o Universo sempre conspira a nosso favor. Acredito em anjos. Acredito que tudo acontece na hora certa. Acredito no poder absoluto de uma sincera oração. Acredito em milagres...

Falo demais, eu sei. Penso demais. Mostro demais.

Mas é sempre tudo ou nada, do contrário, não valeria à pena. Não me interessaria.