domingo, 30 de dezembro de 2007

IMPRESSÕES

Não sei por que os dias são sempre iguais. Que a tudo em ouro se converta, diria o alquimista mais crente. Pelas estepes sagradas de alguns desertos clandestinos, a luz se revela plena. Não moro mais aqui. Minha cidade turbada por invasores forasteiros jamais me pertenceu. Por isso guardo a prata da casa nos armários de outros tempos. Não era eu quem ao seu lado esperava em cinzas. A toda hora do dia o desejo se manifesta. No apagar da aurora seca revela-se audaz. Foi há muito tempo que desisti do medo. Na hora do espanto, aquele abraço me acordou. Tenho tido muitas horas vagas neste lugar. A inutilidade confronta os argumentos do tempo. Escalei sete vezes a montanha do santuário e nada vi. Permaneço calada e serena. O andar firme de certos passos me atrai. A onipotência, a onipresença, o sacrifício. A roda da vida sugou os maremotos frios e as calefações. Tenho todo tempo do mundo e isso me excita. Posso ser mais do que hoje sou. Não é na dúvida que o caminho se faz. Eterno porvir encanta as margens de alguns oceanos, mas não o meu. Caminho descalça com os pés na terra molhada. Atrás de uma estrada, um beco, uma luz, uma justificativa que motive uma escolha que faça todo o sentido no momento final.

MIGUEL E OS CAVALOS NO GELO



Este mês de dezembro um novo ciclo se encerra em minha vida. A chegada dos 30 anos, a auto-reforma, a exposição da obra e o contexto.

Meus escritos sempre foram habitantes das gavetas.

Mas enquanto eu me preservava da imprevisível crítica, Miguel já se expunha.

Tal qual Santo Arcanjo, Miguel travou uma batalha feroz contra a rotina e a mediocridade da massa insana. Miguel mostrou mais do que se poderia supor.

Montado a cavalos do gelo, Miguel desbravou os pólos frios da filosofia através de um texto sensível e inteligente. Miguel e seu bando selvagem nos fazem pensar.

Este mês de dezembro um novo ciclo se inicia em minha vida.

Pela primeira vez vejo meu trabalho publicado em outro lugar, cruzando fronteiras. Sob a proteção glacial de seus cavalos, minha obra atravessou o oceano e hoje está exposta em Portugal.

Há diversas razões que justificam um encontro. Para Miguel e eu o motivo se fez claro. Ambos vivemos mais de uma vida, percorremos os labirintos internos do inconsciente e temos a comum mania de organizar o caos através da manifestação expressa do pensamento.
Sou eu quem te agradece Miguel.

Acesso ao Cavalos no Gelo: http://cavalosnogelo.blogspot.com/

CAVALOS NO GELO

Percorrendo mares insanos na velocidade de uma rota única
trazendo nas costas homens de aço
os cavalos do gelo cavalgam majestosos ante a fúria implacável do grito mortal
do excesso de liberdade e total domínio do tempo

molhando os pés cruéis a desatar amarras profundas
seguindo sempre em frente longe da culpa faminta
o vento forte do topo polar rompe crostas frias de medo
e nos leva em silêncio aos limites de um abismo interno

veloz também é a raça humana evoluindo em turbilhão e fogo
capaz de reter apenas um verso da história de ontem
e caminhar sozinha no litoral sem fronteiras

os cavalos de gelo habitam a noite fugaz
transitam em bando, aos bandos explodindo em luz
e quando o sol nasce indicam o caminho a todo forasteiro
imune ao desespero e ao previsto caos.

AGRADECIMENTOS

Este projeto não teria sido possível sem a colaboração de um grande amigo, Gustavo Maioli. Desde o início eu tinha formulado em minha mente a “cara” do site. As cores que o revelariam, o formato, a intenção. Gustavo fez um trabalho excepcional. Ouviu as minhas idéias e acrescentou outras novas ao projeto original, enriquecendo-o. Todas as fotografias também foram feitas por ele. Além de demonstrar extrema competência gráfica, ainda revelou-se um fotógrafo de talento. Adorei Gustavo! Obrigada.

Agradeço também a todas as pessoas que me deram um enorme incentivo para que minha obra se tornasse pública. Os leitores de minhas poesias sempre foram críticos honestos, o que contribuiu para o meu amadurecimento poético.
Obrigada a todos.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

E EU QUE ERA TUDO OU NADA AO MEIO-DIA

E eu que era tudo ou nada ao meio-dia,
Que cantava a chuva ao inverno frio,
Que rastejava seu nome aos pés do caos,
Que andava só e nua
Sob o sol da minha rua.

Eu que amei a todos enquanto contemplava a vida,
Que odiei o vento sul nas tardes de sábado,
Que lamentei a morte e celebrei a vida,
Que troquei tantos sonhos por livros preciosos,
Que andava a pé, à toa,
Sob a lua do meu tempo inútil.

Eu que praguejei injúrias na sexta-feira treze,
Que amaldiçoei a falta de sorte do mundo,
E invejei meninas de cabelos dourados,
Durmo hoje ao som de eternas rumbas,
Uso vermelho às seis da manhã,
E ando de preto,
Sob o sol do meu destino.

Eu que nunca lamentei meus absurdos,
Que nunca retrocedi nos meus conceitos rígidos,
Que de certezas plenas amanheci em verdes vales,
Que escutei o ai solene de prostitutas virgens,
E derramei meu sangue ainda criança,
Ando hoje devagar,
Sob a lua cheia de histórias vermelhas.

E hoje aqui tudo é lembrança e esquecimento,
Minha casa é pequena pra mim,
E meus amigos já não dizem as letras do meu nome estéril.
Faço da rua abaixo passarela extensa
E ando ainda sem pressa
Sob o sol e a lua do meu caminho vil.

CAMPO SANTO



E quando corre pelo campo santo de Andaluzia
toda luz se esconde atrás de seus cabelos verdadeiros
e toda criança triste socorre a si mesma
e toda ovelha negra se sente abençoada

e ela segue em frente com seu vestido vermelho
e a noite chega mais rápida guiada por suas curvas indiscretas
enquanto a música de todas as basílicas
ensurdece o vilarejo adormecido

mas ela nunca se importou com alvoroço de sua presença
nem nunca olhou em nenhuma direção...
seguiu pisando a grama e acordando o dia
seguiu cantando músicas de sua própria autoria

e desenhou a própria face com os dedos ao vento
e construiu monumentos de barro terreno
sentou-se ao solo com a fúria dos instintos
e correu sem pressa pelo gramado onipresente

E pelo eterno campo de Andaluzia
prosseguiu sozinha em pleno verão
pra nunca mais ser vista na distante aldeia
e nunca mais ser esquecida na memória cálida da região.

NÃO APRESSE O RIO


Pelas águas verdes do nosso rio
te espero à margem
mergulhando em terrenos profundos
revestindo a superfície de escamas
nadando por furiosas correntes
sem medo do risco
de um possível afogamento

Ontem ainda estávamos juntos
corpo e alma molhados
homens e peixes compartilhando terras profundas
homens e peixes aprendendo e amando

Pelas águas verdes do nosso rio
te espero à margem
para que venhas lento no acordar do dia
para que se sustente no infinito leito
para que se revele

É no limiar dos passos antigos que tropeçamos
é no desvendar de eternos segredos que pasmamos
e é somente assim que nossa alma engrandece

Pelas águas verdes do nosso rio
te espero à margem

E cada vez mais amo assim o oceano
porque é lá que o nosso rio se encanta
e te esperando à margem deste eterno leito
conto meus dias ao último instante.

A LIBERDADE REAL

Hoje sou mais do que uma alma insana
Capturo versos eternos dos ventos imortais
E danço nua sobre o solo atento ao som do silêncio

Hoje sou mais do que um corpo em chamas
Ardo o fogo da liberdade
Que me permite ver o elo entre o absurdo e o ontem

Hoje sou mais que uma mulher comum
Meus cabelos negros dominam o mundo
E toda a fúria inerente está ao meu alcance

Hoje amanheci com fome de imensidão
Que a humanidade se envergonhe de suas limitações
Que as amantes tristes lamentem longe
Que a vida se inflame ao meu toque vital

Hoje quero sentir na pele as cores do mundo
Quero ter meus lábios vermelhos ao anoitecer
E ter o fim do horizonte próximo às mãos

Hoje sou alma livre
Liberta de todo preconceito e medo
Liberta de toda a angústia e opressão

Hoje quero abrir meus braços para o amor inusitado
E toda forma será única
E toda a dor uma ilusão

E os poetas que escrevem seus versos...
Ah! Os poetas que escrevem seus versos!
Estes sim, transformam vidas
Eternizando o amor e o mito da liberdade real.